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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A CEREJA DOS DESALMADOS

O sucesso da fase inicial da pandemia, tão retumbante que até lhe chamaram o milagre português, não se deveu a nenhum grande mérito dos gestores, DGS, MS, políticos, cuja actuação se pautou por um rol de falhas, omissões e contradições que esboroaram, a sua credibilidade e a nossa confiança.

O confinamento cujos malefícios: destruição de empregos, abate do tecido produtivo mais frágil, pobreza galopante, tratamento muito desigual, quer das empresas quer das profissões, fome de terceiro mundo… não cumpriu os pressupostos da sua razão de ser, apesar da adesão espontânea massiva: proteger os mais vulneráveis - os velhos, os doentes – que mesmo confinados em casa ou aprisionados em lares (prisão que se mantém) e apesar do vírus não ter transporte próprio, não escaparam ao contágio e à razia mortal, cujo número real está longe do apregoado. Este resultado, quer se trate de um crime premeditado, o que o torna hediondo, quer de uma desmesurada incompetência, tem responsáveis, que ao invés de punidos, vêm todos os dias do cimo dos seus altos cargos, dar-nos contas do seu falhanço e, omiti-lo, tentando passar a culpa para os cidadãos e ao enumerarem os óbitos vem sempre o coroar feliz: todos acima dos setenta, oitenta anos… E, esta miserável cereja em cima do bolo dos desalmados, enfatiza diariamente, que os novos, muito raramente são afectados com severidade ou com sequelas e a morte neles é excepcional, o  que carcomeu o medo, manifestando-se agora o desrespeito dos jovens pelos limites, inerente a um civismo que se desvaneceu… ou que nunca existiu.

Excepto o confinamento e a sua ambivalência e, os conselhos repetidos até à exaustão: higienização das mãos, etiqueta respiratória, distanciamento, não se vê prodigalidade, ou, medidas de eficácia real, como o seriam: lotação adequada dos transportes públicos; abolição das festas de cariz político, religioso ou lúdico, impostas sem medos, tibiezas ou ambiguidades (pois se até se proíbem os familiares nos funerais…); tratamento atempado e eficaz a quem dele careça, COVID ou não COVID, porque a morte é sempre o fim; ventilação adequada de todos os espaços fechados, quer sejam os lares dos nossos velhos ou as escolas dos nossos filhos, e, a sua desinfecção frequente; limpeza e desinfecção das ruas (ou será que o vírus morre ao cair ao chão); horários desfasados impostos com firmeza e não ao deus dará; multas a doer, para quem viole o distanciamento obrigatório, seja onde for; cumprimento das regras decretadas para os aeroportos (infringidas constantemente); contratação de pessoal de saúde para o SNS, de modo a possibilitar o tratamento adequado de todos os doentes e não ter de se recorrer à inevitável “selecção”, real desde o início da pandemia (eu próprio recebi várias mensagens a desmarcar-me consultas hospitalares); falar verdade aos cidadãos; testes, testes, testes…

Mesmo para os crentes e até para os clérigos os desígnios de Deus são insondáveis, e o COVID-19 que veio dar uma grande dádiva à “Senhora da Gadanha ” e trazer o gáudio e a prosperidade às funerárias, mata quase que exclusivamente pessoas de idade avançada, com ou sem comorbilidades graves e sendo obrigação do Estado que nos cobra os impostos, proteger os cidadãos, na saúde e na doença, urgia por força  do dito, isola-los eficaz e não atabalhoadamente, como o fez, privando-os das visitas dos familiares mas não impedindo que outros, os fossem infectar; amargurou-se-lhes o fim, mas não os livraram de uma morte escusada, encurralados nos lares, ao invés do que fizeram com os migrantes da Almirante Reis, ou do que fariam, se se tratasse de crianças ou de cidadãos importantes.

Aproveitar a pandemia para ressuscitar o SNS, tornando-o apelativo para os profissionais e de confiança para os doentes, o que só se conseguirá com carreiras médicas dignas, exclusividade com remuneração adequada e, muito mais pessoal…

Porque, se o cidadão só merece viver enquanto produzir, porque não tornar os descontos para a reforma, facultativos, como no tempo do ditador.


João Miguel Nunes “Rocha”

Publicado na Tribuna da Ordem dos Médicos em 3 Novembro, 2020

sábado, 13 de junho de 2020

OS GERONTES E AS VAREJEIRAS

Como vão longe os tempos, em que garoto cria, que todos os crimes eram punidos neste mundo e no outro e, me parecia crível, que o inferno fosse um remorso eterno, uma angústia sem fim. Agora, incrédulo e ateu, creio numa “alma” humana eivada de recônditos, repletos de pulsões primevas, viçosas ainda e, prontas a vir à tona sob estimulação bastante expondo a besta, que há na natureza humana.
No nosso tão civilizado Portugal, que até integra a U.E., a morte é sempre assinalada pelo zumbir das varejeiras; estas moscas grandes de um verde metálico, põem os ovos nos cadáveres porque as suas larvas  glutonas, devoram  vorazmente a carne com o adocicado pútrido da decomposição  e não descriminam por idade ao contrário do que acontece com as varejeiras da comunicação social, que preferem um só cadáver cuja juventude cative audiências, às centenas e centenas de velhos aprisionados em lares, mortos criminosa e macabramente, por omissão de auxilio e, que padecem dias e dias, não só do sofrimento inerente ao Covid-19, mas de terror crescente, do terror-pânico e da angústia atroz de perceber, que ninguém os ama ou quer, que de outro modo se não pode explicar, a passividade, a indiferença, constatada nas famílias e na sociedade.
Não me choca que em condições extremas se dê primazia à juventude; acho até que deve ser assim. Mas que se deixem morrer os gerontes, só porque os homenzinhos da agiotagem, querem retomar o negócio das reformas, que os velhos goraram, não morrendo no dia da aposentação ou, ao redor! Que raio de horrível mutação se deu nos cidadãos, para que aceitem calados, que se deem milhares de milhões de euros aos bancos (BPP, BPN, BES, BANIF,CGD…) que esbulharam os depositantes e os contribuintes e se matem os nossos velhos, para poupar na malga de sopa e na côdea de pão, ou que se aceite passivamente, que os nossos sexagenários são novos de mais, para a reforma, mas demasiado velhos para ter direito, se necessário, à respiração assistida?
Se acreditasse nas boas intenções que subjazem à aprovação da Eutanásia e do Testamento Vital, eu próprio subscreveria a morte para o dia em que perdesse a autonomia, porque considero que não há desolação maior, destino mais aterrador, do que viver num dos nossos lares, ou sobrecarregar uma família que não nos quer, mas como estou convicto que o que se pretende é eliminar prematuramente os custos das terapêuticas e da velhice e, que a vida, qualquer que seja a nossa idade, desde que independentes, é melhor do que a morte… (o sol resplandecente de inverno, o sorriso de um neto, o esboço de uma carícia, um sonho lindo de que se acorda com pesar). Mas de que vale a minha opinião de velho, se está em plena marcha um meritório plano para acabar connosco. De facto, o mundo fica mais bonito sem velhos: tão trôpegos, tão feios, com o rosto enxameado de máculas e de nevos, de xantelasmas e de xantomas, com o pelo a migrar do cocuruto da cabeça para as orelhas e para outras zonas, de seu natural peladas, rugas cavadas, abissais, um papo alongado a desabar do mento para a fúrcula esternal… Na minha opinião, bastam meia dúzia de velhos para desfear qualquer jardim. Talvez porque, esta constatação seja corroborada, por muita gente, o Estado dá um benefício fiscal às famílias que escondam os seus velhos em lares, ao invés do que acontece, com as que os mantenham no seio familiar. É um subsídio justo e em nome da estética; se em prol desta, até os nossos jovens mocetões se depilam, se maquilham e exibem os seus músculos hormonais, como aceitar que aqueles (os velhos) andem por aí, a destoar?
As máscaras de inúteis e até contraproducentes, passaram a obrigatórias e fonte de coimas e negociatas… será que o são, nas salas de convívio, atabafadas e promíscuas dos lares?
E, sentiria ainda mais orgulho (que é grande) pelos meus colegas da frente de batalha, se os visse denunciarem todos os encobrimentos e se forçassem a publicação das estatísticas dos velhos, que no rol dos mortos por Covid-19, tiveram acesso a cuidados intensivos, a ventiladores ou até, a hospitalização.
Agora que a pandemia foi controlada, embora se não se perceba bem porquê, já que as mortes continuam, e, o número de infectados aumenta todos os dias, veem os danos colaterais da contazinha e, os que se compraziam com o facto de os defuntos serem quase exclusivamente velhos, vão gemer sob o azorrague dos ónus a cargo do pequeno e médio contribuinte como é natural e, uso ser. E eu, talvez devido à demência, penso: mais valia manter os velhos vivos até aos novecentos e sessenta e nove anos, como Matusalém…
Oeiras 15 de maio de 2020
João Miguel Nunes “Rocha”

segunda-feira, 27 de abril de 2020

NÃO MATEM A AVÓZINHA

A multidão rodeia-me, mas eu sinto-me só; desejaria fabricar sorrisos que demonstrassem a todos o meu enorme desejo de comunicação, mas os meus lábios apenas desenham esgares que me tornam ridículo. E, quando cansado, farto de tentar demolir essa barreira que me separa das pessoas, volto a mim e reflicto, encontro o enorme vazio dos velhos, tropeços descartáveis nos tempos que correm, olhados de soslaio pelos seus concidadãos, que assistem à sua extinção, como se de um mal necessário se tratasse ou, até de um bem (as lágrimas do herdeiro são riso disfarçado).

À medida que nos aproximamos das “nebulosas campinas da eternidade”, a nossa substância (mais alma) vai-se tornando etérea e tão frágil, que suscita naturais preocupações, a esta gente da governação, caracterizada pela dedicação (aos interesses) e por uma bondade difícil de encontrar mesmo nos púlpitos, nos nichos ou até no Céu. Somos um país pobre, com cuidados paliativos escassos para os doentes ricos e, inexistentes, para os velhos pobres, e, por isso, obstando à dor e mantendo a dignidade , o parlamento, onde o altruísmo flui, abunda e se esbanja, aprovou a Eutanásia, facultando, a esmo e a eito, aos doentes e aos velhos, a Boa Morte, poupando-os à possivelmente longínqua mas nunca indigna, morte natural.

Agora que o Covid- 19 grassa, sem que o governo tenha sido prolixo em nada, senão na desinformação (máscaras ,testes, apoio a lares, números, ventiladores negados aos seniores, linha SNS paga, e para que se liga em vão … apoio domiciliário) os velhos depositados nos lares, permanecem lá aprisionados, positivos e negativos ombro a ombro, numa proximidade pegadiça e promíscua, respirando o mesmo ar atabafado , contagioso e letal. E, como a maioria dos velhos não são taralhoucos, é inimaginável o terror-pânico que impera nestes antros a que acresce, a amargura pelo ostracismo e pela passividade, dos que amaram. E, se Isto acontece nos lares bons subsidiados pela SS, só Deus sabe, o que se passará nas pré-morgues enxovias, que são os lares clandestinos, onde os residentes, jazem atafulhados e partilham um espaço menor do que os defuntos do cemitério dos Prazeres e onde a pandemia (por ser de declaração obrigatória) nunca entrará. Todas as defunções serão devidamente certificadas pelo colega que colabore com a funerária, nestes tempos de grande facturação, para os papa-defuntos .Na minha opinião as estatísticas correctas dos óbitos por Covid-19, são as constantes na contabilização das supracitadas, subtraída do número de óbitos, em períodos idênticos de anos transactos.

Aos velhos que ainda habitam algures, maioritariamente em condições precárias, querem coloca-los em prisão domiciliaria perpétua, numa atitude elaborada de maldade que não lembraria a Satanás, ao Marquês de Sade, nem sequer aos Nazis cujo” tratamento” era de grande eficácia, decorrendo cerca de uma hora desde que os “clientes” entravam por seu pé nos balneários, até que saíam pelas chaminés de Auschwitz. E, entretanto, ainda os despojavam dos dentes de ouro, do cabelo, das tatuagens… Que tal intenção tenha partido, do frenético espalha- afectos, parece-me absurdo, tanto mais que a denigre e fere uma inconstitucionalidade, que só por lapso, poderia escapar, ao ilustre Professor, cuja humanidade se prova ao consentir a soltura de 2000 presidiários sem factores de risco em relação ao Covid-19, já que estes, serão abrangidos por um indulto presidencial. Que consolos restam aos bastos gerontes, sem família que os apoie ou reforma que lhes encha a malga, senão o sol, que até os alemães insistem em cá vir apanhar. Se fosse atreito a divagações malignas, talvez me ocorresse que estão a encurrala-los para que o stress faça o que o Covid-19 não fez, ou que até talvez, seja nomeada uma comissão (unidade missão) que lhes vá infectar a casa, com o patriótico e meritório intuito, de melhorar a sustentabilidade das pensões.


Estiveram muito bem: os profissionais de saúde na frente da batalha; os colegas Miguel Guimarães , Roque Cunha e Tiago Correia; alguns jornalistas e pouquíssimos políticos.
O comportamento exemplar do povo talvez se deva, mais ao medo, do que ao civismo.

terça-feira, 31 de março de 2020

O GENOCÍDIO DOS GERONTES

Os genes, a aleatoriedade da sorte, os hábitos, impedem muitos de chegarmos a velhos. 

Quando na primavera Marcelista se criaram a CGA e a SS, teve-se em conta a esperança de vida ao calcular-se a idade da reforma. Embora as regras fossem escrupulosamente cumpridas na hora de pagar, eram poucos os que tinham uma longa aposentação.

Depois com a maior conquista de Abril, o SNS, os velhos agarraram-se à vida como as moscas ao melaço e, tornaram-se malquistos por esta gente, que lucra em tudo e se revela pouco séria  no dia do pagamento. Com o avanço avassalador da informática e com a devassa inerente do mais intimo de cada um, as seguradoras, o SNS, certos poderes ocultos, tornaram-se omniscientes e omnipotentes, num mundo em que já nem Deus, o é.

No curto segmento que é a vida, há em cada momento a possibilidade de sermos emboscados pela morte, mas depois de escaparmos mil vezes ilesos, é miserável, de extrema iniquidade, que pereçamos, não às mãos da” senhora da foice e da gadanha”, mas que recebamos um convite ou um empurrão para a morte.

A aprovação da eutanásia, sem que haja cuidados paliativos, veio provar, a canalhice desta gente, corroborada por um parlamento vazio e pelos profissionais do SNS desprotegidos e, na frente da batalha. E, pela atitude da senhora Temido, nomeada ministra da saúde, sabe-se lá porque méritos ou por que razões, que respondeu à gerente do lar de Famalicão, desesperada, que os lares deviam ter um plano de contingência, isto perante uma catástrofe, em que esta gente da governação pouco mais fez, do que decretar o Estado de Emergência, e vir para a televisão a tentar ficar bem na fotografia, despudoradamente.

 Apregoam-nos a discriminação, como um crime, mas há muito que discriminam os velhos de uma forma intolerável, acusando-os de, por viverem, onerarem os mais novos e depauperarem a SS e a CGA ,sabendo todos  que estas estão exauridas, porque esta gentinha usou o dinheiro dos subscritores para outros fins, o que na minha opinião configura uma violação fraudulenta do contrato ,um roubo, e, se os mais novos têm empregos precários e mal pagos é porque a globalização lho impôs e lho vai continuar impor, quando dentro em pouco, só houver velhos, nos álbuns vendidas a esmo, na feira da ladra.

Vai haver um genocídio dos gerontes, não só e sobretudo, por estes serem mais frágeis, mas porque estão a ser deliberadamente empurrados para a morte, encerrados em casa onde se espera que morram discretamente, sem socorro, sem alarido e sem contar para as estatísticas ou encurralados, em lares e em enxovias,  onde  apesar da denúncia meritória de alguns, os apoios tardam, e vai haver uma autêntica razia, para bem da banca ,da SS, enfim dos do costume.

E, o extermínio dos velhos, não vai aliviar em nada os contribuintes, porque estes profissionais-marionetes já andam a arranjar-nos uma nova TROYCA e uma banca que vai fazer usura como é seu hábito milenar, acrescido, quando o Estado não se lhe impõe, antes lhe obedece. E aos jovens de sensibilidade embotada, que assistem à matança dos avós e dos pais, com a indiferença de quem assiste a um filme, em breve quando velhos, se ainda forem seres humanos, sentirão uma angústia e um remorso inexoráveis.,


Se isto é o admirável mundo novo, da globalização e da Europa fraterna, devo ser orate, porque me sinto na barca de Caronte desde que o senhor Silva e o senhor Durão  Barroso nos apascentaram, sem interrupção…até esta pandemia ou guerra biológica.


João Miguel Nunes ”Rocha”
(março 2020)

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

MOLÉCULAS MEGALÓMANAS

Os profissionais de saúde, os funcionários de lares da primeira e da segunda infâncias, as assistentes sociais, os sacerdotes, enfim todas as figuras que detenham o poder de fazer o mal de modo sub-reptício e impune, deviam ser submetidos a testes psicológicos que provassem que gostam dos seres humanos reais, com as suas grandezas e defeitos, com os seus olhares cúpidos e de cobiça e com as suas mãos que agarram, que esgadanham, que despedaçam, mas capazes também, da suavidade de uma penugem que cai, quando esboçam gestos de ternura ou de se tornar comoventes, quando súplices, porque dos seres humanos ideais, utópicos, até Lúcifer gosta.

Moléculas megalómanas, ínfimos em relação a quase tudo, num universo incomensurável onde as distâncias atingem os milhares de milhões de anos-luz e o tempo os biliões de anos, ousamos afirmarmo-nos, sem ironia, feitos à imagem do Deus criador e só a decadência, a velhice amarga, a doença ou o desabar do ego, nos baixam a crista e nos aproximam e assemelham a um deus mirrado e sem poderes. Ídolos derrubados, cientes e atolados na mesquinhez da nossa condição ou na luta que todos, cada um por sua vez, temos de travar com a morte, numa peleja perdida como o adejar da borboleta, ao redor da chama que lhe marca o fim. É então, que é importante que quem lida com estas situações seja dotado de empatia verdadeira, de compaixão, e se aproxime, mesmo que fedamos a vómitos ou tresandemos a melenas e se empenhe em apaziguar-nos a dor, em instilar-nos alento, em mitigar-nos o terror do ”remoinho medonho”, sem nos empurrar para ele ou aponta-lo como a melhor solução…e sem ceder às administrações das parcerias público-privadas, para que diminuam a contazinha….ou aos grupos privados, para que a aumentem…

Das conquistas de Abril já pouco resta, abocanhadas que foram por um poder político e mediático cúmplices e vendidos a um poder económico, cuja impunidade que grassa desmesurou a cobiça; do voto livre efémero, passou-se a “um vale tudo” que formata, empurra, determina….das verdades que se delatadas pelos bufos eram mais severamente punidas do que os crimes (pide, torturas, Tarrafal) passámos para uma amalgama de calúnias, boatos e meias verdades, que destroem vidas, derrubam reputações e calcinam a confiança.

Das autênticas obras-primas elaboradas por muitos jornalistas, para escapar ao “lápis azul” passámos para o bom e o crível, serem a excepção.

O ouro do país, fundiu-se e escorreu para a zona magmática; os contratos que os médicos tinham com a CGA e com a ADSE, foram desonrados com a cumplicidade deste Estado que admoesta a Venezuela e apoiou o ataque ao Iraque. Os grupos privados da saúde engrossam a voz e há o desenrolar dum “torneio farsa”, de um ”déjà-vu”, com as consequências do costume…Os grupos económicos vão alambazar-se com o SNS como o fizeram com o tecido produtivo, o dinheiro dos bancos e o dinheiro dos contribuintes coagidos a esse esbulho, que outra coisa não foi, e, a outros que estão para vir: ónus de limpar, para expropriar o pequeno proprietário de terras, de onde saiu para poder comer, mais falências fraudulentas…

Das enfermarias de Abril com 60 AVC ou 60 cirroses o SNS cresceu até um honroso décimo segundo lugar, começou a definhar com as parcerias público-privadas e agora mete dó e gera dilemas de confiança; não deixemos que no-lo tirem, mesmo assim.

Na minha opinião a eutanásia, é uma grande maldade, prodrómica da morte a eito dos improdutivos, dos débeis e dos genocídios e este parlamento qui-la aprovar, sem referendo.

Que mais precisamos para perceber que esta gente não merece confiança.




João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º199 • junho 2019)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

AGACHEM-SE CIDADÃOS

Não é preciso ajudar a morte; qualquer que seja a nossa idade ou condição, ela virá numa voragem avassaladora e faccionar-nos-emos por outras paragens e por outros seres, haja ou não haja Deus… 

Como é possível que médicos com discernimento bastante, defendam a eutanásia, sendo certo, que muito poucos, se viram confrontados com alguém com o desejo genuíno de morrer, e todos sabem que no nosso País, os cuidados paliativos são escassos, exequíveis para uma minoria ínfima de privilegiados?

A nossa natureza egoísta, impiedosa e brutal norteia a vida e campeia entre nós primatas desde os alvores da evolução; onde quer que a espécie humana prolifere ou definhe, sempre haverão guerras, crimes, cumes de iniquidade mas contra o que seria de supor esta característica genética, não mingua, antes se aprimora de geração em geração: das pirâmides de cabeças humanas degoladas pelos mongóis no furor das invasões, à organização metódica de linhas de montagem da morte e da incineração nos campos Nazis, há todo um glaciar de maldade gelada.

Um avião - o Enola Gay -, duas bombas atómicas e duas cidades são apagadas com os seus milhões de seres humanos e os seus cogumelos de fumos cancerígenos e mutagénicos levados pelos ventos dominantes, para paragens longínquas e com efeitos que ainda hoje perduram. Uma história grosseiramente urdida, a motivação do costume, quatro homenzinhos petulantes, a posarem com desfaçatez para a galeria das aberrações, e, eis o Iraque vítima de uma matança sem dó nem perdão, que pese embora todos os epítetos, só pode ser descrita como crime hediondo. Um povo unido por uma religião, errante, porque sempre perseguiu o “Velo de Ouro” acoita-se em Israel e servido pelo poder económico, dono de todos os poderes, alarga espaço esbulhando os palestinianos e a uma pedrada, responde com uma carnificina.

No nosso país as rendas de casa congeladas cem anos, permaneceram-no depois de Abril, transformando os inquilinos em privilegiados e os proprietários em pedintes que sem recursos e sem saídas acabam por vender o património por preços irrisórios aos do costume, que lhes entaipam as portas e as janelas ferindo de morte o mercado de arrendamento. Para escapar à barraca, a classe média empenha-se para a vida, e para dar uma ajudazinha à especulação e à agiotagem, o ”Estado Cúmplice” deu do dinheiro de todos, benefícios fiscais aos que se endividassem. Paralelamente, prosseguindo na senda do esbulho criou-se uma bolsa manipulada que deu origem à frase ”as árvores não chegam ao céu (única, da criatura, de que me lembro) e ao desabar repentino, dos valores cotados; O IGCTP alterou os juros dos certificados de aforro e para induzir a desconfiança e a mudança das poupanças, informou por escrito os aforradores, de que não o fizera, e, o BPP e o BPN faliram fraudulenta e fragorosamente sendo o ónus assumido à força pelos depositantes e pelos contribuintes. A bolha imobiliária cheia de ganância de ar e de falcatruas, estourou, mas antes que rebentasse, os agiotas puseram o seu a bom recato (paraísos fiscais, contas de amigos, divórcios fictícios…) e eis o “drama/farsa da TROIKA” e dos cidadãos chamados a salvar e a lavar a honra dos bancos, como se ao dinheiro dos contribuintes fosse um sabão, ou os enxovalhos da honra susceptíveis de tirar e pôr.

E eis-nos chegados ao cimo do presente: um país de rastos com uma população envelhecida e esbulhada, sem recursos para viver, quanto mais para se tratar (taxas moderadoras, transportes, terapêuticas, enormes listas de espera) escorraçados pelas seguradoras porque são velhos e porque são doentes, coagidas ao SNS, que neste contexto e neste país, parasitado por Parcerias, Fundações, Misericórdias, Privados, Chineses, resvala para a indigência e para a ineficácia apesar das enormes verbas que o cidadão é obrigado a descontar. E, é neste cenário e neste contexto, que se clama a premência de aprovar a Eutanásia, no interesse dos doentes, pasme-se, como se a morte fosse a grande ambição, e,abundassem por aí ajuntamentos de doentes, a pedir que os matassem.

É claro que fora do circulo estrito dos “candidatos”, fervilham os interesses na sua aprovação, como aliás se viu nas votações, mas na minha opinião a eutanásia é um crime horrendo qualquer sejam os pressupostos que invoquem e tal como a interrupção voluntária da gravidez não é feita em beneficio do ser humano que vai morrer mas nos da mãe, cuja bondade não questiono, a eutanásia serve muitos interesses, mas encurrala e exclui o padecente, e invocar a dignidade para oferecer aos doentes o” sumozinho envenenado” só prova o cume de indignidade a que chegámos. 

Entre os interesses que anseiam por um ventinho na alheta, há a classe política que em tempos de vacas magras tem de limitar- se a pequenas trafulhices como alegar moradas falsas… receber vários abonos, por viagem… as  seguradoras, que se o estado se tornasse honrado, ver-se iam coagidas a manter os seguros dos doentes cuja saúde exploraram…As clínicas e os Doutores morte que antevêem um belíssimo ganha pão, e claro, porque não admiti-lo, os familiares do “voluntário”, sobretudo agora que o SNS deixou de poder ser usado como um asilo e perpassa nos média, a ameaça de coagir as famílias a cuidar do seu doente, tenha ou não possibilidades e ou afectos.

A vida moderna com as suas imagens virtuais subliminares, matou muito do que sensível havia no ser humano (que nunca primou pela bondade) mas se chegámos a este ponto, em que nos parece desejável encurtar a vida dos que nos amaram, negando-lhes os cuidados continuados, os cuidados paliativos e os nossos cuidados, porque não esconder do doente a intenção e matá-lo de surpresa? 

Por que recorrer a estes embustes para dar uma aparência de compaixão é o cúmulo da cobardia e da impiedade! Opção livre uma ova; o “doente voluntário” vai responder sim, porque não lhe trataram da dor e dos padecimentos, porque se viu confrontado com o olhar torvo pleno de enfado dos familiares mais queridos, e ao seu sofrimento, aduziu-se acrescendo-lho incomensuravelmente, um imenso desânimo… e o infeliz, querendo esconder-se do horror de si próprio, pede “voluntariamente” que o matem.

Agachem-se cidadãos e em breve seremos uma minoria na nossa Pátria de mil anos, afadigados em trabalhos de criadagem, serviçais e subservientes.

João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º193 • outubro-novembro 2018)



segunda-feira, 12 de março de 2018

CATADUPA ALARVE


A morte de neurónios cerebrais que todos os dias acontece contribui para a segunda infância dos velhos, que pasme-se: conservam a memória da história pregressa longínqua, pormenorizada e nítida, e, esquecem o que se passou há meia hora…

Ainda agora ocorreu-me numa associação atabalhoada de catadupa alarve, a história do lobo e do cordeiro, contada no livro de leitura da minha segunda classe, depois pensei na calamidade dos incêndios, na minha opinião maioritariamente ateados a mando dos “interesses”, e, nos cento e tal mortos em vão… e desta ideação saltei para a obrigação, pesadamente sancionada, de limpar os matos e não só, até 15 de Março impreterivelmente, não obstante os temporais, expondo a terra nua e os calhaus, à vista e à erosão, como nas paisagens mais desoladas de um planeta aterrador. Como se participasse numa “sessão espírita”, ouvi vinda de longe, a voz fanhosa, prepotente e odiosa da minha professora de Ciências-Naturais a explicar a função clorofilina e a sua estreita ligação ao verde das plantas, quer sejam cardos, giestas, estevas, silvas ou hortas mesmo que salpicadas com o vermelho dos tomates.

Agora, como que num flash de lucidez, ocorreu-me, vá-se lá saber porquê, se vamos importar o oxigénio da Alemanha ou se vamos compra-lo à Celulose do Caima, à Portucel ou à Industria do Fogo…

Será o Alzheimer? Ou será que atingimos um patamar de iniquidade tal, que tudo é lícito desde que sirva o Capital?


João Miguel Nunes” Rocha”

quarta-feira, 7 de março de 2018

La dona é mobile


Os gerontes que atinjam a vetusta idade da aposentação e, não tenham a boa ou a má sorte, de se finarem “in actu e in situ”, devem preparar-se para uma abalada suave, indolor e de motu próprio, porque neste admirável mundo novo globalizado, as leis que preconizam e favorecem a morte, prevalecem sobre as que protegem a vida (interrupção voluntária da gravidez, testamento vital, eutanásia, aplicação da pena de morte…) e aos velhos, untou-se e besuntou-se o declive ingreme, que sem arrimo ou corrimão, os privilegiados longevos, têm de descer.

Os ratos abandonam o barco que se afunda, muitas famílias cientes e ciosas do pedigree dos seus cachorros ou bichanos, abandonam o parente doente ou velho que se esvai, e os nossos grandes empresários que mercadejam com os comes e os mui honestos banqueiros que mercadejam sem princípios, dizem e são unânimes, que é preciso ir buscar mão-de-obra onde ela abunde e barateie, sem restrições de fronteiras que são coisas antiquadas que só favoreciam os contrabandistas e deste excesso de humanos, se aproveitem apenas os mais aptos e se deixem os que sobejam vegetar, até que se instalem no subsolo.
Nesta próspera evolução a mando do ”papá económico”, pai biológico de todos os poderes, paira, sobre todos os futuros individuais e colectivos da plebe trabalhadora, pensionista ou subsídio-dependente e também sobre os” potenciais pobres diabos ricos” que entregaram a gestão da sua reforma a fundos de investimento, a seguradoras, a bancos e a outras Donas.

Brancas…, a sombra terrível, da “volubilidade das regras na hora de pagar” porque todos os contratos novos têm entrelinhas ambíguas e miudinhas, que os anulam unilateralmente, caso os factos para que foram subscritos e pagos, aconteçam (Siresp, Saúde, Reforma…) e os contratos antigos que eram de boa e honesta redacção são crivados por leis retroactivas que lhes esbulham a eficácia, configurando uma ”falcatrua legal”.

O roubo por leis ao alvo, que marca o fim do Estado de Direito, iniciou-se no princípio da última década do século passado e dele foram vítimas preferenciais os do costume e com particular acutilância os médicos que trabalhando no SNS tinham (às vezes com perdas significativas) optado por subscreverem a CGA e a ADSE. Nesses tempos de vacas obesas, a necessitar da colocação de bandas gástricas, em que o dinheiro jorrava de Bruxelas numa abundância de engodo e de embuste, e o ordenado dos funcionários públicos passou a ser tributado, abriram e proliferaram,” num exagero à portuguesa” as clínicas de fuga ao Fisco, que por maroscas e cosméticas emagreciam o irc e menos eficazmente o irs (os ricos serviam-se de custos sumptuosos e de paraísos fiscais, os remediados faziam contas poupança-habitação, reforma e outras e os pobres pagavam e calavam). Estes esquemas nasceram de uma cumplicidade entre o governo e os bancos em que todos perdiam menos estes. E eis-nos na história da tanga e na pose graciosa do protagonista nas Lajes, sorrindo e mentindo, com desfaçatez vomitiva.
E a bolha imobiliária rebentou, e a conta na vez de ser imputada aos fautores usurários, passou para os cidadãos no ”drama/farsa do Resgate” e da honra, de não renegociar a dívida ou os juros da dívida.

E, como o dinheiro não se multiplica por cissiparidade como as células, nem Bruxelas no-lo dá, eis-nos chegados a um risonho presente apanágio de um encantador futuro, em que há um aumento diário da esperança de vida, para diminuir as reformas, a eutanásia para diminuir a velhice e os custos das terapêuticas, os incêndios para engordar os lóbis e esbulhar o pequeno proprietário da floresta e o ataque ao SNS para favorecer a indústria da doença… E, como nos contos de fadas mais lindos e mais utópicos, só os ricos adoecerão. Os pobres terão atingido enfim, um estado de boa saúde desde que nascem até à defunção.


João Miguel Nunes” Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º187 • Março 2018)