sábado, 3 de janeiro de 2015

DÚVIDA PERSISTENTE

Vinha a remar do veleiro. Por um acidente fortuito há dois dias que não fazia a terapêutica; três impactes brutais na zona supero externa, infra clavicular, do hemitorax esquerdo. Estupidamente saltei do bote; um bom samaritano ajudou-me a sair da água e a deitar-me na sombra de uma traineira; alguém chamou o INEM. Levei o indicador à radial e senti o pulso numa taquicardia irregular, frenética…fechei os olhos, enquanto o tempo passava numa lentidão “lesmática” inversamente proporcional à minha ansiedade. Tive a certeza de que ía morrer ali, mas surpreendentemente, não fui invadido pelo terror-pânico, por pensamentos grandiloquentes ou por esse arrependimento fingido, tardio e egoísta com que se julga subornar Deus …mas eu, naquele momento que cria supremo, terminal, não sei por que raio, pensei na mulher de César…Por analogia ou antinomia ocorreu-me e divaguei sobre o teatro mediático a que nos é dado assistir, em que chama retoma ou até com uma desfaçatez arrepiante, que seria trágica se não fora ser tonta, milagre económico, a este declínio quotidiano, que sentimos na pele e no ar, na tristeza indelével que enforma e deforma os semblantes, no amarfanhado das posturas prenhes de desanimo e medo, na confiança e na esperança definitiva e inexoravelmente esbarrondadas. Tive tempo de sobra para pensar nisto e em muito mais, porque a ambulância pomposamente engalanada com as insígnias do INEM, chegou cerca de trinta e cinco minutos depois e nela vinham apenas dois bombeiros sem competência e sem autorização para administrar o que quer que fosse, como me informaram ao recusar-me o beta-bloqueante e até o pacote de açúcar que lhes pedi. Por ser escusado, obstei a que me levassem para a ambulância, ficando debaixo da traineira nos mais de quarenta e cinco minutos que tardou ainda, o verdadeiro INEM, uma médica e um enfermeiro, que ainda ali, me canalizaram uma veia em cada braço, me puseram uma máscara sobre a face e me administraram não sei o quê, porque perdi a consciência, que só recuperei já no hospital, numa sala com três ou quatro macas, separadas por biombos. De costas para mim, uma jovem médica, a quem me dirigi nestes termos: senhora doutora, sou seu colega e queria contar-lhe o que aconteceu; te calas, aqui tudo igual… numa dicção espanholada e num tom mil vezes mais rude do que o rei de Espanha a mandar calar Hugo Chavez…Por uma porta ao fundo viam-se passar e cirandar, médicos de bata branca. Foi em vão que tentei enxergar caras conhecidas porque os médicos no auge da carreira e do saber, com o intuito de se desmantelar o SNS para benefício dos do costume, são atirados para uma reforma precoce e esbulhada, por um Estado que sem direito e sem honra, se apoderou dos fundos contributivos, que lhe tinham sido confiados mas não eram seus, e agora como pessoa de má consciência e poucos escrúpulos, altera diariamente o que ontem fixou como definitivo…como lei. Como classificar esta atitude em tudo semelhante à de roubar o mealheiro com o pequeno pecúlio e a alegria a uma criança, ou a ceia a um velho; vil, miserável…

É tempo, de todos nós médicos e profissionais de saúde, percebermos que calar é colaborar, é ser-se cúmplice, com o que se está a passar no nosso país, e no que diz respeito à saúde ficar cientes, que todos os dias se cometem omissões criminosas, que conduzem a sofrimentos e sequelas desnecessárias e se morre e vão, estupidamente em vão…

Tal como aos habitantes das regiões limítrofes dos matadouros/crematórios, bastava o cheiro pestilencial que se evolava das chaminés dos fornos, enegrecia a atmosfera como um “fog” horrendo e maldito e se colava a tudo num “fartum” nauseabundo e peganhento que lhes dizia, que lhes gritava a verdade, que contudo fingiam ignorar… todos os profissionais de saúde no activo, sabem que se estão a passar na saúde, aqui e agora, factos em tudo desconformes não só com o juramento de Hipócrates, mas até com a decência humana, que contundem com a dignidade, a saúde e a vida de quem os sofre, e também de quem os pratica se tiver consciência, e denigrem o bom nome e a honra de quem os consente, e de quem conhecendo-os, se cala.
 É claro que os profissionais da saúde também têm famílias com bocas para alimentar e tal como sobre todos os seres humanos do nosso país, paira sobre eles, a terrível sombra de um futuro incerto, futuro de que são agora fautores com um papel muito importante, mas quase a chegar ao fim, e ao cair do pano, transitarão do “glamour” e do fulgor do palco para uns bastidores bafientos e tétricos, onde desempregados ou com um salário irrisório e sem direitos, e dispostos a tudo por cada vez menos, sentirão a nostalgia pungente do tempo em que tinham o poder de mudar as coisas…e para sempre o perderam.
 Admitamos como mera hipótese que o dinheiro fluindo a rodos de Bruxelas aquando da nossa adesão (anexação) aparentemente a eito e à toa, foi na verdade empregue do primeiro ao último cêntimo, seguindo minuciosamente a sageza do plano, cumpriu os desígnios e está a conduzir-nos avassaladoramente para o desenlace final: os fins previstos.
 Abdicação vil e não outorgada pelos cidadãos, da nossa soberania, porque só é independente quem tem o bastante para sobreviver, a não ser que se readopte essa arguta forma de existência, em que as necessidades diminuem, por cada vizinho que se caça e come.
Devastação da agricultura, abate da floresta, eucaliptização dos regadios, afundamento das pescas, arrasamento do tecido produtivo, venda por uma bagatela e sem a salvaguarda do interesse nacional, antes parecendo haver o propósito de o delir, de tudo o que era público, valioso e vital (POTUCEL, REN,GALP,EDP, CTT,ANA,TELECON…) AGUAS, TAP e SNS (operações em curso).
  Criação de infra estruturas (auto-estradas, vias rápidas) bifurcando-se como bissectrizes de ângulos já agudos, dividindo o interior do país em latifúndios, enquanto paradoxalmente (ou talvez não) se procede à sua desertificação, pela abalada em tropel das empresas empregadoras, e porque o poder eleito, todos os dias lhes tira, uma ou outra das estruturas, que lá fixavam as populações: centros de saúde, escolas, juntas de freguesia, hospitais, tribunais…talvez num futuro próximo se abra a caça aos poucos teimosos que persistam em ficar.
 Criação e desaproveitamento de uma geração de licenciados, que excepto os habituais, se repartem entre doutores frustrados em empregos desadequados e de pouca monta, pelos quais porém, competem ferozmente, para gáudio e benefício dos patrões, e, os que ousam emigrar e sem o apego à pátria do Manuel da Bouça, jamais voltarão…e os seus filhos serão estrangeiros….Acresce que a esta debandada dos jovens se incrementa intencionalmente a rarefacção da nossa população pelo ataque à natalidade patente: em todo o tipo de advertências às mulheres que tendo emprego persistam em ser mães; diminuição ou supressão de todas as ajudas pecuniárias ao jovem casal; mesmo o beneficio fiscal prometido pelo eleito, já em campanha, fede a mais um imposto verde.
Aberração de tirar os filhos à mãe que deixa de poder sustentá-los. Em vez de a ajudarem, atormentam-na, tirando-lhes os filhos.
Liberalização e aceitação social do aborto para além do razoável.
Aplauso e mediatização, não da liberdade, mas da promiscuidade sexual.
Esse desejo utópico e obsessivo de imortalidade, marcante em quase todos os seres humanos, prometido e explorado pelas religiões, cujo único lampejo real se vislumbra na transmissão dos genes, é talvez o que subjaz e consubstancia o amor do amantes e o amor dos pais e faz com que de ambos possam brotar gestos sublimes ou actos horrendos, e tocar ou ferir este primomovente, nesta época de famílias precárias e pais faíscas, vistos como fotópsias, entre sessões de computador, é abrir a caixa de Pandora de que parece ter já saído um poder perverso, materializado no Testamento Vital, lei malévola e aterradora, sugerindo por si só e fartamente o que aí vem: de que os cidadãos autorizem formalmente o seu próprio assassínio, porque aos futuros e únicos prestadores da saúde (Champalimaud, Melos, Cruz vermelha, E.S, seguradoras, chineses…) não convêm clientes que não possam pagar com mãos largas, os cuidados que entendam prestar-lhes ou facturar-lhes…Imagine-se a desolação, a angústia de perceber-se o esgar de desilusão ou até ódio, que perpassa na expressão do filho, do neto, do ente querido por se não ter subscrito o testamento vital, na repartição Notarial, onde o levaram com esse propósito. Imagine-se que somos nós. A seguir virá a eutanásia sempre no interesse”do nosso querido e infeliz concidadão “ e depois talvez se reintroduzam as”linhas de montagem da morte” há tão pouco tempo encerradas…
  Abate de toda a classe média por extorsão pura e dura do que esta aufere ou aforra, porque os “ senhores” que manejam os cordelinhos da bolsa do dinheiro, manipulam também a seu belo prazer, os cordelinhos que movem e animam estas marionetas que se acoitaram na politica, e sem decência e sem honra, vão jurando sem intenção de cumprir…Persistir na dúvida, apesar da evidencia, é na minha opinião uma estupidez crassa.  

               João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º155 • Novembro /Dezembro 2014)

terça-feira, 25 de março de 2014

OS BONIFRATES


Que raio de doença terei eu, no intrincado labirinto da memória em declínio, que se fecho os olhos e relembro os nossos políticos, só atino (com) e reconheço rostos patibulares? Será a degenerescência cerebral senil, em correria de cascata, ou um fragmento e testemunho, daquilo que dantes se chamava a sabedoria dos velhos, e os tornava merecedores do respeito por eles mesmos, os velhos, e pela sua opinião?...

 Os agiotas que vivem de e para acumular os seus montezinhos de ouro e acrescentar zeros à direita do seu capital, imunes ao húmus de desolação, miséria, infelicidade e morte, que faz medrar e doura o seu dinheiro, apossaram-se do mundo ocidental”; de uma forma nunca antes conseguida pela guerra e mandatando, manipulando, comprando, corrompendo e coagindo no seu interesse, os poderes político e mediático, e o dos cidadãos com voz, (salvo honrosas excepções, que as haverá sempre) prepararam para nós cidadãos pobres do sul e sudoeste da Europa, um horrível “ghetto” em que ocupados como castas mínimas ou miseráveis épsilones não nos é dado nenhum “soma” ou elixir euforizante nem ministrada nenhuma programação que nos faça sentir bem e adaptados à nossa existência de autómatos de pequenas tarefas. Nesse mundo que já se esboça e delineia no presente, a vida humana mesmo e sobretudo na civilizada Europa, será o bem mais banal e barato, a não ser que se lhe associe qualquer particularidade que a torne importante ou imprescindível: é o homem descartável no seu auge…

  E apesar da aparente aleatoriedade das sequências é provável que tudo tenha sido cuidadosa e perversamente urdido e aplicado, e haja um nexo de causalidade planeada, consequente e conducente ao brejo pantanoso e movediço, de onde urge sair, para sobreviver.

 Tal como no velho poema de Pablo Neruda, vamos fechando os olhos ao que acontece aos outros até que o mal se abate sobre nós, e, nos esmaga, e estamos sós.

 Os mortos de “Lampeduza” encarados como longínquos e não nos afectando, deviam provocar-nos a indignação, a revolta e também o medo. No fundo provam que o homem por força da sua natureza sempre privilegiou, privilegia e privilegiará a sua inclusão em castas ou carteis e cada grupinho trata de si mesmo, e atropela e trucida os de fora, com uma impiedade sem paralelo nos reinos dos outros bichos, e, que só por mutação genética ou coagido, o ser humano porá o interesse do todo, acima do seu…É por isso que a utopia da Europa unida, de povos irmãos, com os mesmos direitos e deveres, já está delineada com traços indeléveis: lá para norte as castas de arianos, homens e mulheres de tez clara, olhos azuis, altos, superiores…cá em baixo os greco-romanos (e os ibéricos) com o sangue tinto de negro e árabe, que berço de uma civilização impar que foram, e que ainda impregna o mundo, serão tratados, não como guano, mas como excremento de cão.

 E só quem não quer, não vê, a producência dos factos:
  Bombardearam-se os países pobres da adesão com dinheiro, não a fundo perdido, que os parvos não são eles, mas em troca do abandono das suas (nossas) fontes próprias de pão, da perda da sua (nossa) verdadeira soberania. As torneiras jorraram nos locais e para os do costume, primeiro escudos e depois euros e inoculou-se nos cidadãos o vírus da ambição epidémica e inculcou-se-lhes, o complexo mil vezes amplificado, de que ser-se pobre, era ser-se um” pobre diabo”, um”coitado”.

 Espalhou-se a eito e ao desbarato a ilusão de que todos podiam ter casa própria, um filho licenciado, férias, uma “vida humana” enfim, e para dar substância ao sonho que devia ser um direito, a Banca, com a conivência e subserviência do Estado, (que até concedeu, do dinheiro de todos, benefícios fiscais, aos que se endividassem) ofereceu crédito a torto e a direito para estes endividamentos meritórios, e, aproveitou a euforia reinante, para vender a crédito e aos seus balcões, pechisbeques a preços de alta joalharia, acrescidos duns jurozitos…E perante este apelo cúmplice e consequente as famílias fizeram das tripas coração, para comprar casa (única alternativa à barraca) para dar um futuro aos filhos, para provar aos seus, a sua capacidade, que não eram, uns coitados. Os agiotas rejubilaram, porque como é seu hábito milenar, a sua segunda natureza, haviam usado de todas as cautelas, fianças e penhores nas linhas e entrelinhas dos seus contratos leoninos.

 Foi um festim hórrido e grotesco de hienas, onde se banquetearam todos os que tinham acesso ao dinheiro, ou a permissão de se endividarem, em nome do contribuinte:- rotundas de dez em dez metros; auto-estradas paralelas, concessionadas eternamente aos privados com a cominação inaudita, de que se lhes diminuísse o tráfego o contribuinte pagava uma compensação; uma dúzia de grandiosos campos de futebol para pouco mais do que um jogo, cada; aeroportos onde não aterram aviões; uma expo onde tudo foi feito à grande, até, presumo, as falcatruas; parcerias público-privadas, feitas de má-fé e prejudicando sempre o Estado, o que prova das duas, uma: ou os nossos mandatários eram oligofrénicos ou houve compensações sub-reptícias…inclino-me para a simultaneidade…

   Se um credor, agindo de boa-fé e com lisura, perante um reembolso periclitante, vê que ajudando o devedor, aumenta substancialmente as suas probabilidades de ser ressarcido, obviamente ajuda-o…Porém está na essência, desse negócio milenar, que é a usura, que depois de ferrado o penhor, o melhor mesmo, é não o largar, e tal como o papa defuntos se alegra com a morte e com o aumento do número dos funerais implícito, o agiota torce, para que o devedor não consiga resgatar o penhor. É inquestionável, faz parte da natureza do negócio.

 Admitindo também como certa, uma segunda premissa: estranha e indubitavelmente os representantes dos credores (troica) e os presumíveis representantes dos interesses dos portugueses (políticos do arco da governação) rejubilam com os mesmos factos, regem-se pela mesma partitura, fazem o mesmo jogo, conclui-se que: ou os nossos credores são de um enorme altruísmo (não se entendendo então, o porquê da exorbitância dos juros, do arrasamento dos tecidos empresarial e social, do caos de miséria e desolação que grassam) ou os nossos procuradores traíram os portugueses, e então tudo se torna lógico, coerente, óbvio, até o sorriso de vanglória, escarninho e odioso com que vêm anunciar aos velhos, aos doentes, aos cidadãos pobres, aos empenhados aos despojados, aos desvalidos, que de sobressalto em sobressalto vão ser postos fora da vida, que neste Portugal a abarrotar de democracia, só há lugar para os mais aptos, ou para os espertalhotes.

  Esta gente que vá proclamar ”o milagre económico” aos infelizes que tendo neoplasias, se vêm galopar avassaladoramente para a morte, por lhes negarem as terapêuticas oncológicas; aos moribundos aguardando o socorro, que não virá; aos doentes crónicos que se vêem definhar, por não terem posses para as deslocações, para as taxas moderadoras, para as terapêuticas, para as dietas; aos que aguardam meses e meses, ou anos, por um exame, enquanto a morte se aproxima, e os toca.

 Foi em vão que calcorreei as farmácias e me dirigi ao centro de saúde. Não consegui a vacina da gripe, apesar da propaganda mediática, de que a havia com fartura, para dar e para vender; terá feito parte de um plano?


   Quem não pretenda emigrar nem para o estrangeiro, nem para o outro mundo, deve aprender línguas germânicas: ser-lhes-ão de grande utilidade para lidar, servir e adular os novos senhores, nas suas coutadas de caça, ou os seus velhos nos retiros paradisíacos e soalheiros, onde venham passar os meses invernais da sua terceira idade, longa e farta. De pobres, passámos a parentes pobres; que queda’.        

João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º162 • Setembro 2015)

sábado, 28 de setembro de 2013

GERONTOFIL

Nestes tempos de miséria crescente a que o “eleito”chama retoma, paradoxalmente e como que a dar-lhe razão, os velhos não morrem de fome, mas habitualmente bem fornecidos de adiposidades externas e viscerais, e o seu abdómen de “batráquio”ou em “avental” não é ascite como o dos “esqueletzinhos deÁfrica” mas lipócitos a ressumar bons untos gordos, porque nos “ terceiros mundos ocidentais” é muito mais fácil comer em excesso do que comer bem, e, sem o poder saciante das proteínas, que são caras, é difícil comer pouco. Acresce que actualmente e cá, o verdadeiro pão já é mais caro do que as guloseimas e vem quase sempre enriquecido com substâncias de natureza dúbia, mas indubitavelmente não cerealífera.

  Não é só pelo avantajado do físico, que os nossos gerontes se revelam de boa cepa e de grande resistência. Há muito que os mandantes, que põem e dispõem, dos poderes político e mediático, servis e interesseiros, abriram “a caça ao velho”, e, com mil ardis de vileza crescente, tentam poupar-se, a esta ”despesa inútil da terceira idade”, e encarreira-los para a rampa íngreme, escorregadia e lúgubre, de onde, espontaneamente ou ajudados, se despenhem no vórtice insondável da morte, de que só Lázaro e Cristo  regressaram…

  O ser humano, bem tangido pela verdasca, acossado pelo medo, ou simplesmente perante a perspectiva de ganhar, desencanta dos seus recônditos íntimos, justificações plausíveis para quase todas as vilezas, e as excepções, (nas quais me não incluo), são na minha opinião, tão honrosas quanto escassas. Se assim não fosse, nunca permitiria-mos que esta gentinha que se acolheu à política, alterna na governação e faz de nós parvos, nos continuasse a apascentar, num crescendo avassalador de esbulho.

  Os velhos são assaltados nos seus bens e direitos tirando-se-lhes todos os anos um naco a mais…e fazendo-se-lhes uma campanha dissimulada e torpe, visando uma clivagem hostil de gerações, insinuando-se que são eles, que despojam o país e oneram os descendentes, como se não haver velhos, nos livrasse dos ladrões…ou os velhos tivessem a obrigação de se imolar em prol dos vindouros…

  Claro que é inaceitável, ignóbil e triste que 40% dos nossos jovens vegetem sem emprego, sem perspectivas, sem disponibilidade para criarem família e serem pais, mas não são os velhos os culpados. Estes fizeram o máximo para que os jovens tivessem o curso que eles nunca puderam ter, e são aqui e também eles, vítimas. E se sobrevivem à reforma é porque comeram as passas que o diabo amassou.

  Se de facto urge livrar o país dos velhos, não é pela supressão dos direitos, pelo confisco das reformas, pela imposição de taxas de solidariedade (que discriminam intoleravelmente os velhos) pelo aumento proibitivo das taxas moderadoras, pela reintrodução  de quotas e descontos de que a passagem à reforma (cumprindo o contrato) os isentara, que o conseguem…

 Os velhos resistirão, comendo menos, tomando a medicação só nos meses bons, faltando às consultas, fugindo aos hospitais, o que até pode revelar-se bom para a sua saúde…Se se quer de facto exterminar os velhos convidem-nos em grande número para grandes lancharadas e adicione-se à ementa toxina botulínica, recorra-se a genéricos geronticidas , a vacinas da gripe com vírus vivos,… às ampolazitas de cianeto de potássio de efeito instantâneo, indolor e garantido ou á bordoada na nuca, provada eficaz, já em Niendertal.

  O Testamento Vital a que se previa grande adesão foi um fiasco; de facto só com muita ingenuidade se acreditaria que os mesmos que nos têm amargurado a vida mostrassem tanta preocupação pelo nosso fim.
 Enquanto o senhor Primeiro Ministro, se fica pelas meias tintas medrosas do confisco crescente da reforma aos velhos sem a assunção corajosa de medidas definitivas e eficazes, a morte vai fazendo a sua inexorável  razia   e na minha opinião é quase “pecaminoso”entregar estes cadáveres anafados” à terra que os consuma”; sobretudo à terra inculta dos cemitérios; onde jazam eterna e improdutivamente, ou à voragem dos fornos crematórios de onde ascendam em turbilhões de poluição fumacenta a um céu já tão parco em ozono.

  Dê-se serventia aos velhos mortos (alguns não a tiveram em vida) saponificando-se a sua abundante matéria gorda e por  adição de essências de odores espalhafatosos, tão ao gosto dos novos ricos (classe em proliferação de praga), faça-se um sabonete, o Gerontofil, para uso interno e para exportação…Na minha opinião seria um êxito e uma forma dos velhos entrarem em lares ricos…

  É de uma credulidade excessiva, de pasmar, acreditar-se que quem nos enterrou é que nos vai tirar do buraco.                     

               João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS • Novembro 2013)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Medo

          E=mc2 talvez não contenha todas as variáveis que mudam o tempo. Talvez outros factores como a angústia, o medo, o relembrar, o querer viver mais, o desejar ardentemente, o aproximar vertiginoso do fim, transmutem as dimensões do tempo e um instante possa intemporal, transcender-se, e coadjuvado, tornar-se incomensurável…
          No rés-do-chão do hospital, há a sala dos cuidados continuados onde os “acabados”, alguns ali há muito tempo, esperam hirtos que a auxiliar que leva os mortos, detenha sobre eles o seu olhar indagador e atento, que os sobressalta e apavora.
          Se pedirmos a cada um dos acabados, ainda capazes, que abram os olhos e nos fitem sentir-nos-emos atingidos por uma tristeza que nos fustiga como uma aragem viscosa e tétrica, que se nos cola e besunta como um gel gelado.
É perturbador, quase insuportável, esse olhar que adensa, soma e retém, a expressão de mil cães espancados e escorraçados pelo dono, sem razão, e assemelha-se em todos os seres humanos informados e convencidos de chofre, do seu fim. Depois da descarga de catecolaminas que nos exalta e sustém, vem o desânimo avassalador, álgido, terrível.
Se corajosos ou sádicos, olharmos com mais demora e atenção esses olhares fitos em nós, veremos que nalguns deles, em muitos deles, há mil lampejos pequeninos luzindo intermitentes, que interpretados, são mil apelos por uma injecção de ânimo e que dissecados em análises profundas e contextualizados, colocam a esperança a par do oxigénio, ambos de importância vital, indispensáveis…
           Quase todos os que ali estão, têm filhos ou famílias que os não querem ou os não podem ter, por centenas de razões plausíveis, explicáveis e explicadas quase sempre, com minúcias, expressões e tons pungentes, entrecortados por suspiros, haustos e ais, e por lágrimas que teimam em não correr, limpas ritmada e tristemente, a lenços enxutos…
Há dias que um rumor insinuando-se sorrateiramente, vindo não se sabe de onde, acrescentou mais uma labareda a este inferno já de si tão triste. Foi a notícia de que fora aprovado no Parlamento uma lei sobre a eutanásia, (não ainda a executada pelo venenozito ou pela injecção letal, mas outra ainda mais pavorosa, levada a cabo pela suspensão da terapêutica e dos meios de suporte vital) que liberalizando-a, a tornava aplicável, não só a pedido do doente mas também a pedido da sua família mais chegada. Os acabados que até aí olhavam para os filhos e para os netos, com a ternura amorosa de quem contempla o único elo material da sua eternidade, olham-nos agora de soslaio, sub-repticiamente, como quem avalia à socapa a pujança de um inimigo impiedoso e temido; as visitas, antes encaradas como um bálsamo terno, são agora esperadas com medo que a breve trecho degenera num rancor ácido, de pH suficientemente baixo, para num ápice, corroer e extinguir todos os afectos, pois não podem existir ou persistir amor ou sentimentos de benquerença, por quem nos quer, não só fora do seu caminho, o que até se aceita e se perdoa, mas fora do mundo, o que é totalmente inaceitável e imperdoável, seja por que motivo for, que no nosso interesse, não o é…
Há entre os “acabados” muitos infelizes, que afásicos e privados da eloquência do gesto, se vêm limitados a esgares ininteligíveis onde se não vislumbra nada que ateste o seu entendimento e ultrapassem a nossa competência de decifração…Sabe-se lá o que lhes vai na alma e se esta barreira que os separa das pessoas não é unidireccional, e se aterrados, percebem tudo…e se há alguma coisa mais medonha do que qualquer vida, é a morte…até os mais crentes, da gente simples aos mais altos clérigos, mesmo não o admitindo, provam-no, agarrando-se ao “aquém” até que lhes decepem os dedos…
No tempo em que as leis eram para aplicação “universal” e o legislador era sério, tinha brio e se esmerava por prever todas as hipóteses, eram excluídos da herança o médico e o padre que tivessem assistido o moribundo na sua fase final, dado o poder que tinham de sugestionar o infeliz, um prometendo-lhe a cura e o outro prometendo-lhe a vida eterna. Incluíam-se os familiares, como herdeiros legítimos, mas presume-se que a estes o doente conhecia sobejamente, para se deixar iludir… É por isso que outorgar-se à família, o poder de representar o incapaz, interpretando-lhe a vontade, me parece extremamente inadequado. Sem obviamente pôr em dúvida que a maior parte das famílias querem o melhor”para o seu doente”, desde tempos imemoriais que se sabe que o interesse prevalece em geral sobre os afectos…e a censura dos mortos, só exequível  por “vidências mediúnicas,” ou pelo remorso, que pressupõe consciência, é peso de pouca monta para os vivos e de nenhuma serventia para os mortos…
Se as galinhas não forem os animais estúpidos, que nós seres supremos, presumimos que são, será horrorosa e escusadamente cruel, a alameda do aviário onde de ovos passam a pintos, de pintos a frangos e de frangos a frangos degolados. São galinhas videntes, mais competentes do que o professor Karamba ou do que a astróloga Magda; do seu princípio adivinham o seu fim. Bastava bifurcar a recta, ocultando ao todo o destino de uma parte, para criar a esperança e acalentar em cada frango o desejo e o sonho utópicos, de escaparem à decapitação. Façamo-lo aos nossos velhos, aos nossos doentes crónicos, aos nossos inválidos…
Até os Nazis, no seu apogeu de extermínio, o fizeram. Nos grandes matadouros/crematórios de Dachau, Treblinka, Auschwits, Sobibor,Maidanek,Chelmo, Belzev, etc,etc, etc …(não só de judeus mas de todos os que divergissem da linhagem ideal dos arianos de “raça pura”, como os PIGS) os recém chegados a eliminar, eram sob o pretexto  de uma desinfestação (pediculose) e de um banho,  levados a um recinto, onde lhes pediam que se despissem e que  nus,  passassem a um simulacro de balneário, onde encerrados, eram pulverizados com o insecticida Ciclon B. Os nazis não lhes tinham mentido. Morriam sem piolhos…Façamo-lo aos nossos infelizes”acabados” por que informar seja quem for, do momento em que o vamos abater, mesmo que com o seu “acordo”, é de uma maldade excessiva…
  O que os “acabados”não sabem, porque sabendo-o sentir-se-iam apaziguados com a morte próxima, é que no mundo a que não tornarão, tudo é agora triste, sombrio e desolador e as pessoas atordoadas se movem em círculos entre escombros, cinzas e pó …do que foram sonhos, projectos, vidas…
           E todos os dias vêm acusá-los de uma dívida, mesmo aos que nada tiveram nunca, fazendo-as sentirem-se culpadas como nos pecados mortais da infância, em que se acreditava sem contudo se perceber.
  Os que se atrevem a olhar para o recôndito onde as verdades se despem, há muito que perceberam, sem margem para ilusões, que:
            A exorbitância dos juros da “dívida” exclui por si só, qualquer propósito de ajuda.
            A relutância obstinada em renegociar os “juros” alegando honra e credibilidade quem não teve pejo, de enganar os cidadãos que o elegeram, e de descer à vileza maldita, de amargurar os últimos dias dos velhos, não é crível.
            A pressa frenética que demonstram em privatizar tudo, por “quanto menos melhor”, mostra claramente ao que vieram…
             A própria maneira exagerada como representam o seu, já de si, odioso papel, acrescentando-lhe incerteza, “suspense” e uma desalmada canalhice, é excessiva, pelo que obviamente faz parte do plano, porque não se pode ser tão estúpido e ter-se aprendido o abecedário.
              A história sem fim, do cidadão que viveu acima das suas posses, o suposto pedido depois de uma reunião de todos os banqueiros, prova, na minha opinião que estamos a viver um enorme”conto do vigário”. Até Sua Reverência o Senhor Cardeal nos veio advertir da inutilidade das contestações…
              Depois de um empréstimo sabiamente calculado para extrair o máximo ao pedinte, este esvaído, deixa também o penhor. É assim que há milénios os agiotas enchem as suas arcas de ouro, e é por isso que nem os que lhes deveram, lhes ficaram gratos.
              Findo o seu desempenho de “mandarete de rapina”, o eleito vai desarvorar deixando um país devastado, cruzado por abundância de auto-estradas onde se paga por não passar, conduzindo a desertos desabitados e a frondosos eucaliptais, pronto à invasão do “capital” , sobretudo dos que muito levam, pouco trazem e nada dão…
              Os nossos grandes empresários quase todos estabelecidos no ramo da mercearia, explorarão também a saúde no cargo tríplice da engorda, do tratamento e da matança…
              Quem podia fazer alguma coisa age prudentemente, que cautela não é medo, não vá o poder cair-lhe precocemente no colo, derreando-o…
              Raio de mundo:
              Esbulham-se os velhos, os doentes, os cidadãos contribuintes, impede-se-lhes o acesso aos medicamentos, às terapêuticas, aos cuidados paliativos, criam-se situações de medo e de motivo para o ter, e abre-se-lhes a porta à morte garantida pelo Testamento Vital, cuja coexistência com uma medicina idónea, bem praticada e de acesso garantido seria de interesse residual, mas que num futuro próximo em que a saúde seja o “Grande Negócio”, fará todo o sentido.
 Os doentes pobres vão morrer mal esgotem o pecúlio ou o crédito e os doentes ricos (desde que saibam precaver-se dos herdeiros) vão aproveitar-se de todas as evoluções, e de terapêutica em terapêutica, de transplante em transplante, viver até de que deles próprios só sobrem, meia dúzia de neurónios entre ateromas e glia, mantendo vagas reminiscências do que foram num passado distante, sem contemporâneos sobrevivos…
 Estão a comer-nos as papas na cabeça. Tudo é preferível a este buraco negro onde  o medo e o desespero abundam e alastram e de onde a esperança se esvai…
                                              
João Miguel Nunes “Rocha”
(artigo publicado na revista de JAN/FEV 2013)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

As fomes

Era meio-dia. O sol inclemente incidia verticalmente na savana sugando a humidade, crestando os verdes, gretando a terra, tisnando os incautos e os sem abrigo.

 No horizonte, o céu levantava-se da planura numa campânula azul-cobalto, iridescente que atabafava tudo. Predominavam os matizes ocres ferruginosos, amarelos fortes, e se se percorresse a paisagem com o olhar rente ao chão de vez em quando levava-se com uma chispa reflectida maldosamente pelos cristais de mica e quartzo dos calhaus magmáticos. O feldspato parecia impregnado de unto seboso, e não cegava. O bando de crianças acachapava-se de pé contra o tronco imenso do embondeiro, parecendo enormes sardaniscas contra a prumada de um muro. Fugiam à torreira, mas a essa hora, a árvore só dava uma sombra escassa e quente. Via-se que a tribo a que pertenciam já fora educada pelos brancos, provavelmente missionários e cantineiros, profissionais que penetraram em todos os recantos de África, uns vendendo a fé, os outros vendendo as capulanas, o álcool, as missangas e as quinquilharias, embelezando os felizardos por dentro e por fora, no corpo e na alma. Isso era evidente, porque apesar dos seus sete, oito anos, impúberes e sem malícia, todos traziam um pano de capulana de cores e padrões surpreendentemente bonitos, que seguros das saliências agudas das cristas ilíacas ântero-superiores, lhes desciam pelo abdómen tapando-lhes pudibundicamente as impudicícias, também essas feitas por Deus, por esse Deus, que elevava aos Céus ou condenava a um Inferno inexorável e infinito, no tempo e no sofrimento. Produtos últimos de uma selecção implacável, apesar de magros, todos tinham corpos belos com a musculatura bem definida como no Rouviére, e as meninas, só se distinguiam dos garotos, pela maior delicadeza das feições, e, pelo “adoçado” do olhar, trazendo à mente dos velhos cépticos como eu, a visão da flor que inebria e fascina, entontece e atrai o insecto, que acaba digerido na sua corola que se fecha. O Deus omnisciente que fez o céu e a terra, semeou o universo de armadilhas, talvez por na sua imensa sabedoria antever, que a aventura só o é, com a baforada adrenérgica do perigo, que o amor só floresce completamente com uma pitada de ciúme e que o êxito que se não alicerça em trabalho e esforço, acaba por ser decepcionante, até para quem o alcança. Mesmo nos períodos de menor abundância, como este, a vida é bela. Se no rio continuassem a existir poças de água a vida continuaria, uns dias mais, outros dias menos mas o bastante para se ser feliz, porque a felicidade, a alegria de viver, não dependem apenas do que possuímos de palpável, mas dependem também e sobretudo, da nossa confiança em nós e nos outros, e da nossa capacidade de sonhar. Os Porches, os Ferraris, não são componentes importantes da felicidade, são meros elementos de afirmação com que nos pavoneamos, uma carícia ao nosso ego, mas perfeitamente substituíveis por um outro “ter”, num mundo de valores relativos, de comparações…a vida é uma dádiva, constituída por um somatório de instantes, que se não podem adiar, e não gozados, passam na mesma inexoravelmente, e, para sempre se perdem na voragem do tempo. Por muito que a nossa megalomania nos erga e o negue, não passamos de cintilações no rolar dos milénios, de grãos ínfimos de poeira num universo de desertos, haja ou não haja Deus… Na desolação da savana no tempo quente, o grande perigo era a desnutrição proteica inerente à seca extrema. Havendo poças de água havia batráquios, insectos, larvas e tudo lhes servia como fonte de aminoácidos. Há dois anos a seca fora grande e a irmãzita do Bonáfu morrera…ao mesmo tempo que emagrecia o abdómen foi-lhe crescendo, crescendo, transformando-a num esqueletozinho barrigudo e disforme. Os lábios foram-se retraindo, retraindo, arrepanharam-se-lhes e o esmalte branco dos dentes alvejava constantemente, esboçando um sorriso de tristeza infinita, comovente. Ainda assim sorria quando a enterraram. Uma réstia de moedas de um dos muitos milhares de porta esmolas do Vaticano, um extra de um Ferrari de um VIP, uma raspa de ouro de um ricaço e milhares de crianças como a irmãzita do Bonáfu sobreviveriam à infância, cresceriam. Mas o Vaticano arrecada para Deus, que por força da sua omnipotência o não precisa, e os ricos são-no porque amealham, não por dar e a globalização é uma “grandessíssima” p… com as intimidades candidamente escondidas por rendinhas bordadas a “Lobbis e Cartéis” porque o nudismo é para os naturistas e outros que tais, e, os conhecimentos ancestrais e milenares ensinaram às damas “sábias e sabidas”, que esconder dando lugar a imaginação atiça o desejo, que exacerbado pelo manejo hábil de olhares lânguidos e lascivos e por vislumbres subliminares da “carninha pecadora” transformam o avaro num mãos largas, num perdulário, e, despertam o próprio velho, adormecido como a bela, ajudado à sua letargia pela próstata, pelas hormonas, pelo pudor…e claro, por enormes períodos refractários absolutos e relativos, que estes não são exclusivos do coração, aguilhoando-o com a ferroada da nostalgia de uma juventude que para sempre se foi, e, que nenhum Deus, que nenhum Céu, que nenhuma crença, nem sequer uma carrada de “Viagra” lhe devolverão jamais… A Juventude do macho não se consubstancia e reduz a um símbolo fálico, é muito mais, e, talvez a decadência que nos acompanha e progride na velhice seja um bem, uma forma de “delapidar o apreço” pela vida e de nos apaziguar com a morte, que nunca conseguiremos iludir, seja qual for a terapêutica rejuvenescedora que façamos, e de resulta quase sempre, uma triste réplica de nós próprios…é no número de mitoses das nossas células, no cúmulo de detritos intra e extra celulares inamovíveis e no jogo aleatório do acaso, que Ela se baseia, para marcar a nossa “hora”….

  Os negrinhos citados na sua ignorância inocente e juvenil não o sabiam, mas há muito que a globalização penetrou em África, minando-lhes o modo de vida, e o seu mundo, já tão parco e tão precário, talvez em breve se transforme numa lixeira radioactiva, onde imperarão a morte impútrida e a esterilidade de um planeta sem vida, desolador e medonho.

   Á mesma hora, nas grandes latitudes do norte, onde o gelo é eterno e a noite imensa, o casal de velhos saiu cabisbaixo do abrigo da família para a penumbra uivante, agreste e terrível.

   Andaram alguns passos sobre o gelo e quedaram-se desolados e abraçados. As lágrimas congelavam-se-lhes sobre as faces vitrificando-lhes as feições e nos trinta graus negativos da noite sem fim, em breve morreriam; mas tinha de ser, a comida escasseava, o socorro tardava e havia que tapar bocas e foram eles, os mais velhos, os escolhidos. Nada havia de maldade nesta sentença de morte ditada pelas circunstancias do clima impiedoso…a vida é um palito tirado à sorte, e eles tinham o maior, tinham de morrer, mas nunca mais ver este mundo gélido mas belo, cruel mas também terno, custava, custava muito; por isso choravam, o seu desespero e a sua angústia… que nem a certeza da morte rápida, conseguia atenuar…

    O seu mundo já fora afectado pela besta global, dissipando-lhes os recursos com pescas e caças que tudo dizimavam, com o aquecimento do efeito estufa…o ser humano é o grande predador de si mesmo…

     Na Europa civilizada de clima ameno, onde os maneirismos e os tiquezinhos, laboriosamente aprendidos, simulam a boa educação e dissimulam a nossa natureza impiedosa, boçal e brutal, a mulher jovem e linda, sonhava de olhos abertos com o Audi; de vez em quando o seu olhar perdia o “absorto onírico” e poisava langue, suave, aveludado e belo, num dos basbaques sentados na esplanada e se houvesse a conjunção de factos, de ter poisado num homem e deste ser heterossexual, logo ele entrava em transe hipnótico, ficando pasmado, de boca aberta, a olhar para a jovem embevecido, a babar-se cuspos espessos, o que prova conjuntamente, que Pavlov tinha razão e quão bonita era a nossa jovem , filha única de pequenos proprietários que viviam do amanho da terra  e que tiveram de fazer inúmeros  sacrifícios, para que ela pudesse estudar longe da terra onde nada havia .Estudara afincadamente fugindo da miséria, lidara com pessoas de outras ascendências sociais, invadira-a a ambição que transmuta a vida e atinge os sonhos.

   Quando saíra para o liceu e depois para a universidade, as idas a casa começaram a espaçar-se e a tornar-se mais breves e tinha de fazer um esforço para conter-se, para não mostrar aspereza, irritação, perante as perguntas insistentes dos pais tão cheias de interesse por ela, mas tão ingénuas e maçadoras, das suas carícias tão cheias de ternura, mas tão rudes, e que feitas por mãos, a que o trabalho conferira a textura de cavacos, tão ásperas, tão toscas, tão desagradáveis …

    O afastamento no espaço, no meio social e nas pretensões, foram carcomendo os sentimentos de ternura dela pelos pais, e, substituídos por uma frieza crescente, por uma noção de dever irritada e finalmente pela indiferença que atesta a extinção dos afectos. O ódio e o amor podem transmutar-se, mas a indiferença é um prenúncio do fim  irrevogável, definitivo…

   O Natal, esse período fingido, ataviado de logros e de rituais em que se imita a bondade, em arremedos que quase sempre descambam em piedadezinhas ostensivas, que vertem humilhações sobre os desvalidos e trazem o seu lucrozinho, aproximava-se e como sempre ía passa-lo com a família, a casa , que nessa altura se enchia de comidas de sabores  primitivos, pré-históricos, a que contudo não conseguia resistir; imaginou uma preparação histológica do seu próprio tecido adiposo, numa lamela observada ao microscópio depois do natal, com os lipócitos com as suas membranas lipo-proteicas estiraçadas pela abundância de untos intracelulares e estremeceu; ía engordar cem quilos…que gaita’…Recomeçou a pensar no Audi e na sua impossibilidade de o comprar. Quando os pais, já velhos, morressem, venderia a quinta….levantou-se num repelão assustada e assustando os sonhadores, arrancados em sobressalto, aos seus delírios insusceptíveis de aprovação Papal, e, surpreendendo os outros circunstantes.
   Chegou a casa ainda espavorida pela associação de ideias e foi telefonar aos pais, e, como quem se penitencia ou tenta apaziguar o destino, falou-lhes longamente, ameigando a voz, atemorizando-os duplamente, pelo tom meloso e pelo telefonema sem motivo, sem nenhum  pedidozinho. Estaria  doente...a sua filhinha?

  Era inteligente, trabalhadora, capaz , mas um certo rei  cujo reinado remontava à sua infância, perante o dinheiro a rôdos de Bruxelas investira em auto-estradas concessionadas eternamente a privados, em negociatas mais rentáveis que mil milhões de sortes  grandes,  e também tão afeiçoado à cultura, que no próprio dia da morte de Saramago anunciara mediática e lamentavelmente, que o escritor nunca lhe fora apresentado, num tom de desdém alindado de soberba, que só podem ser dignos de dó… Na minha opinião , tanta falta de vista transcende os órgãos da visão e subjaz nos latifúndios retroorbitários .

  Fazendo jus á memoria de alguns dos nossos melhores reis interessou-se pela agricultura e pelas pescas, que destruiu, fomentou a eucaliptização do país e abriu muitas, muitas universidades e para que não faltassem nem alunos nem doutores deixou que se estatuíssem limiares de dificuldade, díspares e disparatados, formando-se a eito pessoas de grande capacidade e outros que lêem, soletrando, como quem decifra enigmas de grande complexidade…Cortou-se assim cerce a única possibilidade, que os berço humilde, tinham de ascender por capacidade, porque desta fornada de licenciados e de mestres, é a piramidezinha, usada desde o nosso passado cavernoso , que determinará os eleitos.

   Assim a nossa jovem era inteligente e capaz, e ter tirado o curso de medicina com notas altíssimas provava-o, mas dizer que era boa, é outra conversa…Mesmo o ser humano mais bem formado tem de dissimular, de esconder cuidadosamente o que lhe vai na alma, porque esta é complexa, ancestral, e exposta á luz nua e crua, horrorizaria o próprio Satanás, que como é do conhecimento de todos, é um ser de coração duro, empedernido, difícil de chocar.

   Tudo em nós, seres humanos, todos os nossos anseios, se centram e concentram em nós próprios e todos os nossos movimentos se executam por força do nosso desejo de sobrevivência, do nosso egoísmo e do nosso desejo de sermos importantes, ou pelo menos de o sermos, a nível do nosso circulo de relações…Por isso mesmo, se a sorte grande tem de sair, que saia a um desconhecido e não a um amigo nosso, se alguém tem de ter grandes êxitos enquanto nós não passamos da cepa-torta, que não seja o nosso irmão.

    Se angustiados, sentimos a pulsão ansiosa de partilhar a nossa angústia, façamos como o barbeiro, que foi para o canavial gritar o seu enorme pasmo, por ter visto que o príncipe tinha orelhas de burro…

  Há quem procure nos padres, nos médicos, nos psicólogos e noutros profissionais ( bruxas ,videntes ,astrólogos, quiromantes) a ilusão de que alguém foi profundamente tocado pelo nosso caso, mas os profissionais calejados são os menos propensos aos  abalos da piedade: o médico conforta maquinalmente quando informa da doença, a extrema- unção e a missa de corpo presente, endureceram o padre, e a sua ladainha, as suas palavras de conforto nada significam para ele, são meros reflexos condicionados.

   A nossa jovem não sabia tudo isto, porque estas coisas só penetram na carapaça dos saberes, depois de termos vivido muito, talvez num breve “ocaso”, em que haja uma conjunção de sabedoria empírica com uma rarefacção neuronal, e os pensamentos, fluindo por circuitos menos labirínticos e complexos, conduzam a recônditos de luz….ou talvez seja apenas, ser-se velho e taralhouco. Foi por isso, que associar a morte dos pais á sua satisfação, a chocara tanto…

   Futuramente, se vivesse, aprenderia que o ser humano se adapta a todos os horrores e somos mais afligidos pela descrição brutal dos factos, do que por estes em si. A mulher que se dirige ao médico pela terceira vez do mesmo ano, da mesma vida, para ser submetida á interrupção voluntária da gravidez, ficaria estarrecida se lhe dissessem: hoje não podemos eliminar o seu filho por métodos farmacológicos; só se quiser submeter-se ao aborto mecânico, por raspagem e por sucção, o que significa esquartejar o seu bebé que já tem sistema nervoso central e periférico, e que até já chucha no dedinho, e claro, já sente dor, e, provavelmente medo…Estas palavras assim ditas, sem pinga de censura, suavizando-se até a voz, num tom pio e benevolente de seminarista, enchê-la-iam de raiva contra o médico, mas provavelmente não a demoveriam da sua resolução.

   O mesmo se passará em breve com os familiares que forem requerer a “interrupção da vida” do seu pai, do seu doente, do seu avozinho…fá-lo-ão sempre e só, no interesse do outro, não no deles, e, o mais espantoso, é que este esbater e adornar  da verdade com  “laivos de verbe,” funciona tão bem que a própria pessoa acredita no que diz , é sincera ao faze-lo.

   A nossa jovem não era rica nem sequer remediada, mas mesmo assim, tinha bem mais, do que a maior parte dos seres humanos e se passava fome fazia-o voluntariamente. Dantes a magreza extrema associava-se à fome negra dos pobres, à tísica, à caquexia terminal das neoplasias. Depois começou a associar-se o ideal de beleza a um esqueleto com mamas, ou a um jovem com as miudezas realçadas pela roupa e pela natureza ou pela roupa e pela estratégia….Foi o começo, da tão conhecida “anorexia nervosa “em cujo pico, o doente se deixa morrer de fome, num mundo de abundância cheio de untos, de presuntos e de guloseimas.

   Por trás da vidraça o velho professor espiava de um canto da janela a noite morna. As pupilas em midríase luziam com os raios incidentes reflectidos pelas retinas, acendendo-lhe os olhos como aos lobos. As luzes do bairro iam-se apagando com uma lentidão “lesmática” que aumentava o tempo; o velho tinha fome mas preferia morrer dela, a ser visto a vasculhar o lixo. A pensão de reforma há muito que acabara, comida a meio do mês, como acontecia sempre, apesar de ter abdicado da televisão, da medicação e de todos os gastos supérfluos. No estômago vazio a secreção cefálica de HCL, estimulada pelo “imaginar petiscos”, materializava-se numa moínha ardente entre o umbigo e o apêndice xifóide, exasperando-o…

   A última vez que esgaravatara o lixo, tivera imensa sorte: encontrara sete papossecos córneos mas sem bolor e conservando ainda o sabor bom a pão, uma dúzia de “jaquinzinhos” ressumando bom azeite, que algum penitente deitara fora, e para coroar toda esta fartura seis pastéis de nata ainda embalados, a que o azedo do leite, em vez de estragar, conferira, um delicioso sabor a queijadas…

    Já vivera bem e por sorte a casa que habitava era sua, sem o que teria de calcorrear as ruas. A mulher morrera-lhe há quatro anos, e o próprio “papa defuntos” da funerária, junto com “os meus sentidos pêsames” lhe entregara um impressozinho, com as obrigações pós fúnebres…Enfim as finanças caíram-lhe em cima e explicando-lhe que por ter mudado o sujeito passivo, a sua casa fora reavaliada pelas regras do C.I.M.I,(D.L 187-03) de que resultara um aumento de mil quinhentos e oitenta por cento, do I.M.I.; ainda tentou beneficiar da isenção temporária, alegando precisamente, que mudara o sujeito passivo, mas explicaram-lhe que para a isenção não…

    Ficara sem remédio a pagar de Imposto municipal sobre imóveis, da casa que habitava e era sua, imensamente mais do que auferia de quatro prédios de três andares de dois fogos, que possuía, de rendas congeladas desde os tempos escuros, apesar dos muitos galopes da inflação, tornando-as obsoletas, iníquas…

   Ei-lo, professor de liceu reformado no topo da carreira, auferindo a reforma acrescida da renda de quatro prédios de habitação, passando fome de rato, em tempo de vacas magras, famélicas…
Todos os meses, recebia uma intimação, para fazer obras num ou noutro dos seus apartamentos. Que se desmoronassem com os moradores dentro; obras, com que dinheiro? Mesmo que tivesse dinheiro, com as rendas que recebia, demoraria entre dezoito a vinte e seis séculos, a ressarcir-se do gasto…Nem mesmo a igreja podia pedir-lhe, que abdicasse de tanto do seu tempo a trabalhar para os inquilinos…O seu grande medo era que lhe penhorassem a reforma. A primeira vez que tal receio o acometera planeara agredir a autoridade que o viesse informar; munira-se até de um arrocho para o efeito. Seria preso, e na pior das hipóteses teria cama, televisão e três refeições por dia, coisas que agora não tinha, mas desde que ouvira falar de prisões domiciliarias, tinha verdadeiro terror de que o confinassem a casa e morresse, de tanta fome como se padecesse de anorexia, o que era completamente falso, porque em toda a sua vida não tivera um só dia de fastio, de fome sim, de falta de apetite, não.

        Os tempos de ditadura foram tempos de muitas arbitrariedades, de muita miséria, e de um fosso imenso entre os pobres e os ricos. Havia favorecidos, que os haverá sempre, mas o cancro da corrupção não se disseminara ainda em metástases, corroendo tudo. Cada um, era em grande parte condicionado pelo nascimento mas apesar de tudo, na opinião dele, nesse mundo, onde sem dúvida imperava mais a pobreza dos pés descalços e a fome que faz doer, havia na constância das leis, na honestidade das instituições, na permanência das regras quando chega a hora de pagar… e havia grande probabilidade de se morrer de morte natural, coisa que se lhe afigurava cada vez menos provável, no futuro.

   De manhã, deambulando pelas ruas, encontrara um velho companheiro do liceu que exercia medicina num hospital EPE. Ficara a saber que havia doentes de primeira e de segunda vezes, pagos pelo erário público a125 e a30 euros respectivamente. Como os doentes readquiriam a “virgindade assistencial” após um ano sem consultas no hospital, a “plastia do hímen,” era acarinhada pelos gestores, obviamente. Depois de se despedir, coisa curiosa, sentia evolar-se de si próprio um fedor rançoso…seria porque o amigo lhe dissera? Tu e eu, apesar da nossa magreza, não passamos de grandes lipócitos. Eu, cada vez que pratico um acto médico, quer o doente morra quer se salve, e mais ainda se o curar, estou a esbanjar bens públicos.

  Tu, que nada produzes e persistes em viver frustrando expectativas, és mesmo assim um “ónus adiposo”, menor do que eu, porque só oneras pelo que te “quiserem” dar, enquanto nós, funcionários públicos no activo, sobretudo os que produzindo, geramos mais despeza, somos o panículo adiposo que sobrecarrega o estado e impede o país de progredir.

  Os Institutos, as Fundações, os Grandes Empresários grudados ao Estado como carraças, mas alegando, sem corar, funções simbióticas, certos políticos reformados na  juventude ,etc,etc, são tudo músculos de boa fêvera, sem resquícios de lipum ,e, as parcerias público-privadas são diafragmas, que não só puxam e empurram, mas que nos fazem respirar. Enquanto aguardara a noite estivera a folhear um álbum de recortes de jornal que a sua falecida guardara; num deles, numa pose pomposa, inchados como a rã que queria ser boi, quatro homenzinhos sorriam para a posteridade que se a tiverem, só na galeria das aberrações…

      No largo imenso, os jovens e os velhos, as mulheres e as crianças amontoavam-se num enorme ajuntamento. Por trás das gentes a Morte surdira subtil, suave e sorrateira e esboçava um sorriso de ironia gélida. Os jovens olhando em frente para um futuro que lhes parecia imensurável, desafiavam todos os poderes do universo e diziam-se feitos á semelhança de um deus eterno…E a Morte, sorria impiedosa e gelada e desembainhava, empunhava e erguia a foice, com que degolava a alma dos homens, apagando-lhes todas as percepções passadas, presentes e futuras e mergulhando-os num “não ser”, negro, opaco, silencioso e vazio em que se decompunham e transmutavam, em biliões e biliões de átomos, que se juntavam aos outros átomos do universo, cada um com o seu núcleo e a sua girândola de electrões, como sistemas solares em miniatura…

 E, as torres gémeas desabaram. E, o polido Ocidente massacrou os povos, para os libertar dos ditadores. E,  Bin Laden foi morto, sem se calhar, ter vivido…

 E, as histórias que nos contavam na infância, eram fantásticas mas graciosas e todas terminavam com o utópico mas lindo: e foram felizes para sempre…E, as histórias que nos contam agora em sessões contínuas fastidiosas, são igualmente fantásticas, mas sem graça e terminam todas, com a ameaça da bancarrota, (que já aconteceu), visando criar um clima de terror propício, a que nos tirem o resto, sem contestações. O património estratégico de valor imenso, será cedido aos mandantes, por uma fracção irrisória do seu justo preço, e o S.N.S. será uma “parceria,” não vá o diabo tecê-las, e haver umas continhas a pagar.

  E, vou segredar às minhas filhas, que se quiserem enriquecer súbita e fulgurantemente, como muita gente de bem, explorem os cumes da atmosfera, lá, onde a gravidade hesita e deixa de puxar, porque obviamente, foi para lá que foram, os triliões dos pobres, esbulhados, e o dos ricos, que dizem, não os ter…

  E, os sábios que vão substituir os “transportes públicos” pelo TGV, que nos façam um ramal para Niendertal. É lá, que o futuro fará o seu festim canibalesco, farto em boa proteína, bem cada vez mais e escasso e caro, no nosso tão civilizado mundo ocidental…

                                                          
João Miguel Nunes Rocha
(artigo enviado para publicação em Agosto de 2012)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os génios do ambíguo

Eram quatro e tal da madrugada, hora em que os poderes malignos que nos espreitam da penumbra se tornam quase reais, hora em que nos hospitais e nos lares os moribundos capitulam e se deixam levar pela morte, hora enfim a que detesto acordar, porque a essa hora, o labor físico-químico do cérebro só gera pensamentos melancólicos, e, em que a própria alegria, se presente, parece dúbia e densa, como se acarretasse presságios de desgraça.

Sabendo por experiência própria que a essa hora, é preciso um rebanho infindo de carneiros para afugentar a espertina, comecei como quem os conta, a remoer o que sonhara.
Fora com uma parábola de Jesus Cristo em que ele diz: - Em verdade, em verdade vos digo, que é mais fácil a um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que a um rico entrar no reino dos Céus. - Por capricho do fluxo sinuoso do pensamento onírico, associei (embora não haja nenhuma relação) política com riqueza, e de repente percebi, que na outra vida em que irei para o Céu quando sonho, porque quando acordado sou ateu, não iria encontrar políticos ou só políticos pobres e farroupilhas... Pensando que iria detestar esse Céu carente da eloquência dos nossos tribunos, presidentes de câmara e ministros... cheio de maltrapilhos e pés descalços, acordei banhado no suor gelado dos pesadelos piores, às quatro e tal da madrugada, hora em que os defuntos nos vêm assombrar e pé, ante pé, produzem crepitações e estalidos no madeirame do sobrados antigos como em criança acreditava e agora gostava de acreditar porque o pior de tudo, é o fim absoluto, o nunca mais ser, dos que não crêem...
Na minha recapitulação e interpretação do sonho, recordei a catequese que frequentara em garoto e nos evangelhos que mais tarde lera, e fiquei com quase a certeza que o espírito divino que inspirara os quatro evangelistas nas suas versões, não inspirara à menção do tamanho da agulha e do respectivo buraco, nem a uma especificação concreta e mensurável da riqueza no tempo e no espaço e que havia no omisso, um toque de génio, que criando uma ambiguidade permitia múltiplas arguições, inclusive o escancarar das portas do Céu aos mais ricos e opulentos, mesmo aos que adquiriram a riqueza (haverá muitos outros modos?) de forma facínora e rapace. Sem raciocínios profundos basta atermo-nos às regras da tabuada e ao conceito de saldo médio, para ver que todos chegamos ao limiar do além pobres como job ...ou mais ainda...
 Voltando e limitando-me às coisas terrenas há também por cá, um génio do ambíguo que é contratado pelas seguradoras na sua redacção das apólices, fazendo os segurados crer que andam a pagar a sua saúde, até perceberem que de facto andaram, no dia em que adoecerem; ou segurar a casa contra a gatunagem ou o fogo posto... Eu próprio já fui vítima dele; tem olhos de lupa na cara de Satanás onde assoma um resquício de malícia. Impingiu-me um seguro para navegação no veleiro com cláusulas múltiplas contra piratas, sendo-me posteriormente explicado pela seguradora num litígio, que
no conceito deles, o último pirata fora um inglês enforcado há cerca de dois séculos.
Nos tempos tenebrosos de escuridão não democrática os decretos-lei só regulavam para o futuro. Era o tempo dos governantes sovinas com as botas e com o erário público, que não recorriam aos génios que são ‹‹carotes››. É por isso que as alterações que andam a fazer às nossas reformas tresandam a marosca  porque o decreto-lei 498 de 72, que as estabelece e regula, não é de forma alguma ambíguo...
Penso que a contratação de génios do ambíguo para interpretar ou redigir decretos começou no princípio da última década do século passado.
Eram tempos de abundância. Formara-se um rio de dinheiro em Bruxelas que desaguava directamente cá, numa foz de mil braços e quinhentos deltas.
Todos os ‹‹iniciados››, que tinham conhecimentos ou contrataram um génio, tiveram a sua oportunidade de encher os cofres e reforçar a continha na Suíça...
Fizeram-se obras de muita monta e pouca serventia. Impermeabilizou-se o litoral do país, agredindo-se a natureza e mudando-se o clima. Criaram-se licenciaturas em áreas tão extraordinárias que se um dia tiverem aplicação, já o licenciado, há muito se finou...
Houve quem se deitasse pobre e acordasse mais rico que o rei Salomão, e, as respostas atabalhoadas e tartamudeantes que alguns deram geraram desconfianças mesquinhas... Mas eu que estudei lógica na filosofia do 3°ciclo do liceu sei a resposta: -Todos eles têm amigos, logo ali, fora do sistema solar, mas dentro da Via Láctea...
Trouxeram-lhes a fortuna em naves espaciais, o que explica a frequência dos OVNI; Mas os extraterrestres pediram-lhes segredo; São os melhores de entre nós, porque as suas respostas balbuciantes e ambíguas se devem afinal à sua nobreza de carácter, ao respeito pelo segredo a que sob palavra de honra se vincularam... É lamentável o modo como se podem deturpar as coisas animados pela inveja que entre nós campeia!
Nesse tempo de vacas com obesidade mórbida, com úberes das tetas a roçarem os calhaus dos pastos planos, não havia necessidade, pelo que é duplamente miserável, uma autêntica vilania, o que então fizeram aos ex-combatentes milicianos da guerra do Ultramar, que foram esbulhados da contagem do tempo (dada pelo ditador) em que arrancados à sua vida civil foram usados, como alvo e detonadores de minas na guerra... Foram-no pela Lei 30-C...De toda a nossa classe política apenas uma voz protestou contra esta extorsão e injustiça...Terá sempre a minha gratidão e o meu apreço apesar das várias recomendações que fez aos governantes, não terem sido acatadas.
Fizeram-se também umas alteraçõezinhas nas interpretações das carreiras médicas privando-se os colegas do acréscimo de contagem de tempo para efeitos de aposentação inerente ao regime de trabalho de 45 horas semanais, nos internatos geral e complementar.
Nasceu-me então o interesse pelas coisas políticas, que ultimamente se tornou uma paixão exaltada, muito imprópria da minha dignidade e vetustez. Sinto a «máxima» subir e dilatar-se, abalroando-me o endotélio das artérias, que sopram e latejam em protesto. Qualquer dia se insisto nesta minha mania de assistir à eloquência dos debates políticos do telejornal, rebenta-me alguma das intra-cranianas esguichando hemorragias, semeando-me o córtex de ilhas de estupidez entre os neurónios pensantes, já de si escassos e com uns danozitos isquémicos...
O sorriso ambíguo que uma mulher bem educada, pelo génio delas, sabe fazer quando o amado, com expressão basbaque, lhe exibe os redos abdominais, os psoas ilíacos e outras circunvizinhanças, merecia por si só, uma sub-especialidade de psiquiatria... É tão ambíguo, tão ambíguo, que pode ter o efeito devastador de uma arrochada fronto-temporal, ou paradoxalmente, prender mais do que um nó direito ou um lais de guia.
Muitos venderíamos a alma ao diabo (se o houvesse) para voltar atrás... mas a vida é efémera e o tempo só passa uma vez, numa voragem avassaladora que se perde na imensidão do espaço, lá longe, a milhões de anos-luz, numa explosão sublime e incomensurável de energia e luz.
É triste admitir a queda do nosso ídolo científico, pela inexorável evidência das coisas actuais. Ninguém no mundo da ciência me fascinava mais do que Albert Einstein. Servindo-se apenas de umas folhitas de papel, com o prodígio do seu génio, foi garatujando uns cálculos, formando umas equações e produziu a teoria que relativiza, relaciona e interliga, a massa e a energia, o espaço e o tempo (E = mc2).
Constato porém consternado que sobre o tempo tinha conhecimentos apenas razoáveis. Onde estão: - o tempo completo, o tempo completo prolongado de 45 e o de 42 horas, o
tempo que conta para a aposentação em quantidade igual a si mesmo. O tempo que acresce o tempo em 25% e contou até princípios de noventa e depois deixou de contar, o tempo que ainda acresce se se fizerem duas vezes os descontos para a C.G.A., e enfim para abreviar esta lista fastidiosa de enumerações, o tempo dos que já pagaram o tempo e tornaram a pagar o acréscimo de 25% do tempo e que nunca beneficiarão deles, pelas alterações das regras da aposentação...? Quem percebia mesmo de tempo era o senhor João de Deus, não o colega, nem o poeta, mas um funcionário da secretaria dos H.C.L., que por isso mesmo, penso eu, foi estrategicamente promovido e colocado na A.R.S. de Lisboa, de onde já deve ter fugido para a aposentação, para não ser penalizado no seu próprio tempo...Teve sorte; há quem por tanto saber tenha ido parar à cova escura de onde só se sai no Juízo-Final, segundo o dogma, e, um pouco mais tarde, na minha opinião... Há dias vi um documentário: - Algures em Africa um campo de refugiados com centenas de crianças, esqueletozinhos ainda vivos, com ascite e olhos esbugalhados de espanto e de horror, parecendo enormes ovos estrelados de gema escura, que se não fecham à invasão das moscas, nos rostozinhos já encaveirados pela morte próxima. Confesso que a seguir fui almoçar, talvez houvesse no meu subconsciente um desejo masoquista de auto-punição e quisesse danificar o endotélio e estreitar o lúmen da canalização arterial, com a enxurrada das LDL do bifinho, frito em colesterol, com que me fui empanturrar ... Penso que não... É a besta ambígua que há na natureza humana e que passei três décadas e tal, a ver na clínica, que desmesura e acrescenta tudo o que connosco se relaciona, e, mingua ou anula, tudo o que só aos outros dói... Talvez por isso cada vez gosto mais dos meus três cães e dos outros animais, incluindo os pequenos animais, que me hão-de (espero que daqui a muitos anos) tratar do cadáver e polir a ossatura, já que não pretendo subir ao céu por vias da cremação.

João Miguel Nunes Rocha
(Publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS • Julho/Agosto 2010)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Episódios Fugazes de Lucidez


Já fomos à lua, já lançámos bombas atómicas matando de uma penada dezenas de milhares de seres humanos, já clonámos animais e até talvez homens... mas tanto como as descobertas científicas que me deixam estarrecido e maravilhado, sempre me fascinou o poder espantoso das palavras.

Escolha-se um acto horrendo, deixe-se que uma criança o descreva, e, na crueza singela com que o faz, o acto nada perderá de horrível. Coloque-se o mesmo acto nas mãos de um advogado talentoso e com o “dom da palavra”, e, ele burilará a linguagem suprimindo-lhe as arestas que ferem e que chocam, arredondará as frases agudas e cortantes, e, como por magia, o nosso horror transformar-se-á em aceitação, talvez até que aquiescência...

Este poder modelador espantoso das palavras, atinge o sublime na literatura mas tem aplicação em todas as profissões e artes.

Através dele: - o pintor medíocre mas imaginativo e fluente, consegue convencer-nos não só de que os borratões e gatafunhos com que pintou a tela são arte, mas que o facto disso se não nos tornar imediatamente evidente, se deve à nossa tacanhez e falta de espiritualidade... o colega persuasivo consegue que a eficácia placebo do medicamento quase supere a eficácia farmacológica, e à s vezes até acertar na cura quando errou o diagnóstico e a terapêutica.... o sacerdote eloquente (seja de que credo for) consegue trocar bens presentes por bens futuros e do outro mundo e nos nossos políticos desonestos, hábeis e sagazes (tríade em vias de extinção) conseguem não só vender-nos gato por lebre como provar-nos as vantagens de cozinharmos e paparmos o “bichano“…

É o que vai acontecer com a saúde que apesar de em queda acentuada é das poucas coisas que ainda funciona razoavelmente no nosso Estado, dito de Direito. Sendo a saúde tendencialmente gratuita só pode obviamente representar uma despesa para o pagador final que é o contribuinte. Não se percebe, mesmo que se possua uma imaginação fecunda, como é que privatizando-a, isto é, interpondo entre o utilizador e o pagador uma entidade que a explore arrecadando lucros, os custos podem diminuir. É evidente para qualquer indivíduo celebrado, mesmo para aqueles em que a inteligência contribui escassa ou irrelevantemente para o peso da sua extremidade cefálica, que aos custos que houver somar-se-ão os ganhos que a entidade exploradora fizer seus, e o custo final, é o que resultar da adição das parcelas...

Contradirão os defensores que haverá melhor gestão, racionalização dos custos... mas isso tanto é possível tanto agora como depois, tanto no que é público, como no que é privado.

Mas há muito que os grupos parasitários, despóticos e rapaces, que detêm o verdadeiro poder e que da sombra dos bastidores, dirigem a aparente autonomia política e mediática, elegeram a doença como mais um alvo a sugar e portanto isso acontecerão inexoravelmente, como fica sobejamente provado pelo estado lamentável a que chegámos, conduzidos qual rebanho, pelos nossos políticos, os mesmos com poucas excepções desde há vinte ou trinta anos.

Esbanjou-se o dinheiro do país em estádios e expos, mordomias e enormes falcatruas. Destruiu-se o tecido produtivo a troco dos milhões de Bruxelas que desapareceram sem rasto e sem benefícios em bolsos sem fundo. Criaram-se entidades supervisoras pagas principescamente para impedir os cartéis e limitar a usura e eles falharam redondamente. Fizeram-se negócios ruinosos para o erário público e a candura virginal com que todos estes responsáveis afirmam a sua inocência contunde com a nossa boa-fé... que raio, nós bem vemos pela maneira elegante como seguram e exibem a Montblanc, opondo o polegar aos outros dedos... que eles até são primatas.

Alteraram-se as regras de aposentação aos portugueses em fim de carreira, ou até depois da reforma, o que em linguagem jurídica se chama incumprimento do contrato e em português vernáculo roubo.... Alteraram-se as leis laborais a favor dos nossos grandes empresários precarizando-se o emprego e mutilando-se a esperança.

O cidadão ingénuo que acreditou que o Estado ainda é o guardião do direito e da honradez e lá depositou o seu aforro, viu-se esbulhado pela alteração das regras, e para cúmulo recebeu uma carta do IGCP a informar que o não foram... tanta desfaçatez constituiu na minha opinião, um ardil táctico (estes indivíduos versados nas coisas do dinheiro e da usura não são ingénuos nem susceptíveis de cometerem erros crassos), para gerar desconfiança e induzir a mudança das poupanças para BPN, BPP... cujo epílogo foi a farsa, ou antes o drama que foi pegar em enormes verbas do contribuinte e dá-las não às vítimas (estas perderam definitivamente o seu dinheiro) mas aos ladrões...

Ultimamente tornei-me atreito a episódios de clarividência, estado em que deduzi o supracitado, e também que há uma relação directa entre certas palavras que perpassam cada vez com mais frequência nos meios de comunicação, se fixam nas mentes, criam vulto: - Eutanásia, morte digna, encarniçamento terapêutico, testamento vital, coitadinho para este infeliz era melhor morrer... E, no reverso da mesma moeda privatização da saúde, contenção de custos, salas de cuidados continuados... a passo e passo procurar-se-á atingir o ideal, que é o cidadão morrer de um ataque de alegria, no dia em que passar à aposentação.

A miséria atinge um quinto da população, o desemprego alastra como a peste nas cidades medievais, de forma avassaladora, mas apesar disso qual Arauto da Boa Nova o Senhor Primeiro-Ministro vem todos os dias dar-nos as boas notícias cheias de superlativos: - inaugurou o maior do mundo, fez melhor que todos os seus antecessores isolados os juntos...

O Senhor Engenheiro não percebe nem tem nenhum amigo verdadeiro que lhe diga que já não é convincente mas apenas... repetitivo...

Por contingências da vida e inerência da natureza humana o rol de actos que podem denominar-se de altruístas são na minha opinião, notoriamente escassos:

- O cruzado ia pelo céu;

- O navegante pela fama, pela fortuna e pela baforada adrenérgica da aventura;

- O próprio homem bomba talvez se faça explodir por Alá e pelas setenta virgens.

Só os nossos políticos e alguns dos nossos colegas o fazem exclusivamente pelos outros: eis a essência do altruísmo diria mesmo a essência de um “altruísmo excessivo”.

Foi norteada pelo altruísmo que uma senhora da nossa política procedeu à elaboração do IMI pelas regras CIMI onde por razões ecológicas, ambientais e outras igualmente meritórias se penaliza menos o palacete com piscina, campo de ténis e dois hectares de relvado do que a casita dos subúrbios com quintalinho envasável e garagem individual. O Decreto-Lei que regula a aplicação deste imposto, também chamado sinistramente de Imposto Municipal sobre Incautos, constitui uma pequena obra-prima do terror, sem recurso ao sobrenatural.

Foi também norteados pelo altruísmo e pelo dever pátrio que os colegas do Ministério da Saúde procederam à elaboração da lista de prioridades de vacinação em relação à gripe pelo vírus H1N1.

Se a gripe fosse a pandemia trágica que nos anunciaram e não o embuste que parece que foi, teriam conseguido eliminar de uma vez por todas muitos velhos e grande parte dos doentes crónicos mais graves, que se agarram à vida como as lapas às rochas da rebentação, arrastando o país para o abismo do défice e da insolvência.

E, foi devido ao maior e melhor dos altruísmos que o Senhor Primeiro-Ministro se fez vacinar sob os holofotes mediáticos em primeiríssimo lugar. O Senhor Primeiro-Ministro para quem a gripe teria representado dois espirros e uma tossezinha, bem sabe com a sagacidade que o caracteriza como os portugueses lamentariam a sua indisponibilidade para vir às horas do jantar dar as boas notícias.

Reparei que o Senhor Primeiro-Ministro suava. Seria do calor das luzes, da “síndrome da sudurese altruística já descrita por Hipócrates” ou do medo da picadinha?

Os Senhores Deputados ou Senadores (termo que preferem) que já há alguns anos nos deram prova soberba do muito altruísmo que lhes rege e enforma os actos, ao aprovarem para si mesmos, direito à reforma por inteiro ao fim de quatro anos de carreira contributiva, deram-nos mais um exemplo de abnegação ao encimarem a lista de prioridades de vacinação.

As prisões regurgitam de pobres diabos, drogados, pequenos delinquentes e até de pessoas de bem, enquanto os facínoras, os padrinhos (sem os códigos de honra de Dom Corleone) se passeiam entre nós, nos exibem a sua riqueza numa ostentação impúdica de novos-ricos e fazem sentir aos nossos filhos, que nós seus pais, não passamos de falhados...

O meu ego pretende que as afirmações que fiz resultam do uso de uma inteligência ainda razoável e de um acúmulo de sabedoria, mas admito estar redondamente enganado. Dos aspectos macroscópicos da velhice estamos todos abundantemente informados e muitos de nós fartos... mas no seio dos tecidos, onde a morte e as adaptações celulares à isquemia coexistem ainda não sabemos tudo, e, portanto admito que estes episódios fugazes de lucidez se devam à  produção de alguma substância química que induza um delírio coerente ou incoerente.

E neste país à beira mar, cheio de sol graças ao bom clima e cheio de sucesso e de progresso graças à boa governação, grassa o desânimo, um desânimo viscoso e palpável que deixa nos rostos traços indeléveis de tristeza, como nós médicos, nos habituámos a ver nos doentes terminais que perderam a esperança e sabem que a morte é o fim definitivo e inexorável.

E têm razão nesta perda de esperança, porque a desfaçatez ignóbil com que lhes mentem, esta alteração constante e unilateral dos contratos depois do cidadão ter cumprido a sua quota-parte, sob o pretexto de maior justiça, de maior sustentabilidade, disto ou daquilo... blá, blá, blá... significa o que no fundo todos sabem, que chegou ao fim o Estado de direito e que o refrão da velha canção, recuperou toda a sua actualidade: - Eles comem tudo, eles comem...

Agora até nos podem acenar com vantagens, mas em breve, nós médicos, faremos também parte da ementa.

João Miguel Nunes Rocha

 
(Publicado na Revista da Ordem dos Médicos de Fevereiro de 2010)