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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O logro

Que raio de povo somos nós, que se livrou do ditador que, morreu pobre, e, baniu o fascismo para se tornar uma democracia, em que os grandes interesses servindo-se do poder de sugestão e hipnótico dos media, elegem os políticos a seu belo prazer, em que os negócios do estado são sempre ruinosos para este, mais rentáveis que os negócios da Santa Casa para os novos donos e um sorvedouro, um “bolso roto “para o pecúlio dos cidadãos contribuintes, que se tornam eternamente devedores, de um bem, que nunca possuíram, ou possuirão.

Num declínio cada vez maior, o Estado que só honra os compromissos com os grandes interesses, chegou agora à iniquidade extrema de não proteger os cidadãos mais frágeis, antes parecendo que lhes quer mal e torce pela sua defunção, porque se formos honestos e encararmos a realidade sem nuances, se torna óbvio, que esta gente da governação, do M.S. e da D.G.S., estão apostados em através da pandemia, exterminar os mais frágeis de entre nós. Talvez seja por isso, que se ascende tão amiúde dos píncaros do governo para a chefia da U.E ou mais ainda.

Do milagre português, transitámos para o “descontrai” das almoçaradas do Dr. António Costa e do Senhor Ferro Rodrigues, sem que tivesse havido um abrandamento dos contágios, e fomos agravando, agravando sem testagens significativas (que são caras) ou seguimento das cadeias epidemiológicas, até ao estado dantesco actual. E, agora, despudoradamente, vêm acusar os cidadãos de terem abusado no Natal, quando a imposição do confinamento às 13 horas, num tempo de corrupio às compras somado à subestimação dos casos que já havia, conduziu ao ”fora de controlo” presente. Eu bem vi as enormes filas fora das grandes superfícies e os magotes amontoados lá dentro. E, o martelar diário da DGS, de que só os velhos morriam, desvaneceu o medo dos jovens e agora não há civismo que baste, para os conter.

Na minha opinião este Estado, tem gerido miserável e avaramente a pandemia: testes, apoios, medidas eficazes mas onerosas, contratação de profissionais de saúde, desinfecções, mudar e proteger os utentes dos lares onde há surtos activos… tudo tem sido restrito, escasso, somítico e forçado…E, só se mostra pródigo nos confinamentos, sem contudo ter cumprido todas as responsabilidades que lhe competiam, cujos ónus são dádivas da U.E.. E é tal o seu desdém pelos cidadãos, que se forem infectados têm grandes probabilidades de morrer, que não os vacina, mas abre excepções ao estado de emergência para que estes, vão votar…indiferente aos contágios e óbitos inevitáveis inerentes.

E com as vacinas já se viu; são escassas mas aplicadas com tal pompa, que as comitivas de basbaques ministeriais, não raro, superam em número, os utentes a vacinar e são exibidas até ao fastio.

E os alvos prioritários da vacinação? Basta olhar para a lista publicada pela DGS  e Companhia, para que nos invada a raiva, a esta gentinha apostada em deixar morrer os pais e avós dos portugueses, com a indiferença medonha destes, porque a lista supracitada diz tudo, embora tentem escamotear as evidências, mas qualquer que a consulte e não seja parvo, percebe logo a artimanha. Dos velhos, só pertencem ao primeiro grupo prioritário, os internados em lares e nos cuidados continuados; todos os outros só são incluídos se tiverem: mais de 50 anos e uma ou mais das co morbilidades que são: IC,DC, DPCO e IR e mesmo que as tenham todas só serão vacinados depois das forças de segurança e forças armadas (maioritariamente jovens mocetões). Todos os outros velhos, qualquer que seja a sua idade, saudáveis, ou com todas as patologias do Harrison`s, excepto as supracitadas, só o serão numa segunda fase a começar em maio ou muito provavelmente bastante depois, quem duvide recorra ao simulador da DGS. Por algum motivo, a Ordem dos Médicos foi excluída da elaboração da lista…

Nem tudo o que fizeram, foi mal. Na compra escassa e tardia de vacinas mostraram enorme providência; sendo certo que a imunidade conferida pela vacina pode ser transitória, mas a conferida pela defunção é permanente, ainda nos vão sobejar vacinas. Em 2022 vamos ter um verão maravilhoso: formigueiros de turistas no país mais jovem da Europa, com grandes ermos e pouca população, tão ao gosto dos nossos “protectores”.

Neste mundo sem dó, fomos mais uma vez logrados

João Miguel Nunes “Rocha” 

  (artigo publicado na "tribuna" da Ordem dos Médicos, em Jan 19 2021)


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Que Deus nos valha

Estrada parcialmente alcatroada, com enormes segmentos de terra batida, entre Furancungo e Tete. No “Unimog 404”descapotável, ao lado do condutor, esturrico sob o sol ardente e amaurótico.  As picas com a suas pontas de metal vão batendo no solo, numa cadência monótona e hipnótica de metrómano. Eu vou olhando as margens da picada, tentando enxergar a passarada, que se a vir, é sinal de que não há “turras” emboscados. Nunca tive tanto medo, nem sequer quando fui ferido, como nesse dia em que percorro pela última vez o caminho de Tete e do avião (Moatize) para Lourenço Marques, onde não há guerra. 

Agora mais de meio século depois, leio as notícias, incertas ainda, sobre o plano de vacinação português e, um medo gélido atenaza-me a alma, e, a noção de impotência é mil vezes pior do há cinquenta anos, em que jovem guerreiro, podia bater-me e debater-me com vigor. Hoje velho, já perto do fim funesto, posso protestar, gritar ou esbracejar inutilmente, como certamente aconteceu a muitos velhos nesta pandemia, mortos sem conseguirem que, alguém os ouvisse ou se importasse…

 Inicialmente queriam excluir todos os velhos da primeira linha de vacinação; Sendo porém de mau tom (depois da razia) e propenso a custar votos, deram uma meia volta dúbia, e agora, só o serão, os internados em lares, porque os outros (se doentes) serão incluídos num vasto e mal amanhado rol de maiores de 50 anos com co morbilidades como: insuficiência cardíaca, doença coronária, d.p.c.o. e insuficiência renal. É óbvio, mesmo para os leigos, que o tempo que medeia, entre os 50 anos e a velhice real, danifica os órgãos, e, faz brotar milhões de cruzes nos cemitérios; acresce que, em sentido lato, há uma diferença abissal, entre a gravidade dos doentes, nas patologias mencionadas:- de uma doença coronária por um ateroma localizado a uma doença de 3 vasos, multisegmentar, não susceptível de  tratamento angioplástico  por cateterismo ou colocação de bypass de enxerto  venoso(safenas), e, com infarto e necrose miocárdicos extensos, há décadas de vida de diferença, no prognóstico -. E quando 2 ou mesmo todos, estes grupos de patologias coexistem? Os doentes que procurem as prioridades vacinais no outro mundo, porque viver com muita idade e muitas doenças, é de muito gasto e de muito mau gosto. Só se pertencerem ao ramo sacrossanto da política é que se justifica o dispêndio, dada a imprescindibilidade de tal gente, não obstante, a sua abundância. 

Acresce que se impôs, que estes doentes prioritários, sejam vacinados nos centros de saúde e, é sabido que muitos milhares de portugueses não têm médico de família, grupo no qual me incluo, porque sou seguido no hospital de Santa Cruz, e só fui ao centro de saúde 3 vezes, 2 em anos em que houve vacina da gripe disponível, e outra, para tirar os agrafos da segunda intervenção ao desfibrilhador cardíaco no fim do ano passado e, não tenho médico atribuído, nem história clínica registada neste. Claro que se quisessem ser claros, publicariam uma lista com a ordem porque serão vacinados os cidadãos, embora não veja como ordenar as prioridades caso a caso, a não ser por um processo moroso e incompatível com a situação. Mas uma lista pública, mesmos com lacunas, seria de grande valia e bruniria a ambiguidade e obstaria às ultrapassagens e às cunhas. Ontem ouvi o doutor Francisco Ramos esclarecer que quem não tem médico de família terá de apresentar um relatório do seu médico assistente no centro de saúde; isto, como se cada pessoa, pudesse aceder ao seu médico (se o tiver) sempre que queira. Tal imposição, a manter-se, vai criar um longo e penoso calvário, sobretudo para os mais pobres e os mais incapacitados e originar um pantanal de influências.

Fico profundamente triste, por ver os velhos com mais de 75 anos (fora das instituições e dos lares) serem excluídos do acesso prioritário, para bem deles, pasme-se, o que não surpreenderá os cidadãos sérios e atentos, que têm assistido estarrecidos, à “partida” dos nossos gerontes. Das minhas cinco irmãs, duas, de 78 e de 80 anos não têm co morbilidades conhecidas, não beneficiando pois, de quaisquer prioridades.

Apraz-me constatar que a maior parte dos colegas que aparecem nos “media” são dignos representantes da” leges artis” e defendem os interesses dos velhos; É pena, que no grupo que gere a pandemia e no que tutela a saúde, haja bastas excepções.

Que Deus nos valha… se o houver.


João Miguel Nunes “Rocha”


Publicado na revista 207 da ordem dos médicos de outubro de 2020.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

A PRAGA E O INTERESSE

Por força da nossa natureza humana, que não prima pela bondade, o interesse prevalece quase sempre sobre os afectos e não raramente sobre os princípios, e por isso, se queremos ter um SNS (que já foi dos melhores) que a todos sirva bem, arredemos os pressupostos madrigalescos e utópicos, de que os médicos são seres morais de topo, impolutos como a Santa Madre Teresa de Calcutá e de tal  grandeza de caracter, que barricados no seu ideal de servir e de tratar, resistirão estoicos, às lamúrias rancorosas dos filhos, descoroçoados, por o “papá” ser um pelintra.

Tais presunções só iludem os simples e beneficiam os que, sem um mínimo de honra ou de decência, pretendem alambazar-se nos despojos de um SNS destroçado, deixando os cidadãos de recursos parcos, encurralados pela doença e pela morte escusada, à míngua de quem os trate.

Os santos, quer na classe médica, quer na eclesiástica, são notoriamente escassos, e, se abundam os que jazem sob o lajedo dos templos ou esculpidos em pedra e em talha, suscitam-nos uma dúvida razoável quanto à sua santidade e quanto à sua proveniência de classe.

Para que o SNS volte a erguer-se, das ruínas esbarrondadas do que já foi, e a orgulhar-nos,  urge entupir e vedar todos os vasos comunicantes entre o privado e o público e canalizar para este, todos os recursos (que afinal jorram dos bolsos dos contribuintes num manancial crescente de esbulho) sendo de inteira justiça que sejam estes a beneficiar.

As clínicas e os hospitais privados, que se amanhem com as seguradoras, com as Misericórdias, com essa sanguessuga voraz em que se metamorfoseou a ADSE valendo-se da fragilidade e do medo dos velhos e da complacência cúmplice, do nosso Estado dito de direito, e enfim, com todos os” negociozinhos da doença” e os da morte, num futuro próximo. Os doentes que presumindo-o, e mal, que serão melhor tratados nas clínicas privadas, que as paguem ou que façam um seguro de saúde, que lhes comparticipe as bagatelas e que os descarte, quando a doença ou o conhecimento antecipado desta, pela devassa dos arquivos clínicos e não só, os alerte (aos seguros) para um prejuízo eminente…

Reerguer e dignificar as carreiras médicas, tornar meritório transpor-se o crivo de malhas estreitas que conduz aos internatos de especialidade nos hospitais públicos, contratar os médicos por concursos públicos dignos, diferentes das degenerescências, que se tornaram hábito desde a ultima década do século passado, desmoralizando e desmotivando muitos colegas entre os melhores, e, pagar bem aos que ingressarem nos quadros mas impondo-lhes a exclusividade, obstando assim, à mobilidade e à volubilidade dos interesses. O resto virá espontaneamente em pouco tempo e as clínicas privadas (excepto as de grande valia) depressa voltarão à insignificância, que as caracterizou durante o apogeu efémero do SNS. 

Se de facto o país está sem cheta, apesar das mordomias gritantes, é preciso poupar no supérfluo e não naquilo que é primordial para a maioria dos cidadãos, como um SNS a que todos possamos recorrer, com a certeza de ser bem tratados. É preciso por no seu lugar estes políticos profissionais que eleitos pelos partidos e pelo voto da maioria governam despudoradamente para servir os do costume, e se necessário for, amedronta-los, e a primeira despesa a abolir, é limitar o número de deputados, vereadores, etc., que alguns sem tugir nem mugir ou apresentar trabalho relevante em muitos anos, proliferam numa abundância de praga.

E acabar de vez com esses sorvedouros de euros que são as parcerias público-privadas.




João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º203 •  dezembro 2019)