O presente "Blog" constitui um repositório de artigos que foram enviados para publicação ou publicados na revista da ordem dos médicos. A sua compilação é aqui disponibilizada para que, além dos leitores da revista da ordem dos médicos, outros também possam refletir sobre um extenso rol de inquietações que este moderno mundo em convulsão nos acomete...!
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quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
A PRAGA E O INTERESSE
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quarta-feira, 7 de junho de 2017
OS HOMENS ENCOLHIDOS
Os velhos e os doentes no limiar
da outra vida ou (arredando dogmas, sonhos e utopias) a um passo, do “pó ao
pó”, têm sobre os outros cidadãos a enorme vantagem de em breve serem acometidos
por uma mudez definitiva e por uma frieza gelada, refractária e avessa aos lumes
que ateiam os rastilhos dos rancores e das vinganças, além da notória
decadência e fragilidade que em geral precede o fim, tolhendo-lhes a defesa e
tornando-os os alvos preferenciais destes guerreiros que pejam e se acoitam nas
elites e que se pelam por ir à luta sem dar a cara, ou arriscar o pelo, e, que
sem um resquício de bondade ou de decência, desceram à vileza desalmada de
associarem a abundância da velhice, ao afundamento do país e à deriva sem
perspectivas dos jovens, criando de propósito, uma clivagem hostil de gerações que
aduz à já mísera solidão dos velhos, uma barreira de antipatia glacial e de
aversão, que dão azo, a todo o tipo de abusos: espancamentos dentro e fora do
seio familiar, fome verdadeira, aprisionamento em enxovias que teriam aterrado
Dante, e inspirado Satanás a redecorar as ”profundas”.
Que raio de mundo é este, que
fervilha e medra à nossa volta, com livre trânsito perante a nossa complacência
em que todos os dias vemos trucidados pelas elites os princípios mais básicos
da equidade e a decência, que presumimo-lo, norteia a maior parte dos seres humanos.
Estão a cortar-nos rentes as vias de saída ascendentes e as saídas descendentes
que nos propõem são cada vez mais dúbias, tortuosas e tão ingremes que parecem
insusceptíveis de desembocar na luz.
Tidos por néscios e
prostibulários em Bruxelas e como meros pagadores de impostos e eventuais
eleitores sugestionáveis, de raciocínio parco e lerdo, pelas nossos, que se de
outro modo o fossemos, não nos viriam com as explicações inverosímeis, que
espantam pela singeleza, que só podem advir do pouco empenho a que recorreram,
mesmo aduzindo a pobreza neuronal implícita.
E, que raio de gente somos nós,
que permitimos, que o ónus brutal do resgate, imposto pelos banqueiros a um
governo “faz de conta” seja pago e repago pelos cidadãos, mesmo pelos que ironicamente
nunca puderam abrir uma conta bancária, e a banca, na vez de gratidão, abra falência
fraudulenta em catadupa, apoderando-se do pecúlio aforrado em vidas inteiras de
trabalho e de privações e sob o pretexto vetusto, de uma credibilidade há muito
finada, nos imponha o conto “do banco bom, banco mau” e respectivos encargos
presentes e futuros, que outra coisa não é, do que troçarem de nós e
amputarem-nos o futuro, amputação esta que deve ser tomada em sentido literal,
se a eutanásia for aprovada, porque agora, que os poderosos e os estrangeiros,
esgaravatam em tudo o que deveria ser, só público, vai iniciar-se uma época de
terror e de selecção, de ”doente rico, doente pobre”…. Em que o doente rico só tem
a temer as situações que tornem prevalecente a vontade dos herdeiros, e o
doente pobre, acossado pelo sofrimento, olhado glacialmente e com enfado pelos
seus, sentindo-se o encargo que realmente é, com a autoestima num pélago abissal,
vai “às cavalitas do medo e da angústia” pegar “voluntariamente” no copinho de
“cicuta” dado pelo simpático algoz de bata branca.
Nós, os médicos, vinculados pelo
Juramento de Hipócrates, à exclusão da morte como tratamento, não devia-mos enfileirar
nunca, na lista de pretendentes aos lugares de carrasco que isso não nos trará
honra e mutilará para sempre a confiança dos doentes, mas denunciar, isso sim,
a carência quase absoluta, de cuidados paliativos e continuados públicos, o que
faz com que a eutanásia a “pedido do doente pobre” aqui e agora, (se aprovada)
não seja uma opção mas a inexorável e única alternativa ao sofrimento… e, se
por um momento que seja nos pusermos no lugar do outro, sentiremos como
obrigação inadiável, exigirmos, a criação de cuidados paliativos a que todos
sem excepção, possamos recorrer.
Que raio, nós que fomos pioneiros
na abolição da pena de morte, vamos reintroduzi-la, para os deserdados…
Podemos não saber de quem é a mão
que segura a batuta que rege a orquestra que marca o passo da nossa” dança
macabra” em execução, mas temos olhos e percepção para enxergar os mandatários
que mantêm há anos uma relação simbiótica ou parasitária com a coisa política,
e que ao vir justificar-se mediaticamente, na vez de desenxovalhados saem
encolhidos como a roupa de má qualidade ao ser lavada. E abundam na política como o
caruncho na madeira afectada, ao dar sinal…
João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS n.º119 • Maio 2017)
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS n.º119 • Maio 2017)
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