quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O HOLOCAUSTO DOS ÓNUS

No Mar Mediterrâneo, perto das costas de Lampedusa, rentes à tona, entre destroços e imundícies reunidas no estofo das marés mortas, cadáveres ventrudos vogam nas correntes mansas, semelhantes a medusas enormes, gelatinosas e horrendas. Migrantes encurralados em redis, guardados por cães lobos e por lobisomens, lutam contra as privações, contra o medo e contra a angústia de um destino incerto…e contra o terror-pânico, da sua devolução ao demónio. Homens-bombas, fazem-se explodir em estilhas sangrentas, que se juntam aos corpos esquartejados das suas vítimas. Haverá neles apenas o desejo de fazer mal? Que enorme poder ou desvario, lhes serve de motivação e lhes dá ânimo!... Emigrantes, sobretudo de África e dos PALOP, tornam-se malquistos, por disputarem aos nossos, os empregos já de si escassos e permitirem aos patrões, permutarem salários parcos, por salários de miséria.

Por analogia, a nossa situação presente, traz-me à memória os romances de Ferreira de Castro:-rurais pobres, querendo tenazmente aumentar as suas courelas e mudar a sua sorte, eram aliciados pelos do costume, e para poder partir, empenhavam-se; chegados ao “ Eldorado,” nas entranhas e nos confins do sertão brasileiro, tinham de comprar, fiado e a preços exorbitantes, as ferramentas do trabalho e o sustento, contraindo uma dívida, que ia aumentando a cada safra, amarrando-os inexoravelmente a uma servidão sem grilhões, mas tão amarga, penosa e letal, como a escravatura nas minas de salitre ou nas galeras, da Roma Imperial. Os únicos que enriqueciam eram os “Nunes”, que mercadejavam com a miséria…

Como se lhes assemelha o nosso destino, depois de esbanjarmos a nossa soberania e abdicarmos da nossa moeda, para nos metermos nesta Europa, que não nos quer como iguais, mas como meros serviçais: restaurantes, turismo, sexo, mar, sol, aqui…e, nos países deles, licenciados de grande competência formados com o dinheiro dos seus pais e o dinheiro dos nossos impostos, ou mão-de-obra braçal, diferenciada, barata e descartável. Na minha opinião não há nada (ou muito pouco) de espontâneo nos ”media” e não é por acaso que se dá tanta importância à cozinha: urge apaparicar os nossos donos porque o nosso futuro é, de subserviência e de bandeja.

E, como pano de fundo, deste quotidiano que se vive há duas década, elites medíocres que se sucedem (um até começou de tanga, vestia já fato e gravata, quando posou nas Lajes para a galeria das aberrações e, ascendeu ao topo da banca, onde se jogam os destinos de povos e o saque do mundo), servindo de paus-mandados, ao poder oculto e maligno, que está a conduzir a Europa e o mundo para mais uma hecatombe, usando à tripa-forra três armas letais: a força da guerra, a força do medo e a imensa força do poder mediático, formatando opiniões e subvertendo indelevelmente as democracias.

Mesmo agora que esse senhor choramingas, que democrata, quis tornar todos os portugueses pedintes, e que parece desejar-nos mal, com as suas premonições lamurientas, tão a despropósito como uma carpideira pranteando-se fora dos funerais, foi arredado, e que o presidente da república, parece a antítese dessa “trindade” muralhada e intocável, vá-se lá saber por que virtudes ou méritos, e que foi, isso sim, um dos fautores do atoleiro onde nos enterrámos. O Presidente Marcelo ao contrário do seu antecessor, não mostra receio de contágio ao beijar cidadãs comuns ou medo de beber um copo, com o povo que o elegeu.

Goste-se ou não, é um facto.

Embora com a mudança política, haja já, quem ouse ter esperança, persiste envolvendo-nos como uma carapaça intangível e inexpugnável “a dívida e o serviço da dívida” tolhendo-nos qualquer movimento ou perspectiva de ascensão. É a vontade da” Europa Dona” granítica, inamovível e implacável, em relação aos fracos e cujos propósitos são inconceptíveis de outra interpretação: posse absoluta de Portugal, com o mínimo de ónus e com uma multiplicação dos úberes…

A prová-lo, há a verborreia que antecede a aprovação dos orçamentos por Bruxelas, e que apesar da facúndia, já todos sabemos de cor: - cortem nos salários, nas pensões (mesmo nas contributivas), na segurança social, na saúde, na despesa pública… aumentem-se os impostos e canalize-se o dinheiro do contribuinte para “salvar” os bancos falidos por falcatruas premeditadas e “salvos estes” urge vendê-los aos estrangeiros por preços patéticos etc, etc… Enfim, privatizar, entregando- nos, tudo o que seja lucrativo, e eliminar, por inútil, tudo que só sirva os contribuintes portugueses, sem render. É neste contexto e visando aumentar a ordenha, que se insinua e avulta, a premência de discutir e aprovar a eutanásia: - que importa que não existam cuidados paliativos públicos e acessíveis, se mesmo sem os haver, a fase terminal e fatal das doenças, já é tão cara…Proceda-se com discernimento e abrevie-se o sofrimento do infeliz (morte digna, precoce e baratinha), se for pobre, e, se for rico, mantenhamo-lo vivo o mais possível, não obstante a melancolia dos herdeiros… Até a Santa Casa da Misericórdia investiu já, nessa outra lotaria.

Que me perdoem, os colegas defensores, a tarouquice, (se o for) se, apesar das palavras bonitas mas vagas e de sentido lato, com que enfeitam a EUTANÁSIA como: autodeterminação, dignidade, pôr fim ao sofrimento do infeliz… eu só discirno e enxergo: - “ que só viva até ao fim, quem o puder pagar”.


Talvez o safanão que o mundo vai sentir com a eleição de Trump, tenha como efeito colateral benéfico, pregar um susto a esta gentinha das elites.


João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 175 da Ordem dos Médicos de Dezembro de 2016)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A PANACEIA DOS CAÍDOS


O tempo corre perpetuamente numa voragem avassaladora, empurrando-nos para a defunção e puxando pelos vindouros num frenesim de renovação e de mudança, que goram e tornam ridículas, as nossas pretensões de importância ou de eternidade individual.

E, é a essa centelha de tempo em que “somos”, que sob o pretexto hipócrita de benquerença, de dignidade, de compaixão e de outras alarvidades, porque inadequadas, querem arrancar as fracções em que doentes ,dependentes ou velhos nos tornamos fontes de carregos e de despesas, como se a nossa vida de ”moirejo” nada valesse ou pesasse na balança das mais valias, e uma vez tornados improdutivos sob a perspectiva dos comerciantes armazenistas de mercearia e de bens não transaccionáveis, transaccionados, (que são os nossos empresários padrão): abrace-lhes o coval em terra benzida, porque não cometeram o pecado mortal do suicídio, fomos nós que os matámos, encurralando-os entre a eutanásia e o sofrimento não tratado e atroz, ou ,entre o testamento vital e o medo.

A extrema importância que damos à nossa ”vidazinha”, mesmo quando vazia de qualquer acto que a justifique ou valide, tem como contrapeso o pouco apreço que nos merecem as demais, quando não acresçam ou enriqueçam a nossa condição. E, com o passar inexorável do tempo, até os parentes mais próximos e os mais queridos, se tornam tropeços importunos, lerdos em desferrar da vida, e tardos em ocupar a sua condição mais duradoura e inócua, de retratos no álbum da família.

Já era assim no tempo em que os afectos se forjavam, floresciam e medravam, no convívio e na partilha, quanto mais agora que entre nós e os nossos descendentes, se abriu o abismo do mundo virtual, mais apelativo e real para os jovens e para os menos jovens, do qualquer afecto, e se instalou e cresceu desmesuradamente, a sanguessuga do consumismo compulsivo e frenético, que esbanja e deixa exangue, tão depressa, como a secção bilateral das jugulares.

Não tenhamos ilusões. Nós, os velhos, os doentes, os incapacitados, os dependentes, ou os que (como eu) se bastam a si próprios, enfim os acabados ou caídos, isto é, todos os que chegámos à recta mais ou menos comprida do fim, e, nos incluímos no role maioritário, dos que querem continuar a viver, temos de resistir-lhes. Não tiveram pejo em de ”motu próprio” e para adular Bruxelas, numa subserviência mísera de quem quer alvissaras, de alterar todos os contratos, esbulhando-nos a favor da Banca e dos Grandes Interesses, indiferentes à emaciação das famílias que deixaram de poder cear, à miséria dos velhos expulsos dos lares, ao tormento dos infelizes, que não chegando às terapêuticas, em vão fecharam os olhos, para não verem o gaudio aterrador da morte… Se os não mantivermos quedos pelo medo, único sentimento que os afecta e que respeitam, em breve nos alterarão drasticamente o prognóstico vital.

Impondo-se à razão, há um facto incontornável: enquanto não se criarem cuidados paliativos e continuados públicos, acessíveis e bastantes, a eutanásia e o testamento vital, nunca serão uma opção livre, mas uma cedência ao sofrimento ou ao pavor quimérico (encarniçamento terapêutico…), mesmo não havendo outras pressões, (e é tão fácil havê-las) intoleráveis, a condicionar a decisão…

Se os médicos aceitarem fazer o papel de algozes, perderão para sempre, o direito ao respeito e à confiança.

Nasci poucos anos depois do encerramento de Auschwitz e agora no “ultimo andamento” quase sempre “adágio” para os velhos, que na vez de prezados, são acusados de não morrer, antevejo novos campos e novos morticínios, mais hediondos ainda, porque perpetrados, não sob o ódio cego do fanatismo étnico, mas levados a cabo, com a frieza desalmada desta gente, que tem quase tudo e vai, comparar o valor de cada vida, com o custo da malga de sopa aguada, que a mantém.

As órbitas dos planetas são elípticas, as dos electrões circulares, nas grandes viagens oceânicas a distância mais curta entre dois pontos é uma linha de rumo curva, e o nosso principio e o nosso fim reencontram-se no pó, num perpétuo cirandar de vida e morte e de movimentos harmoniosos e encadeados…O que torna cada vida tão importante , é que é única e irrepetível. Um vindouro ou mesmo um clone, não seremos nós. Somo-lo ou fomo-lo uma só vez…

Que alguém, bem tratado, não submetido a pressões familiares, sociais, materiais, decida suicidar-se, aceita-se, que remédio, e raros serão, os que tendo ânimo, não possam fazê-lo, por falta de capacidade física.

Que um grupo de pessoas, juízes, médicos, enfermeiros, cidadãos comuns…. enfim qualquer que seja a eminência dessas personalidades, possa decidir sobre a validade da vida alheia, acho-o uma verdadeira aberração.

O sofrimento, a felicidade, o amor não se apreendem e entendem, por muito bem descritos que o possam ser, pelos poetas e pelos grandes escritores e, interpretados por quem os lê. Só se abarcam e sentem como vivências ou como recordações. E, por isso mesmo uma criança de dez anos criada por uma mãe madrasta, pode saber muito mais sobre sofrimento, do que um  juiz, um médico ou um jornalista sexagenários e felizardos, que sempre lidaram de perto com a dor dos outros, que obviamente não contagia… E, um doente moribundo, apaziguada a dor e acarinhado, pode sentir, que esse tempo inexoravelmente curto, valeu por toda a sua vida de “galego”.

Na minha opinião por detrás das palestras e dos debates sobre a eutanásia esvoaça num voejar impiedoso e funesto, a ave de rapina da ganância dos senhores do mundo. 

Coitadinho, é no seu interesse e será ele a decidi-lo. É, pois, uma questão de tempo, até ser  aprovada…Depois, num ápice, seguir-se- á a sub-rogação (não mandatada por estes) dos doentes pobres, dos velhos, dos incapazes…Para os ricos todas as terapêuticas possíveis e (se sonhadores) a crio conservação; para os pobres, a morte, com uma “ajudazinha” do carrasco…para evitar delongas e prevenir arrependimentos derradeiros…

Não há nenhuma doença, que torne indigno quem a padeça; indigna é esta gentinha e quem vendo-o, não se lhe opõe. O que acautelaram nos paraísos fiscais não os cevou; querem alambazar-se nos míseros despojos..

João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 170 da Ordem dos Médicos de Junho de 2016)

domingo, 1 de maio de 2016

OS DOGMAS

Se já não acreditamos em moiras encantadas e encantadoras, em belas adormecidas e menos ainda em príncipes formosos que as despertam com um beijo, pródromo de uma felicidade que não se esboroa nem fenece, como explicar as crenças arreigadas, indiscutidas e aceites como dogmas: de que impelidos por uma dívida crescente e impagável, que nos descarna e que nos encova, atingiremos o planalto da prosperidade? 
Que os salários parcos e miseráveis pagos pelo labor presente, se devem, não à rapacidade dos ricos, mas à sua intenção sincera, de cheias as suas casas fortes, lhes escancararem as portas em torrentes de dádivas a distribuir a eito, pelos sobreviventes espartanos, rijos, estoicos e escassos, da fome e da míngua pregressas? Que, pasme-se, o dinheiro do contribuinte esfregado na honra dos bancos falidos, indelevelmente enxovalhada, pelas falcatruas dos donos, devolver-lhes-á a credibilidade e a candura imaculada das donzelas?

Será que a prédica que nos foi repetida desde a infância e antes de nós aos nossos pais e avós, com a persistência retumbante dos batuques, de que as dádivas ao Vaticano ou a Meca, a Jerusalém ou à Igreja Maná….creditar-nos-iam contas de grande rendibilidade num Céu sem inflação nos fragilizaram o córtex cerebral criando nele, zonas patológicas de grande permeabilidade ao fantástico, ao insólito e ao sobrenatural, o que até nos serviria de arrimo e de protecção contra o nosso medo mais aterrador, que é o da morte, como fim inexorável e absoluto, e permitir-nos- ia intermitências sonhadoras onde ora morremos, ora não…Não pretendo apoucar as crenças dos outros, que sinceramente respeito e invejo, nem sequer pôr em dúvida a possibilidade de um Deus criador; só que, para minha infelicidade não consigo aceitar, que Havendo-o, os homens, e menos ainda o seu ouro, lhe aproveitassem, e isso mina a minha credulidade em relação às religiões, e coloca-me entre os agnósticos nuns dias, e entre os ateus, nos demais. Na minha opinião, só por uma desmesurada megalomania nos podemos considerar feitos à semelhança e imagem de um Deus omnisciente e omnipotente, que algures, num dos estádios da nossa evolução biológica, nos dotou de alma e nos concedeu (ou à alma) o dom da imortalidade, transformando-nos em seus sósias humanos, ou quase…a nós que somos egocêntricos e egoístas, e, que só nos sentimos verdadeiramente chocados com os males alheios, quando há a possibilidade de nos acontecerem também. Admito, e não me considero excepção, que as vísceras expostas ou os corpos esquartejados (constantes dos telejornais) não me embotam o paladar ou engulham o apetite com que continuo a saborear o  farnel... Assumida esta minha insensibilidade de desalmado, por que será que me emociono e 
comovo ao ver os olhos imensos com imensas moscas das criancinhas negras, prestes a morrer de fome?...Ou sinto uma raiva avassaladora, uma raiva de querer esbofetear e morder, quando atino com um dos nossos muitos tribunos, que, acoitado no seu subsidio vitalício, passa as sessões parlamentares em jogos de: persegue, prende, mata, esfola; em
computadores saídos do erário publico, enquanto se urdem as leis para mais um esbulho… à já, mal cheia malga, dos velhos? A sistólica sobe-me em frémitos latejantes e suicidas, quando comparo a justiça que deixa em prisão domiciliária, (leia-se, com segurança pública), os gatunotes de gravata, e encafua nas prisões os pobres diabos, que sucumbiram à visão, dos tiques mandibulares dos filhos, acossados pela fome crónica.

O primeiro sobressalto de desilusão quanto à nova governação senti-o, não pelo derrube do” eleito”, nem pela coalizão à esquerda, mas pelo modo dogmático, pressuroso e dúbio, como se imputaram aos cidadãos contribuintes as contas do Banif, poupando mais uma vez os cidadãos sem abrigo. É imoral e inconstitucional; em nome da igualdade, se nada possuem, penhorem-se- lhes as camas/caixotes….

Desde que começou a história da tanga e das queixinhas lamuriosas sobre a governação precedente, que os velhos têm sido assaltados, em todos os seus direitos e não só se conseguiu a pretendida clivagem geracional como se inculcou em muitos um sentimento de culpa por continuarem a viver e em quase todos um sentimento de medo: medo de acorrer aos hospitais em casos de urgência; medo de levar à boca a garfada, numa casa em que o pão não abunde, mesmo que, o pouco que haja, sejam eles a paga-lo; medo de ouvirem da boca dos entes queridos frases que firam ou matem inexoravelmente os afectos; medo de serem tirados de perto dos seus e perpetuamente encafuados num mundo que lhes é estranho e hostil; medo de ouvirem dos que amam, mas que os não amam, frases tornadas prováveis, neste mundo sem dó: porque não subscreve a eutanásia ou o testamento vital?...

Talvez seja por ser velho, e eu próprio uma vitima potencial, que penso que há razões para ter medo.

De facto, num país onde a oferta de cuidados paliativos ou continuados a cidadãos pobres, é quase nula, é no mínimo desconforme e ilógico que se aceite que o Testamento vital ( e em breve a eutanásia) são a resultante de “ bem querer aos doentes”… e é muito, muito estranho que se aceite como vinculativa a decisão tomada há cinco anos, sabe-se lá em que contexto e sob que pressões ou desvarios para parar a terapêutica e o suporte de vida a um subscritor do testamento vital e simultaneamente se desrespeite a vontade lúcida da vitima de violência doméstica e se delate o caso, juntando em muitos casos, a um drama, um dédalo de outros dramas. Os médicos não deviam ser “Anúbis” de bata branca ou delatores…na minha opinião, claro.

Dez mil crianças, desapareceram num ápice e sem rasto, tragadas pela noite escura de breu; há honra em não renegociar a divida ou os seus juros, deixando perecer à míngua os nossos; os migrantes começam a ser desapossados do que é seu, e expulsos; há setenta e um anos encerou Auschwitz, onde milhões de infelizes entraram por seu pé, e tornados termicamente voláteis saíram em volutas fumarentas de átomos e moléculas, para sempre tão desumanizadas, como os seus carrascos. Que a história se não repita, porque nós os PIGS, não somos benquistos.

João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 168 da Ordem dos Médicos de Abril 2016)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A VANTAGEM DAS EPIFORAS

O cume da miséria, dos pobres diabos reais ou potenciais que todos somos, pode cheirar a desinfectante e a formol  nos sítios civilizados onde se procede civilizadamente  à  aplicação da pena de morte, à eutanásia ou ao extermínio de seres humanos. Emanar o odor adocicado e repulsivo dos corpos em decomposição impestando a maresia nos “morredouros” à volta de Lampedusa. Ser inodora e até de um pitoresco idílico, nas sanzalas de palhotas de África e materializar-se na aparição macabra de um esqueletozinho que nos fita com  os seus olhos desmesuradamente abertos e medonhamente tristes fazendo-nos descrer da bondade. Feder a  suor, a fezes, a urina empenicada e a medo, sim porque o medo tresanda, nos antros miseráveis do mundo ocidental. Ser perfumada, e até de tal beleza, fragrância e encanto, que o incauto velho, libertino e folgazão, dá por si a invejar Fausto e a sua danação, e nem sequer dá por ela, que no entanto subjaz horrenda, nos bordéis de escravas. Não ser sequer real, mas mesmo assim mais avassaladora e pungente  que as precedentes, quando descrita com o talento sublime de um Dostoiewsky, que nos deixa cabisbaixos e  acabrunhados de comoção. Ser inerrarrável, aterradora, apanágio de um futuro que nos preparam, e malogradas ou de escasso  exito que foram, as armadilhas montadas no caminho, por vezes  longo, da morte natural (Testamento Vital....) nos querem agora impôr, com o fito inicial e imutável de gastarem menos e arrecadarem mais, explicando-nos maldosa e atabalhoadamente que a “BOA MORTE” é em casa junto dos entes queridos. Este: vem, disse a aranha à mosca...visa preparar o terreno para coagir as famìlias, a aceitar e a cuidar do seu doente terminal. Mesmo os nazis nos seus campos / matadouros, só arrancavam os dentes de ouro, depois de terem anestesiado os portadores com Cyclon B... Esta “gentinha” quer esgaravatar nas entranhas dos vivos, que vão morrer, que somos todos.
Vão arguir flexuosa e despudoradamente, invocando o superior e prevalecente interesse do doente, num arremedo boçal de compaixão  pleno de impiedade, e sugestionados os cidadãos pelo martelar mediático, vão legislar para estabelecer  a obrigação com base no vínculo parental  em  sentido  lato, arredando como sujectivos e pouco importantes, os laços de afecto, as condições materiais e logísticas...a vida real... É  claro, que os seres rapaces que seguram e orientam a mão do legislador, escapam ao âmbito de qualquer lei, mas mesmo que por milagre esta se lhes aplicasse, fácil lhes seria isolar o seu doente, num recôndito  dos seus palacetes e só lhe aparecer, quando dispostos, arvorando uma expressão carinhosa, adequada  e proporcional ao seu “interessezinho”, ou então treslada-lo, sem que isso parecesse mal, para uma dessas instituíções de cuidados paliativos ou continuados privadas, cujo preço deixa boquiaberto e calado de espanto qualquer potencial  má-lingua e prova sobejamente quanto o doente lhes é caro. Excluídos, por se lhes não aplicar, os do costume, restam como destinatários da lei, os pobres e a classe média depauperada, pelos assaltos fiscal e semelhantes.
 Algures, transcendendo o egoísmo que forja  e subjaz aos afectos humanos, volita o amor dos pais e o amor dos amantes durante a fase fugaz do embeiçamento. Exceptuando-os, não há no mundo amor bastante, para que se deseje partilhar as nossas quase sempre pequenas casas, com um  doente terminal  de carne e osso que luta e que geme, que sofre e que o demonstra, que urina e que defeca e que precisa de auxilio constante  para quase tudo, às vezes até para escarrar a expectoração viscosa que se lhe gruda aos brônquios e lhos estenosa e entope numa troada dispneica de roncos e de síbilos, e que lhe cianosa a pele, como livôres cadavéricos temporões... Esta respiração penosa, este sofrimento visível e indizível, esta agonia, tornam o ambiente lúgubre e medonho, e lá no fundo,(porque não admiti-lo?) fazem desejar um desenlace rápido, ao princípio como pensamento insidioso e malsão repelido com pudor e pressa, mas que depois se instala e permanece como um desejo sôfrego como os regressados à tona, depois de uma longa apneia, aspiram pelo ar... e o doente agarrando-se tenazmente à vida que lhe foge, querendo viver qualquer que seja o seu estado, com os sentidos aguçados pelo medo e pela angústia desse fim do mundo que é a morte para cada um, percebe o ar tôrvo dos tratadores, decifra-lhes os pensamentos íntimos, e ao seu sofrimento aduz-se e acresce-lho, um ressentimento amargo pelos que ainda  há pouco lhe eram queridos, e estes, os tratadores, também eles padecentes, são invadidos por uma ambivalência em que o rancor carcome e substitui a piedade, a  benquerença e a ternura.

A agonia assistida e mitigada por profissionais, médicos, enfermeiros, auxilares de acção médica,cujos ofícios incluem a morte, é diferente e o doente  é tratado com eficácia e sem nojo, e sem sentir que o estão a empurrar para onde a existência, passa ao domínio do utópico e a ser regida pela  Lei de Lavoisier.
É evidente que não sou contra a morte no seio da família se houver condições e conjunção de vontades. Acresce referir e reiterar, que nada nas leis vigentes o impede, pelo que obviamente, o que se pretende, é impô-la.
Há muito que esta gente da governação se vendeu e nos vendeu aos ricaços, e a democracia de efémera que foi, há muito que se tornou uma plutocracia onde  tudo é manipulado (talvez até haja mensagens subliminares, impondo-se à vontade) para benefício dos ”poderosos dos cifrões”.. . Até a carência gritante de cuidados  paliativos e continuados  públicos, ou a mutilação do SNS, visa encher-lhes o papo.

Sendo as epiforas um tipo de lágrimas, que não exigem, para que corram abudantes, emoção, comoção ou suco de cebola, recomendam-se....

João Miguel Nunes “Rocha

(artigo publicado na revista 163 da Ordem do MÉDICOS de Outubro 2015)


terça-feira, 21 de julho de 2015

O CERNE E O BORNE

 Os postulados sobre a” queda dos graves” (Galileu) só se aplicam no vazio. Fora do vácuo há elementos estruturais e conjunturais que alteram a velocidade com que se cai… Na farsa mal urdida e toscamente representada pelos governantes já em campanha, chamam-lhe retoma. Tenhamos a coragem de admitir que caímos ainda, e avassaladoramente, e que quando nos estatelarmos no fundo real, já não teremos pátria, e a nossa língua, a quinta mais falada no mundo, o que nos devia encher de orgulho, já talvez só raramente se ouça cá, substituída pelo alemão, pelo inglês e pelo chinês. Talvez ainda se fale português às escondidas, entre a criadagem e a “gentaça”, filhos segundos de um deus menor…

 Na escola pública de Campo de Ourique onde andei com a mesma professora da primeira à quarta classe, muitos dos meus condiscípulos andavam descalços. Quando nas férias grandes, ia para a casa da minha avó materna na Beira Baixa, e ao domingo tinha de ir à missa, impressionava-me que as pessoas espontaneamente (ou coagidas) se dispusessem da frente para trás conforme a sua posição social. Lá à frente os que tinham a sua cadeirinha e genuflexório privativos, cá atrás junto das pias de água benta, e de pé, famílias inteiras descalças, o que contrastava e contundia com a parábola muitas vezes pregada pelo senhor Prior, sobre as dificuldades opostas aos ricos, na sua entrada no reino do céu.

 O “terror” das pessoas não era a morte (pois contra esta, não há terror que valha), mas a doença, que se remediadas, as deixava pobres num ápice. Se pobres, tinham de padecer ao deus-dará, entrevadas socorrendo-se de mezinhas caseiras, à míngua de quem as socorresse, acossadas pelo medo e pelas limitações. Se pioravam vinha, não o médico mas o senhor prior, com os sacramentos da extrema-unção e a prédica declamada num tom de recitação, sobre o outro mundo e a bem-aventurança, com a cominação de que pela reza de missas póstumas, pré-pagas, se conseguia uma ascensão mais rápida entre o purgatório e o céu. Veio Abril, criou-se o SNS, e o direito a um tratamento condigno, a uma agonia acompanhada e mitigada deixaram de ser um sonho, uma utopia, enquanto o nosso SNS se posicionava entre os melhores do mundo…

 Sua Excelência que acolitada por multidões de secretários e seguranças, e que assim acoitado e protegido, chama piegas, aos cidadãos que o elegeram, por estes protestarem contra o embuste e contra o esbulho, irados pela fome que lhes grassa em casa, indignados pela vileza com que se reduziu a já parca e miserável ração dos pais, dos avós, do velhos, mostrou-nos mais uma vez a massa de que é feito, ao pôr-se contra um grande povo, berço da democracia, pátria de: Hipócrates de Sócrates, de Platão, de Pitágoras, de Aristóteles, de Homero... navegando nas nossas água  e bajulando abjectamente os algozes agiotas que nos humilham, que nos esbulham e que nos destroem.

 Que diferença há entre nós e os gregos para o senhor Primeiro Ministro, se afaste deles, amedrontado, como se padecessem de doença contagiosa e fatal? Mesmo que a nossa superação da crise fosse verdadeira e lhe coubesse todo o mérito, afigura-se-me acto pouco digno, este repúdio dos gregos, reiterado por “Sua Majestade Trina”, que secundando-o no avisou da “contazinha”… Que triste figura e que triste país!

 Mas o país afundou-se e move-se à deriva em águas já profundas:
 Apesar do aumento confiscatório dos impostos.
 Apesar do assalto aos funcionários públicos e aos reformados.
 Apesar da dupla e intolerável descriminação aos velhos beneficiários da ADSE, coagidos às quotas e à contribuição extraordinária de solidariedade.
 Apesar da abalada em massa dos jovens e dos menos jovens. 
Apesar da venda aos estrangeiros de tudo o que era público valioso e vital, inclusive a nossa cidadania a pessoas sem passado mas com dinheiro.

Apesar do encerramento de serviços essenciais enquanto as parcerias, as fundações, persistem e recebem o nosso dinheiro.
Resta-nos muito pouco, do pouco que sempre tivemos: um SNS mutilado, mas mesmo assim mil vezes melhor do que o que havia antes de Abril, uma TAP, em que nós patriotas nos revemos como se da nossa bandeira se tratasse; o pecúlio aforrado em vidas inteiras de trabalho e de privações… Para defendê-los, para impedir que esta gentinha no-los tire é na minha opinião lícito o recurso  a todas as formas de protesto e de resistência pacíficas e se não bastantes, à legítima defesa. É ao cerne destas questões e à renegociação da dívida antes que esta nos sufoque, que devemos ater-nos. As várias versões de Sua Excelência, quanto aos seus descontos, são do borne, pouco importantes (se comparados). Olhe-se a sua história pregressa… isso basta.

João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º160 • Junho 2015)

sábado, 3 de janeiro de 2015

DÚVIDA PERSISTENTE

Vinha a remar do veleiro. Por um acidente fortuito há dois dias que não fazia a terapêutica; três impactes brutais na zona supero externa, infra clavicular, do hemitorax esquerdo. Estupidamente saltei do bote; um bom samaritano ajudou-me a sair da água e a deitar-me na sombra de uma traineira; alguém chamou o INEM. Levei o indicador à radial e senti o pulso numa taquicardia irregular, frenética…fechei os olhos, enquanto o tempo passava numa lentidão “lesmática” inversamente proporcional à minha ansiedade. Tive a certeza de que ía morrer ali, mas surpreendentemente, não fui invadido pelo terror-pânico, por pensamentos grandiloquentes ou por esse arrependimento fingido, tardio e egoísta com que se julga subornar Deus …mas eu, naquele momento que cria supremo, terminal, não sei por que raio, pensei na mulher de César…Por analogia ou antinomia ocorreu-me e divaguei sobre o teatro mediático a que nos é dado assistir, em que chama retoma ou até com uma desfaçatez arrepiante, que seria trágica se não fora ser tonta, milagre económico, a este declínio quotidiano, que sentimos na pele e no ar, na tristeza indelével que enforma e deforma os semblantes, no amarfanhado das posturas prenhes de desanimo e medo, na confiança e na esperança definitiva e inexoravelmente esbarrondadas. Tive tempo de sobra para pensar nisto e em muito mais, porque a ambulância pomposamente engalanada com as insígnias do INEM, chegou cerca de trinta e cinco minutos depois e nela vinham apenas dois bombeiros sem competência e sem autorização para administrar o que quer que fosse, como me informaram ao recusar-me o beta-bloqueante e até o pacote de açúcar que lhes pedi. Por ser escusado, obstei a que me levassem para a ambulância, ficando debaixo da traineira nos mais de quarenta e cinco minutos que tardou ainda, o verdadeiro INEM, uma médica e um enfermeiro, que ainda ali, me canalizaram uma veia em cada braço, me puseram uma máscara sobre a face e me administraram não sei o quê, porque perdi a consciência, que só recuperei já no hospital, numa sala com três ou quatro macas, separadas por biombos. De costas para mim, uma jovem médica, a quem me dirigi nestes termos: senhora doutora, sou seu colega e queria contar-lhe o que aconteceu; te calas, aqui tudo igual… numa dicção espanholada e num tom mil vezes mais rude do que o rei de Espanha a mandar calar Hugo Chavez…Por uma porta ao fundo viam-se passar e cirandar, médicos de bata branca. Foi em vão que tentei enxergar caras conhecidas porque os médicos no auge da carreira e do saber, com o intuito de se desmantelar o SNS para benefício dos do costume, são atirados para uma reforma precoce e esbulhada, por um Estado que sem direito e sem honra, se apoderou dos fundos contributivos, que lhe tinham sido confiados mas não eram seus, e agora como pessoa de má consciência e poucos escrúpulos, altera diariamente o que ontem fixou como definitivo…como lei. Como classificar esta atitude em tudo semelhante à de roubar o mealheiro com o pequeno pecúlio e a alegria a uma criança, ou a ceia a um velho; vil, miserável…

É tempo, de todos nós médicos e profissionais de saúde, percebermos que calar é colaborar, é ser-se cúmplice, com o que se está a passar no nosso país, e no que diz respeito à saúde ficar cientes, que todos os dias se cometem omissões criminosas, que conduzem a sofrimentos e sequelas desnecessárias e se morre e vão, estupidamente em vão…

Tal como aos habitantes das regiões limítrofes dos matadouros/crematórios, bastava o cheiro pestilencial que se evolava das chaminés dos fornos, enegrecia a atmosfera como um “fog” horrendo e maldito e se colava a tudo num “fartum” nauseabundo e peganhento que lhes dizia, que lhes gritava a verdade, que contudo fingiam ignorar… todos os profissionais de saúde no activo, sabem que se estão a passar na saúde, aqui e agora, factos em tudo desconformes não só com o juramento de Hipócrates, mas até com a decência humana, que contundem com a dignidade, a saúde e a vida de quem os sofre, e também de quem os pratica se tiver consciência, e denigrem o bom nome e a honra de quem os consente, e de quem conhecendo-os, se cala.
 É claro que os profissionais da saúde também têm famílias com bocas para alimentar e tal como sobre todos os seres humanos do nosso país, paira sobre eles, a terrível sombra de um futuro incerto, futuro de que são agora fautores com um papel muito importante, mas quase a chegar ao fim, e ao cair do pano, transitarão do “glamour” e do fulgor do palco para uns bastidores bafientos e tétricos, onde desempregados ou com um salário irrisório e sem direitos, e dispostos a tudo por cada vez menos, sentirão a nostalgia pungente do tempo em que tinham o poder de mudar as coisas…e para sempre o perderam.
 Admitamos como mera hipótese que o dinheiro fluindo a rodos de Bruxelas aquando da nossa adesão (anexação) aparentemente a eito e à toa, foi na verdade empregue do primeiro ao último cêntimo, seguindo minuciosamente a sageza do plano, cumpriu os desígnios e está a conduzir-nos avassaladoramente para o desenlace final: os fins previstos.
 Abdicação vil e não outorgada pelos cidadãos, da nossa soberania, porque só é independente quem tem o bastante para sobreviver, a não ser que se readopte essa arguta forma de existência, em que as necessidades diminuem, por cada vizinho que se caça e come.
Devastação da agricultura, abate da floresta, eucaliptização dos regadios, afundamento das pescas, arrasamento do tecido produtivo, venda por uma bagatela e sem a salvaguarda do interesse nacional, antes parecendo haver o propósito de o delir, de tudo o que era público, valioso e vital (POTUCEL, REN,GALP,EDP, CTT,ANA,TELECON…) AGUAS, TAP e SNS (operações em curso).
  Criação de infra estruturas (auto-estradas, vias rápidas) bifurcando-se como bissectrizes de ângulos já agudos, dividindo o interior do país em latifúndios, enquanto paradoxalmente (ou talvez não) se procede à sua desertificação, pela abalada em tropel das empresas empregadoras, e porque o poder eleito, todos os dias lhes tira, uma ou outra das estruturas, que lá fixavam as populações: centros de saúde, escolas, juntas de freguesia, hospitais, tribunais…talvez num futuro próximo se abra a caça aos poucos teimosos que persistam em ficar.
 Criação e desaproveitamento de uma geração de licenciados, que excepto os habituais, se repartem entre doutores frustrados em empregos desadequados e de pouca monta, pelos quais porém, competem ferozmente, para gáudio e benefício dos patrões, e, os que ousam emigrar e sem o apego à pátria do Manuel da Bouça, jamais voltarão…e os seus filhos serão estrangeiros….Acresce que a esta debandada dos jovens se incrementa intencionalmente a rarefacção da nossa população pelo ataque à natalidade patente: em todo o tipo de advertências às mulheres que tendo emprego persistam em ser mães; diminuição ou supressão de todas as ajudas pecuniárias ao jovem casal; mesmo o beneficio fiscal prometido pelo eleito, já em campanha, fede a mais um imposto verde.
Aberração de tirar os filhos à mãe que deixa de poder sustentá-los. Em vez de a ajudarem, atormentam-na, tirando-lhes os filhos.
Liberalização e aceitação social do aborto para além do razoável.
Aplauso e mediatização, não da liberdade, mas da promiscuidade sexual.
Esse desejo utópico e obsessivo de imortalidade, marcante em quase todos os seres humanos, prometido e explorado pelas religiões, cujo único lampejo real se vislumbra na transmissão dos genes, é talvez o que subjaz e consubstancia o amor do amantes e o amor dos pais e faz com que de ambos possam brotar gestos sublimes ou actos horrendos, e tocar ou ferir este primomovente, nesta época de famílias precárias e pais faíscas, vistos como fotópsias, entre sessões de computador, é abrir a caixa de Pandora de que parece ter já saído um poder perverso, materializado no Testamento Vital, lei malévola e aterradora, sugerindo por si só e fartamente o que aí vem: de que os cidadãos autorizem formalmente o seu próprio assassínio, porque aos futuros e únicos prestadores da saúde (Champalimaud, Melos, Cruz vermelha, E.S, seguradoras, chineses…) não convêm clientes que não possam pagar com mãos largas, os cuidados que entendam prestar-lhes ou facturar-lhes…Imagine-se a desolação, a angústia de perceber-se o esgar de desilusão ou até ódio, que perpassa na expressão do filho, do neto, do ente querido por se não ter subscrito o testamento vital, na repartição Notarial, onde o levaram com esse propósito. Imagine-se que somos nós. A seguir virá a eutanásia sempre no interesse”do nosso querido e infeliz concidadão “ e depois talvez se reintroduzam as”linhas de montagem da morte” há tão pouco tempo encerradas…
  Abate de toda a classe média por extorsão pura e dura do que esta aufere ou aforra, porque os “ senhores” que manejam os cordelinhos da bolsa do dinheiro, manipulam também a seu belo prazer, os cordelinhos que movem e animam estas marionetas que se acoitaram na politica, e sem decência e sem honra, vão jurando sem intenção de cumprir…Persistir na dúvida, apesar da evidencia, é na minha opinião uma estupidez crassa.  

               João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º155 • Novembro /Dezembro 2014)

terça-feira, 25 de março de 2014

OS BONIFRATES


Que raio de doença terei eu, no intrincado labirinto da memória em declínio, que se fecho os olhos e relembro os nossos políticos, só atino (com) e reconheço rostos patibulares? Será a degenerescência cerebral senil, em correria de cascata, ou um fragmento e testemunho, daquilo que dantes se chamava a sabedoria dos velhos, e os tornava merecedores do respeito por eles mesmos, os velhos, e pela sua opinião?...

 Os agiotas que vivem de e para acumular os seus montezinhos de ouro e acrescentar zeros à direita do seu capital, imunes ao húmus de desolação, miséria, infelicidade e morte, que faz medrar e doura o seu dinheiro, apossaram-se do mundo ocidental”; de uma forma nunca antes conseguida pela guerra e mandatando, manipulando, comprando, corrompendo e coagindo no seu interesse, os poderes político e mediático, e o dos cidadãos com voz, (salvo honrosas excepções, que as haverá sempre) prepararam para nós cidadãos pobres do sul e sudoeste da Europa, um horrível “ghetto” em que ocupados como castas mínimas ou miseráveis épsilones não nos é dado nenhum “soma” ou elixir euforizante nem ministrada nenhuma programação que nos faça sentir bem e adaptados à nossa existência de autómatos de pequenas tarefas. Nesse mundo que já se esboça e delineia no presente, a vida humana mesmo e sobretudo na civilizada Europa, será o bem mais banal e barato, a não ser que se lhe associe qualquer particularidade que a torne importante ou imprescindível: é o homem descartável no seu auge…

  E apesar da aparente aleatoriedade das sequências é provável que tudo tenha sido cuidadosa e perversamente urdido e aplicado, e haja um nexo de causalidade planeada, consequente e conducente ao brejo pantanoso e movediço, de onde urge sair, para sobreviver.

 Tal como no velho poema de Pablo Neruda, vamos fechando os olhos ao que acontece aos outros até que o mal se abate sobre nós, e, nos esmaga, e estamos sós.

 Os mortos de “Lampeduza” encarados como longínquos e não nos afectando, deviam provocar-nos a indignação, a revolta e também o medo. No fundo provam que o homem por força da sua natureza sempre privilegiou, privilegia e privilegiará a sua inclusão em castas ou carteis e cada grupinho trata de si mesmo, e atropela e trucida os de fora, com uma impiedade sem paralelo nos reinos dos outros bichos, e, que só por mutação genética ou coagido, o ser humano porá o interesse do todo, acima do seu…É por isso que a utopia da Europa unida, de povos irmãos, com os mesmos direitos e deveres, já está delineada com traços indeléveis: lá para norte as castas de arianos, homens e mulheres de tez clara, olhos azuis, altos, superiores…cá em baixo os greco-romanos (e os ibéricos) com o sangue tinto de negro e árabe, que berço de uma civilização impar que foram, e que ainda impregna o mundo, serão tratados, não como guano, mas como excremento de cão.

 E só quem não quer, não vê, a producência dos factos:
  Bombardearam-se os países pobres da adesão com dinheiro, não a fundo perdido, que os parvos não são eles, mas em troca do abandono das suas (nossas) fontes próprias de pão, da perda da sua (nossa) verdadeira soberania. As torneiras jorraram nos locais e para os do costume, primeiro escudos e depois euros e inoculou-se nos cidadãos o vírus da ambição epidémica e inculcou-se-lhes, o complexo mil vezes amplificado, de que ser-se pobre, era ser-se um” pobre diabo”, um”coitado”.

 Espalhou-se a eito e ao desbarato a ilusão de que todos podiam ter casa própria, um filho licenciado, férias, uma “vida humana” enfim, e para dar substância ao sonho que devia ser um direito, a Banca, com a conivência e subserviência do Estado, (que até concedeu, do dinheiro de todos, benefícios fiscais, aos que se endividassem) ofereceu crédito a torto e a direito para estes endividamentos meritórios, e, aproveitou a euforia reinante, para vender a crédito e aos seus balcões, pechisbeques a preços de alta joalharia, acrescidos duns jurozitos…E perante este apelo cúmplice e consequente as famílias fizeram das tripas coração, para comprar casa (única alternativa à barraca) para dar um futuro aos filhos, para provar aos seus, a sua capacidade, que não eram, uns coitados. Os agiotas rejubilaram, porque como é seu hábito milenar, a sua segunda natureza, haviam usado de todas as cautelas, fianças e penhores nas linhas e entrelinhas dos seus contratos leoninos.

 Foi um festim hórrido e grotesco de hienas, onde se banquetearam todos os que tinham acesso ao dinheiro, ou a permissão de se endividarem, em nome do contribuinte:- rotundas de dez em dez metros; auto-estradas paralelas, concessionadas eternamente aos privados com a cominação inaudita, de que se lhes diminuísse o tráfego o contribuinte pagava uma compensação; uma dúzia de grandiosos campos de futebol para pouco mais do que um jogo, cada; aeroportos onde não aterram aviões; uma expo onde tudo foi feito à grande, até, presumo, as falcatruas; parcerias público-privadas, feitas de má-fé e prejudicando sempre o Estado, o que prova das duas, uma: ou os nossos mandatários eram oligofrénicos ou houve compensações sub-reptícias…inclino-me para a simultaneidade…

   Se um credor, agindo de boa-fé e com lisura, perante um reembolso periclitante, vê que ajudando o devedor, aumenta substancialmente as suas probabilidades de ser ressarcido, obviamente ajuda-o…Porém está na essência, desse negócio milenar, que é a usura, que depois de ferrado o penhor, o melhor mesmo, é não o largar, e tal como o papa defuntos se alegra com a morte e com o aumento do número dos funerais implícito, o agiota torce, para que o devedor não consiga resgatar o penhor. É inquestionável, faz parte da natureza do negócio.

 Admitindo também como certa, uma segunda premissa: estranha e indubitavelmente os representantes dos credores (troica) e os presumíveis representantes dos interesses dos portugueses (políticos do arco da governação) rejubilam com os mesmos factos, regem-se pela mesma partitura, fazem o mesmo jogo, conclui-se que: ou os nossos credores são de um enorme altruísmo (não se entendendo então, o porquê da exorbitância dos juros, do arrasamento dos tecidos empresarial e social, do caos de miséria e desolação que grassam) ou os nossos procuradores traíram os portugueses, e então tudo se torna lógico, coerente, óbvio, até o sorriso de vanglória, escarninho e odioso com que vêm anunciar aos velhos, aos doentes, aos cidadãos pobres, aos empenhados aos despojados, aos desvalidos, que de sobressalto em sobressalto vão ser postos fora da vida, que neste Portugal a abarrotar de democracia, só há lugar para os mais aptos, ou para os espertalhotes.

  Esta gente que vá proclamar ”o milagre económico” aos infelizes que tendo neoplasias, se vêm galopar avassaladoramente para a morte, por lhes negarem as terapêuticas oncológicas; aos moribundos aguardando o socorro, que não virá; aos doentes crónicos que se vêem definhar, por não terem posses para as deslocações, para as taxas moderadoras, para as terapêuticas, para as dietas; aos que aguardam meses e meses, ou anos, por um exame, enquanto a morte se aproxima, e os toca.

 Foi em vão que calcorreei as farmácias e me dirigi ao centro de saúde. Não consegui a vacina da gripe, apesar da propaganda mediática, de que a havia com fartura, para dar e para vender; terá feito parte de um plano?


   Quem não pretenda emigrar nem para o estrangeiro, nem para o outro mundo, deve aprender línguas germânicas: ser-lhes-ão de grande utilidade para lidar, servir e adular os novos senhores, nas suas coutadas de caça, ou os seus velhos nos retiros paradisíacos e soalheiros, onde venham passar os meses invernais da sua terceira idade, longa e farta. De pobres, passámos a parentes pobres; que queda’.        

João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º162 • Setembro 2015)