domingo, 1 de maio de 2016

OS DOGMAS

Se já não acreditamos em moiras encantadas e encantadoras, em belas adormecidas e menos ainda em príncipes formosos que as despertam com um beijo, pródromo de uma felicidade que não se esboroa nem fenece, como explicar as crenças arreigadas, indiscutidas e aceites como dogmas: de que impelidos por uma dívida crescente e impagável, que nos descarna e que nos encova, atingiremos o planalto da prosperidade? 
Que os salários parcos e miseráveis pagos pelo labor presente, se devem, não à rapacidade dos ricos, mas à sua intenção sincera, de cheias as suas casas fortes, lhes escancararem as portas em torrentes de dádivas a distribuir a eito, pelos sobreviventes espartanos, rijos, estoicos e escassos, da fome e da míngua pregressas? Que, pasme-se, o dinheiro do contribuinte esfregado na honra dos bancos falidos, indelevelmente enxovalhada, pelas falcatruas dos donos, devolver-lhes-á a credibilidade e a candura imaculada das donzelas?

Será que a prédica que nos foi repetida desde a infância e antes de nós aos nossos pais e avós, com a persistência retumbante dos batuques, de que as dádivas ao Vaticano ou a Meca, a Jerusalém ou à Igreja Maná….creditar-nos-iam contas de grande rendibilidade num Céu sem inflação nos fragilizaram o córtex cerebral criando nele, zonas patológicas de grande permeabilidade ao fantástico, ao insólito e ao sobrenatural, o que até nos serviria de arrimo e de protecção contra o nosso medo mais aterrador, que é o da morte, como fim inexorável e absoluto, e permitir-nos- ia intermitências sonhadoras onde ora morremos, ora não…Não pretendo apoucar as crenças dos outros, que sinceramente respeito e invejo, nem sequer pôr em dúvida a possibilidade de um Deus criador; só que, para minha infelicidade não consigo aceitar, que Havendo-o, os homens, e menos ainda o seu ouro, lhe aproveitassem, e isso mina a minha credulidade em relação às religiões, e coloca-me entre os agnósticos nuns dias, e entre os ateus, nos demais. Na minha opinião, só por uma desmesurada megalomania nos podemos considerar feitos à semelhança e imagem de um Deus omnisciente e omnipotente, que algures, num dos estádios da nossa evolução biológica, nos dotou de alma e nos concedeu (ou à alma) o dom da imortalidade, transformando-nos em seus sósias humanos, ou quase…a nós que somos egocêntricos e egoístas, e, que só nos sentimos verdadeiramente chocados com os males alheios, quando há a possibilidade de nos acontecerem também. Admito, e não me considero excepção, que as vísceras expostas ou os corpos esquartejados (constantes dos telejornais) não me embotam o paladar ou engulham o apetite com que continuo a saborear o  farnel... Assumida esta minha insensibilidade de desalmado, por que será que me emociono e 
comovo ao ver os olhos imensos com imensas moscas das criancinhas negras, prestes a morrer de fome?...Ou sinto uma raiva avassaladora, uma raiva de querer esbofetear e morder, quando atino com um dos nossos muitos tribunos, que, acoitado no seu subsidio vitalício, passa as sessões parlamentares em jogos de: persegue, prende, mata, esfola; em
computadores saídos do erário publico, enquanto se urdem as leis para mais um esbulho… à já, mal cheia malga, dos velhos? A sistólica sobe-me em frémitos latejantes e suicidas, quando comparo a justiça que deixa em prisão domiciliária, (leia-se, com segurança pública), os gatunotes de gravata, e encafua nas prisões os pobres diabos, que sucumbiram à visão, dos tiques mandibulares dos filhos, acossados pela fome crónica.

O primeiro sobressalto de desilusão quanto à nova governação senti-o, não pelo derrube do” eleito”, nem pela coalizão à esquerda, mas pelo modo dogmático, pressuroso e dúbio, como se imputaram aos cidadãos contribuintes as contas do Banif, poupando mais uma vez os cidadãos sem abrigo. É imoral e inconstitucional; em nome da igualdade, se nada possuem, penhorem-se- lhes as camas/caixotes….

Desde que começou a história da tanga e das queixinhas lamuriosas sobre a governação precedente, que os velhos têm sido assaltados, em todos os seus direitos e não só se conseguiu a pretendida clivagem geracional como se inculcou em muitos um sentimento de culpa por continuarem a viver e em quase todos um sentimento de medo: medo de acorrer aos hospitais em casos de urgência; medo de levar à boca a garfada, numa casa em que o pão não abunde, mesmo que, o pouco que haja, sejam eles a paga-lo; medo de ouvirem da boca dos entes queridos frases que firam ou matem inexoravelmente os afectos; medo de serem tirados de perto dos seus e perpetuamente encafuados num mundo que lhes é estranho e hostil; medo de ouvirem dos que amam, mas que os não amam, frases tornadas prováveis, neste mundo sem dó: porque não subscreve a eutanásia ou o testamento vital?...

Talvez seja por ser velho, e eu próprio uma vitima potencial, que penso que há razões para ter medo.

De facto, num país onde a oferta de cuidados paliativos ou continuados a cidadãos pobres, é quase nula, é no mínimo desconforme e ilógico que se aceite que o Testamento vital ( e em breve a eutanásia) são a resultante de “ bem querer aos doentes”… e é muito, muito estranho que se aceite como vinculativa a decisão tomada há cinco anos, sabe-se lá em que contexto e sob que pressões ou desvarios para parar a terapêutica e o suporte de vida a um subscritor do testamento vital e simultaneamente se desrespeite a vontade lúcida da vitima de violência doméstica e se delate o caso, juntando em muitos casos, a um drama, um dédalo de outros dramas. Os médicos não deviam ser “Anúbis” de bata branca ou delatores…na minha opinião, claro.

Dez mil crianças, desapareceram num ápice e sem rasto, tragadas pela noite escura de breu; há honra em não renegociar a divida ou os seus juros, deixando perecer à míngua os nossos; os migrantes começam a ser desapossados do que é seu, e expulsos; há setenta e um anos encerou Auschwitz, onde milhões de infelizes entraram por seu pé, e tornados termicamente voláteis saíram em volutas fumarentas de átomos e moléculas, para sempre tão desumanizadas, como os seus carrascos. Que a história se não repita, porque nós os PIGS, não somos benquistos.

João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 168 da Ordem dos Médicos de Abril 2016)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A VANTAGEM DAS EPIFORAS

O cume da miséria, dos pobres diabos reais ou potenciais que todos somos, pode cheirar a desinfectante e a formol  nos sítios civilizados onde se procede civilizadamente  à  aplicação da pena de morte, à eutanásia ou ao extermínio de seres humanos. Emanar o odor adocicado e repulsivo dos corpos em decomposição impestando a maresia nos “morredouros” à volta de Lampedusa. Ser inodora e até de um pitoresco idílico, nas sanzalas de palhotas de África e materializar-se na aparição macabra de um esqueletozinho que nos fita com  os seus olhos desmesuradamente abertos e medonhamente tristes fazendo-nos descrer da bondade. Feder a  suor, a fezes, a urina empenicada e a medo, sim porque o medo tresanda, nos antros miseráveis do mundo ocidental. Ser perfumada, e até de tal beleza, fragrância e encanto, que o incauto velho, libertino e folgazão, dá por si a invejar Fausto e a sua danação, e nem sequer dá por ela, que no entanto subjaz horrenda, nos bordéis de escravas. Não ser sequer real, mas mesmo assim mais avassaladora e pungente  que as precedentes, quando descrita com o talento sublime de um Dostoiewsky, que nos deixa cabisbaixos e  acabrunhados de comoção. Ser inerrarrável, aterradora, apanágio de um futuro que nos preparam, e malogradas ou de escasso  exito que foram, as armadilhas montadas no caminho, por vezes  longo, da morte natural (Testamento Vital....) nos querem agora impôr, com o fito inicial e imutável de gastarem menos e arrecadarem mais, explicando-nos maldosa e atabalhoadamente que a “BOA MORTE” é em casa junto dos entes queridos. Este: vem, disse a aranha à mosca...visa preparar o terreno para coagir as famìlias, a aceitar e a cuidar do seu doente terminal. Mesmo os nazis nos seus campos / matadouros, só arrancavam os dentes de ouro, depois de terem anestesiado os portadores com Cyclon B... Esta “gentinha” quer esgaravatar nas entranhas dos vivos, que vão morrer, que somos todos.
Vão arguir flexuosa e despudoradamente, invocando o superior e prevalecente interesse do doente, num arremedo boçal de compaixão  pleno de impiedade, e sugestionados os cidadãos pelo martelar mediático, vão legislar para estabelecer  a obrigação com base no vínculo parental  em  sentido  lato, arredando como sujectivos e pouco importantes, os laços de afecto, as condições materiais e logísticas...a vida real... É  claro, que os seres rapaces que seguram e orientam a mão do legislador, escapam ao âmbito de qualquer lei, mas mesmo que por milagre esta se lhes aplicasse, fácil lhes seria isolar o seu doente, num recôndito  dos seus palacetes e só lhe aparecer, quando dispostos, arvorando uma expressão carinhosa, adequada  e proporcional ao seu “interessezinho”, ou então treslada-lo, sem que isso parecesse mal, para uma dessas instituíções de cuidados paliativos ou continuados privadas, cujo preço deixa boquiaberto e calado de espanto qualquer potencial  má-lingua e prova sobejamente quanto o doente lhes é caro. Excluídos, por se lhes não aplicar, os do costume, restam como destinatários da lei, os pobres e a classe média depauperada, pelos assaltos fiscal e semelhantes.
 Algures, transcendendo o egoísmo que forja  e subjaz aos afectos humanos, volita o amor dos pais e o amor dos amantes durante a fase fugaz do embeiçamento. Exceptuando-os, não há no mundo amor bastante, para que se deseje partilhar as nossas quase sempre pequenas casas, com um  doente terminal  de carne e osso que luta e que geme, que sofre e que o demonstra, que urina e que defeca e que precisa de auxilio constante  para quase tudo, às vezes até para escarrar a expectoração viscosa que se lhe gruda aos brônquios e lhos estenosa e entope numa troada dispneica de roncos e de síbilos, e que lhe cianosa a pele, como livôres cadavéricos temporões... Esta respiração penosa, este sofrimento visível e indizível, esta agonia, tornam o ambiente lúgubre e medonho, e lá no fundo,(porque não admiti-lo?) fazem desejar um desenlace rápido, ao princípio como pensamento insidioso e malsão repelido com pudor e pressa, mas que depois se instala e permanece como um desejo sôfrego como os regressados à tona, depois de uma longa apneia, aspiram pelo ar... e o doente agarrando-se tenazmente à vida que lhe foge, querendo viver qualquer que seja o seu estado, com os sentidos aguçados pelo medo e pela angústia desse fim do mundo que é a morte para cada um, percebe o ar tôrvo dos tratadores, decifra-lhes os pensamentos íntimos, e ao seu sofrimento aduz-se e acresce-lho, um ressentimento amargo pelos que ainda  há pouco lhe eram queridos, e estes, os tratadores, também eles padecentes, são invadidos por uma ambivalência em que o rancor carcome e substitui a piedade, a  benquerença e a ternura.

A agonia assistida e mitigada por profissionais, médicos, enfermeiros, auxilares de acção médica,cujos ofícios incluem a morte, é diferente e o doente  é tratado com eficácia e sem nojo, e sem sentir que o estão a empurrar para onde a existência, passa ao domínio do utópico e a ser regida pela  Lei de Lavoisier.
É evidente que não sou contra a morte no seio da família se houver condições e conjunção de vontades. Acresce referir e reiterar, que nada nas leis vigentes o impede, pelo que obviamente, o que se pretende, é impô-la.
Há muito que esta gente da governação se vendeu e nos vendeu aos ricaços, e a democracia de efémera que foi, há muito que se tornou uma plutocracia onde  tudo é manipulado (talvez até haja mensagens subliminares, impondo-se à vontade) para benefício dos ”poderosos dos cifrões”.. . Até a carência gritante de cuidados  paliativos e continuados  públicos, ou a mutilação do SNS, visa encher-lhes o papo.

Sendo as epiforas um tipo de lágrimas, que não exigem, para que corram abudantes, emoção, comoção ou suco de cebola, recomendam-se....

João Miguel Nunes “Rocha

(artigo publicado na revista 163 da Ordem do MÉDICOS de Outubro 2015)


terça-feira, 21 de julho de 2015

O CERNE E O BORNE

 Os postulados sobre a” queda dos graves” (Galileu) só se aplicam no vazio. Fora do vácuo há elementos estruturais e conjunturais que alteram a velocidade com que se cai… Na farsa mal urdida e toscamente representada pelos governantes já em campanha, chamam-lhe retoma. Tenhamos a coragem de admitir que caímos ainda, e avassaladoramente, e que quando nos estatelarmos no fundo real, já não teremos pátria, e a nossa língua, a quinta mais falada no mundo, o que nos devia encher de orgulho, já talvez só raramente se ouça cá, substituída pelo alemão, pelo inglês e pelo chinês. Talvez ainda se fale português às escondidas, entre a criadagem e a “gentaça”, filhos segundos de um deus menor…

 Na escola pública de Campo de Ourique onde andei com a mesma professora da primeira à quarta classe, muitos dos meus condiscípulos andavam descalços. Quando nas férias grandes, ia para a casa da minha avó materna na Beira Baixa, e ao domingo tinha de ir à missa, impressionava-me que as pessoas espontaneamente (ou coagidas) se dispusessem da frente para trás conforme a sua posição social. Lá à frente os que tinham a sua cadeirinha e genuflexório privativos, cá atrás junto das pias de água benta, e de pé, famílias inteiras descalças, o que contrastava e contundia com a parábola muitas vezes pregada pelo senhor Prior, sobre as dificuldades opostas aos ricos, na sua entrada no reino do céu.

 O “terror” das pessoas não era a morte (pois contra esta, não há terror que valha), mas a doença, que se remediadas, as deixava pobres num ápice. Se pobres, tinham de padecer ao deus-dará, entrevadas socorrendo-se de mezinhas caseiras, à míngua de quem as socorresse, acossadas pelo medo e pelas limitações. Se pioravam vinha, não o médico mas o senhor prior, com os sacramentos da extrema-unção e a prédica declamada num tom de recitação, sobre o outro mundo e a bem-aventurança, com a cominação de que pela reza de missas póstumas, pré-pagas, se conseguia uma ascensão mais rápida entre o purgatório e o céu. Veio Abril, criou-se o SNS, e o direito a um tratamento condigno, a uma agonia acompanhada e mitigada deixaram de ser um sonho, uma utopia, enquanto o nosso SNS se posicionava entre os melhores do mundo…

 Sua Excelência que acolitada por multidões de secretários e seguranças, e que assim acoitado e protegido, chama piegas, aos cidadãos que o elegeram, por estes protestarem contra o embuste e contra o esbulho, irados pela fome que lhes grassa em casa, indignados pela vileza com que se reduziu a já parca e miserável ração dos pais, dos avós, do velhos, mostrou-nos mais uma vez a massa de que é feito, ao pôr-se contra um grande povo, berço da democracia, pátria de: Hipócrates de Sócrates, de Platão, de Pitágoras, de Aristóteles, de Homero... navegando nas nossas água  e bajulando abjectamente os algozes agiotas que nos humilham, que nos esbulham e que nos destroem.

 Que diferença há entre nós e os gregos para o senhor Primeiro Ministro, se afaste deles, amedrontado, como se padecessem de doença contagiosa e fatal? Mesmo que a nossa superação da crise fosse verdadeira e lhe coubesse todo o mérito, afigura-se-me acto pouco digno, este repúdio dos gregos, reiterado por “Sua Majestade Trina”, que secundando-o no avisou da “contazinha”… Que triste figura e que triste país!

 Mas o país afundou-se e move-se à deriva em águas já profundas:
 Apesar do aumento confiscatório dos impostos.
 Apesar do assalto aos funcionários públicos e aos reformados.
 Apesar da dupla e intolerável descriminação aos velhos beneficiários da ADSE, coagidos às quotas e à contribuição extraordinária de solidariedade.
 Apesar da abalada em massa dos jovens e dos menos jovens. 
Apesar da venda aos estrangeiros de tudo o que era público valioso e vital, inclusive a nossa cidadania a pessoas sem passado mas com dinheiro.

Apesar do encerramento de serviços essenciais enquanto as parcerias, as fundações, persistem e recebem o nosso dinheiro.
Resta-nos muito pouco, do pouco que sempre tivemos: um SNS mutilado, mas mesmo assim mil vezes melhor do que o que havia antes de Abril, uma TAP, em que nós patriotas nos revemos como se da nossa bandeira se tratasse; o pecúlio aforrado em vidas inteiras de trabalho e de privações… Para defendê-los, para impedir que esta gentinha no-los tire é na minha opinião lícito o recurso  a todas as formas de protesto e de resistência pacíficas e se não bastantes, à legítima defesa. É ao cerne destas questões e à renegociação da dívida antes que esta nos sufoque, que devemos ater-nos. As várias versões de Sua Excelência, quanto aos seus descontos, são do borne, pouco importantes (se comparados). Olhe-se a sua história pregressa… isso basta.

João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º160 • Junho 2015)

sábado, 3 de janeiro de 2015

DÚVIDA PERSISTENTE

Vinha a remar do veleiro. Por um acidente fortuito há dois dias que não fazia a terapêutica; três impactes brutais na zona supero externa, infra clavicular, do hemitorax esquerdo. Estupidamente saltei do bote; um bom samaritano ajudou-me a sair da água e a deitar-me na sombra de uma traineira; alguém chamou o INEM. Levei o indicador à radial e senti o pulso numa taquicardia irregular, frenética…fechei os olhos, enquanto o tempo passava numa lentidão “lesmática” inversamente proporcional à minha ansiedade. Tive a certeza de que ía morrer ali, mas surpreendentemente, não fui invadido pelo terror-pânico, por pensamentos grandiloquentes ou por esse arrependimento fingido, tardio e egoísta com que se julga subornar Deus …mas eu, naquele momento que cria supremo, terminal, não sei por que raio, pensei na mulher de César…Por analogia ou antinomia ocorreu-me e divaguei sobre o teatro mediático a que nos é dado assistir, em que chama retoma ou até com uma desfaçatez arrepiante, que seria trágica se não fora ser tonta, milagre económico, a este declínio quotidiano, que sentimos na pele e no ar, na tristeza indelével que enforma e deforma os semblantes, no amarfanhado das posturas prenhes de desanimo e medo, na confiança e na esperança definitiva e inexoravelmente esbarrondadas. Tive tempo de sobra para pensar nisto e em muito mais, porque a ambulância pomposamente engalanada com as insígnias do INEM, chegou cerca de trinta e cinco minutos depois e nela vinham apenas dois bombeiros sem competência e sem autorização para administrar o que quer que fosse, como me informaram ao recusar-me o beta-bloqueante e até o pacote de açúcar que lhes pedi. Por ser escusado, obstei a que me levassem para a ambulância, ficando debaixo da traineira nos mais de quarenta e cinco minutos que tardou ainda, o verdadeiro INEM, uma médica e um enfermeiro, que ainda ali, me canalizaram uma veia em cada braço, me puseram uma máscara sobre a face e me administraram não sei o quê, porque perdi a consciência, que só recuperei já no hospital, numa sala com três ou quatro macas, separadas por biombos. De costas para mim, uma jovem médica, a quem me dirigi nestes termos: senhora doutora, sou seu colega e queria contar-lhe o que aconteceu; te calas, aqui tudo igual… numa dicção espanholada e num tom mil vezes mais rude do que o rei de Espanha a mandar calar Hugo Chavez…Por uma porta ao fundo viam-se passar e cirandar, médicos de bata branca. Foi em vão que tentei enxergar caras conhecidas porque os médicos no auge da carreira e do saber, com o intuito de se desmantelar o SNS para benefício dos do costume, são atirados para uma reforma precoce e esbulhada, por um Estado que sem direito e sem honra, se apoderou dos fundos contributivos, que lhe tinham sido confiados mas não eram seus, e agora como pessoa de má consciência e poucos escrúpulos, altera diariamente o que ontem fixou como definitivo…como lei. Como classificar esta atitude em tudo semelhante à de roubar o mealheiro com o pequeno pecúlio e a alegria a uma criança, ou a ceia a um velho; vil, miserável…

É tempo, de todos nós médicos e profissionais de saúde, percebermos que calar é colaborar, é ser-se cúmplice, com o que se está a passar no nosso país, e no que diz respeito à saúde ficar cientes, que todos os dias se cometem omissões criminosas, que conduzem a sofrimentos e sequelas desnecessárias e se morre e vão, estupidamente em vão…

Tal como aos habitantes das regiões limítrofes dos matadouros/crematórios, bastava o cheiro pestilencial que se evolava das chaminés dos fornos, enegrecia a atmosfera como um “fog” horrendo e maldito e se colava a tudo num “fartum” nauseabundo e peganhento que lhes dizia, que lhes gritava a verdade, que contudo fingiam ignorar… todos os profissionais de saúde no activo, sabem que se estão a passar na saúde, aqui e agora, factos em tudo desconformes não só com o juramento de Hipócrates, mas até com a decência humana, que contundem com a dignidade, a saúde e a vida de quem os sofre, e também de quem os pratica se tiver consciência, e denigrem o bom nome e a honra de quem os consente, e de quem conhecendo-os, se cala.
 É claro que os profissionais da saúde também têm famílias com bocas para alimentar e tal como sobre todos os seres humanos do nosso país, paira sobre eles, a terrível sombra de um futuro incerto, futuro de que são agora fautores com um papel muito importante, mas quase a chegar ao fim, e ao cair do pano, transitarão do “glamour” e do fulgor do palco para uns bastidores bafientos e tétricos, onde desempregados ou com um salário irrisório e sem direitos, e dispostos a tudo por cada vez menos, sentirão a nostalgia pungente do tempo em que tinham o poder de mudar as coisas…e para sempre o perderam.
 Admitamos como mera hipótese que o dinheiro fluindo a rodos de Bruxelas aquando da nossa adesão (anexação) aparentemente a eito e à toa, foi na verdade empregue do primeiro ao último cêntimo, seguindo minuciosamente a sageza do plano, cumpriu os desígnios e está a conduzir-nos avassaladoramente para o desenlace final: os fins previstos.
 Abdicação vil e não outorgada pelos cidadãos, da nossa soberania, porque só é independente quem tem o bastante para sobreviver, a não ser que se readopte essa arguta forma de existência, em que as necessidades diminuem, por cada vizinho que se caça e come.
Devastação da agricultura, abate da floresta, eucaliptização dos regadios, afundamento das pescas, arrasamento do tecido produtivo, venda por uma bagatela e sem a salvaguarda do interesse nacional, antes parecendo haver o propósito de o delir, de tudo o que era público, valioso e vital (POTUCEL, REN,GALP,EDP, CTT,ANA,TELECON…) AGUAS, TAP e SNS (operações em curso).
  Criação de infra estruturas (auto-estradas, vias rápidas) bifurcando-se como bissectrizes de ângulos já agudos, dividindo o interior do país em latifúndios, enquanto paradoxalmente (ou talvez não) se procede à sua desertificação, pela abalada em tropel das empresas empregadoras, e porque o poder eleito, todos os dias lhes tira, uma ou outra das estruturas, que lá fixavam as populações: centros de saúde, escolas, juntas de freguesia, hospitais, tribunais…talvez num futuro próximo se abra a caça aos poucos teimosos que persistam em ficar.
 Criação e desaproveitamento de uma geração de licenciados, que excepto os habituais, se repartem entre doutores frustrados em empregos desadequados e de pouca monta, pelos quais porém, competem ferozmente, para gáudio e benefício dos patrões, e, os que ousam emigrar e sem o apego à pátria do Manuel da Bouça, jamais voltarão…e os seus filhos serão estrangeiros….Acresce que a esta debandada dos jovens se incrementa intencionalmente a rarefacção da nossa população pelo ataque à natalidade patente: em todo o tipo de advertências às mulheres que tendo emprego persistam em ser mães; diminuição ou supressão de todas as ajudas pecuniárias ao jovem casal; mesmo o beneficio fiscal prometido pelo eleito, já em campanha, fede a mais um imposto verde.
Aberração de tirar os filhos à mãe que deixa de poder sustentá-los. Em vez de a ajudarem, atormentam-na, tirando-lhes os filhos.
Liberalização e aceitação social do aborto para além do razoável.
Aplauso e mediatização, não da liberdade, mas da promiscuidade sexual.
Esse desejo utópico e obsessivo de imortalidade, marcante em quase todos os seres humanos, prometido e explorado pelas religiões, cujo único lampejo real se vislumbra na transmissão dos genes, é talvez o que subjaz e consubstancia o amor do amantes e o amor dos pais e faz com que de ambos possam brotar gestos sublimes ou actos horrendos, e tocar ou ferir este primomovente, nesta época de famílias precárias e pais faíscas, vistos como fotópsias, entre sessões de computador, é abrir a caixa de Pandora de que parece ter já saído um poder perverso, materializado no Testamento Vital, lei malévola e aterradora, sugerindo por si só e fartamente o que aí vem: de que os cidadãos autorizem formalmente o seu próprio assassínio, porque aos futuros e únicos prestadores da saúde (Champalimaud, Melos, Cruz vermelha, E.S, seguradoras, chineses…) não convêm clientes que não possam pagar com mãos largas, os cuidados que entendam prestar-lhes ou facturar-lhes…Imagine-se a desolação, a angústia de perceber-se o esgar de desilusão ou até ódio, que perpassa na expressão do filho, do neto, do ente querido por se não ter subscrito o testamento vital, na repartição Notarial, onde o levaram com esse propósito. Imagine-se que somos nós. A seguir virá a eutanásia sempre no interesse”do nosso querido e infeliz concidadão “ e depois talvez se reintroduzam as”linhas de montagem da morte” há tão pouco tempo encerradas…
  Abate de toda a classe média por extorsão pura e dura do que esta aufere ou aforra, porque os “ senhores” que manejam os cordelinhos da bolsa do dinheiro, manipulam também a seu belo prazer, os cordelinhos que movem e animam estas marionetas que se acoitaram na politica, e sem decência e sem honra, vão jurando sem intenção de cumprir…Persistir na dúvida, apesar da evidencia, é na minha opinião uma estupidez crassa.  

               João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º155 • Novembro /Dezembro 2014)

terça-feira, 25 de março de 2014

OS BONIFRATES


Que raio de doença terei eu, no intrincado labirinto da memória em declínio, que se fecho os olhos e relembro os nossos políticos, só atino (com) e reconheço rostos patibulares? Será a degenerescência cerebral senil, em correria de cascata, ou um fragmento e testemunho, daquilo que dantes se chamava a sabedoria dos velhos, e os tornava merecedores do respeito por eles mesmos, os velhos, e pela sua opinião?...

 Os agiotas que vivem de e para acumular os seus montezinhos de ouro e acrescentar zeros à direita do seu capital, imunes ao húmus de desolação, miséria, infelicidade e morte, que faz medrar e doura o seu dinheiro, apossaram-se do mundo ocidental”; de uma forma nunca antes conseguida pela guerra e mandatando, manipulando, comprando, corrompendo e coagindo no seu interesse, os poderes político e mediático, e o dos cidadãos com voz, (salvo honrosas excepções, que as haverá sempre) prepararam para nós cidadãos pobres do sul e sudoeste da Europa, um horrível “ghetto” em que ocupados como castas mínimas ou miseráveis épsilones não nos é dado nenhum “soma” ou elixir euforizante nem ministrada nenhuma programação que nos faça sentir bem e adaptados à nossa existência de autómatos de pequenas tarefas. Nesse mundo que já se esboça e delineia no presente, a vida humana mesmo e sobretudo na civilizada Europa, será o bem mais banal e barato, a não ser que se lhe associe qualquer particularidade que a torne importante ou imprescindível: é o homem descartável no seu auge…

  E apesar da aparente aleatoriedade das sequências é provável que tudo tenha sido cuidadosa e perversamente urdido e aplicado, e haja um nexo de causalidade planeada, consequente e conducente ao brejo pantanoso e movediço, de onde urge sair, para sobreviver.

 Tal como no velho poema de Pablo Neruda, vamos fechando os olhos ao que acontece aos outros até que o mal se abate sobre nós, e, nos esmaga, e estamos sós.

 Os mortos de “Lampeduza” encarados como longínquos e não nos afectando, deviam provocar-nos a indignação, a revolta e também o medo. No fundo provam que o homem por força da sua natureza sempre privilegiou, privilegia e privilegiará a sua inclusão em castas ou carteis e cada grupinho trata de si mesmo, e atropela e trucida os de fora, com uma impiedade sem paralelo nos reinos dos outros bichos, e, que só por mutação genética ou coagido, o ser humano porá o interesse do todo, acima do seu…É por isso que a utopia da Europa unida, de povos irmãos, com os mesmos direitos e deveres, já está delineada com traços indeléveis: lá para norte as castas de arianos, homens e mulheres de tez clara, olhos azuis, altos, superiores…cá em baixo os greco-romanos (e os ibéricos) com o sangue tinto de negro e árabe, que berço de uma civilização impar que foram, e que ainda impregna o mundo, serão tratados, não como guano, mas como excremento de cão.

 E só quem não quer, não vê, a producência dos factos:
  Bombardearam-se os países pobres da adesão com dinheiro, não a fundo perdido, que os parvos não são eles, mas em troca do abandono das suas (nossas) fontes próprias de pão, da perda da sua (nossa) verdadeira soberania. As torneiras jorraram nos locais e para os do costume, primeiro escudos e depois euros e inoculou-se nos cidadãos o vírus da ambição epidémica e inculcou-se-lhes, o complexo mil vezes amplificado, de que ser-se pobre, era ser-se um” pobre diabo”, um”coitado”.

 Espalhou-se a eito e ao desbarato a ilusão de que todos podiam ter casa própria, um filho licenciado, férias, uma “vida humana” enfim, e para dar substância ao sonho que devia ser um direito, a Banca, com a conivência e subserviência do Estado, (que até concedeu, do dinheiro de todos, benefícios fiscais, aos que se endividassem) ofereceu crédito a torto e a direito para estes endividamentos meritórios, e, aproveitou a euforia reinante, para vender a crédito e aos seus balcões, pechisbeques a preços de alta joalharia, acrescidos duns jurozitos…E perante este apelo cúmplice e consequente as famílias fizeram das tripas coração, para comprar casa (única alternativa à barraca) para dar um futuro aos filhos, para provar aos seus, a sua capacidade, que não eram, uns coitados. Os agiotas rejubilaram, porque como é seu hábito milenar, a sua segunda natureza, haviam usado de todas as cautelas, fianças e penhores nas linhas e entrelinhas dos seus contratos leoninos.

 Foi um festim hórrido e grotesco de hienas, onde se banquetearam todos os que tinham acesso ao dinheiro, ou a permissão de se endividarem, em nome do contribuinte:- rotundas de dez em dez metros; auto-estradas paralelas, concessionadas eternamente aos privados com a cominação inaudita, de que se lhes diminuísse o tráfego o contribuinte pagava uma compensação; uma dúzia de grandiosos campos de futebol para pouco mais do que um jogo, cada; aeroportos onde não aterram aviões; uma expo onde tudo foi feito à grande, até, presumo, as falcatruas; parcerias público-privadas, feitas de má-fé e prejudicando sempre o Estado, o que prova das duas, uma: ou os nossos mandatários eram oligofrénicos ou houve compensações sub-reptícias…inclino-me para a simultaneidade…

   Se um credor, agindo de boa-fé e com lisura, perante um reembolso periclitante, vê que ajudando o devedor, aumenta substancialmente as suas probabilidades de ser ressarcido, obviamente ajuda-o…Porém está na essência, desse negócio milenar, que é a usura, que depois de ferrado o penhor, o melhor mesmo, é não o largar, e tal como o papa defuntos se alegra com a morte e com o aumento do número dos funerais implícito, o agiota torce, para que o devedor não consiga resgatar o penhor. É inquestionável, faz parte da natureza do negócio.

 Admitindo também como certa, uma segunda premissa: estranha e indubitavelmente os representantes dos credores (troica) e os presumíveis representantes dos interesses dos portugueses (políticos do arco da governação) rejubilam com os mesmos factos, regem-se pela mesma partitura, fazem o mesmo jogo, conclui-se que: ou os nossos credores são de um enorme altruísmo (não se entendendo então, o porquê da exorbitância dos juros, do arrasamento dos tecidos empresarial e social, do caos de miséria e desolação que grassam) ou os nossos procuradores traíram os portugueses, e então tudo se torna lógico, coerente, óbvio, até o sorriso de vanglória, escarninho e odioso com que vêm anunciar aos velhos, aos doentes, aos cidadãos pobres, aos empenhados aos despojados, aos desvalidos, que de sobressalto em sobressalto vão ser postos fora da vida, que neste Portugal a abarrotar de democracia, só há lugar para os mais aptos, ou para os espertalhotes.

  Esta gente que vá proclamar ”o milagre económico” aos infelizes que tendo neoplasias, se vêm galopar avassaladoramente para a morte, por lhes negarem as terapêuticas oncológicas; aos moribundos aguardando o socorro, que não virá; aos doentes crónicos que se vêem definhar, por não terem posses para as deslocações, para as taxas moderadoras, para as terapêuticas, para as dietas; aos que aguardam meses e meses, ou anos, por um exame, enquanto a morte se aproxima, e os toca.

 Foi em vão que calcorreei as farmácias e me dirigi ao centro de saúde. Não consegui a vacina da gripe, apesar da propaganda mediática, de que a havia com fartura, para dar e para vender; terá feito parte de um plano?


   Quem não pretenda emigrar nem para o estrangeiro, nem para o outro mundo, deve aprender línguas germânicas: ser-lhes-ão de grande utilidade para lidar, servir e adular os novos senhores, nas suas coutadas de caça, ou os seus velhos nos retiros paradisíacos e soalheiros, onde venham passar os meses invernais da sua terceira idade, longa e farta. De pobres, passámos a parentes pobres; que queda’.        

João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º162 • Setembro 2015)

sábado, 28 de setembro de 2013

GERONTOFIL

Nestes tempos de miséria crescente a que o “eleito”chama retoma, paradoxalmente e como que a dar-lhe razão, os velhos não morrem de fome, mas habitualmente bem fornecidos de adiposidades externas e viscerais, e o seu abdómen de “batráquio”ou em “avental” não é ascite como o dos “esqueletzinhos deÁfrica” mas lipócitos a ressumar bons untos gordos, porque nos “ terceiros mundos ocidentais” é muito mais fácil comer em excesso do que comer bem, e, sem o poder saciante das proteínas, que são caras, é difícil comer pouco. Acresce que actualmente e cá, o verdadeiro pão já é mais caro do que as guloseimas e vem quase sempre enriquecido com substâncias de natureza dúbia, mas indubitavelmente não cerealífera.

  Não é só pelo avantajado do físico, que os nossos gerontes se revelam de boa cepa e de grande resistência. Há muito que os mandantes, que põem e dispõem, dos poderes político e mediático, servis e interesseiros, abriram “a caça ao velho”, e, com mil ardis de vileza crescente, tentam poupar-se, a esta ”despesa inútil da terceira idade”, e encarreira-los para a rampa íngreme, escorregadia e lúgubre, de onde, espontaneamente ou ajudados, se despenhem no vórtice insondável da morte, de que só Lázaro e Cristo  regressaram…

  O ser humano, bem tangido pela verdasca, acossado pelo medo, ou simplesmente perante a perspectiva de ganhar, desencanta dos seus recônditos íntimos, justificações plausíveis para quase todas as vilezas, e as excepções, (nas quais me não incluo), são na minha opinião, tão honrosas quanto escassas. Se assim não fosse, nunca permitiria-mos que esta gentinha que se acolheu à política, alterna na governação e faz de nós parvos, nos continuasse a apascentar, num crescendo avassalador de esbulho.

  Os velhos são assaltados nos seus bens e direitos tirando-se-lhes todos os anos um naco a mais…e fazendo-se-lhes uma campanha dissimulada e torpe, visando uma clivagem hostil de gerações, insinuando-se que são eles, que despojam o país e oneram os descendentes, como se não haver velhos, nos livrasse dos ladrões…ou os velhos tivessem a obrigação de se imolar em prol dos vindouros…

  Claro que é inaceitável, ignóbil e triste que 40% dos nossos jovens vegetem sem emprego, sem perspectivas, sem disponibilidade para criarem família e serem pais, mas não são os velhos os culpados. Estes fizeram o máximo para que os jovens tivessem o curso que eles nunca puderam ter, e são aqui e também eles, vítimas. E se sobrevivem à reforma é porque comeram as passas que o diabo amassou.

  Se de facto urge livrar o país dos velhos, não é pela supressão dos direitos, pelo confisco das reformas, pela imposição de taxas de solidariedade (que discriminam intoleravelmente os velhos) pelo aumento proibitivo das taxas moderadoras, pela reintrodução  de quotas e descontos de que a passagem à reforma (cumprindo o contrato) os isentara, que o conseguem…

 Os velhos resistirão, comendo menos, tomando a medicação só nos meses bons, faltando às consultas, fugindo aos hospitais, o que até pode revelar-se bom para a sua saúde…Se se quer de facto exterminar os velhos convidem-nos em grande número para grandes lancharadas e adicione-se à ementa toxina botulínica, recorra-se a genéricos geronticidas , a vacinas da gripe com vírus vivos,… às ampolazitas de cianeto de potássio de efeito instantâneo, indolor e garantido ou á bordoada na nuca, provada eficaz, já em Niendertal.

  O Testamento Vital a que se previa grande adesão foi um fiasco; de facto só com muita ingenuidade se acreditaria que os mesmos que nos têm amargurado a vida mostrassem tanta preocupação pelo nosso fim.
 Enquanto o senhor Primeiro Ministro, se fica pelas meias tintas medrosas do confisco crescente da reforma aos velhos sem a assunção corajosa de medidas definitivas e eficazes, a morte vai fazendo a sua inexorável  razia   e na minha opinião é quase “pecaminoso”entregar estes cadáveres anafados” à terra que os consuma”; sobretudo à terra inculta dos cemitérios; onde jazam eterna e improdutivamente, ou à voragem dos fornos crematórios de onde ascendam em turbilhões de poluição fumacenta a um céu já tão parco em ozono.

  Dê-se serventia aos velhos mortos (alguns não a tiveram em vida) saponificando-se a sua abundante matéria gorda e por  adição de essências de odores espalhafatosos, tão ao gosto dos novos ricos (classe em proliferação de praga), faça-se um sabonete, o Gerontofil, para uso interno e para exportação…Na minha opinião seria um êxito e uma forma dos velhos entrarem em lares ricos…

  É de uma credulidade excessiva, de pasmar, acreditar-se que quem nos enterrou é que nos vai tirar do buraco.                     

               João Miguel Nunes “Rocha"
  (artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS • Novembro 2013)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O Medo

          E=mc2 talvez não contenha todas as variáveis que mudam o tempo. Talvez outros factores como a angústia, o medo, o relembrar, o querer viver mais, o desejar ardentemente, o aproximar vertiginoso do fim, transmutem as dimensões do tempo e um instante possa intemporal, transcender-se, e coadjuvado, tornar-se incomensurável…
          No rés-do-chão do hospital, há a sala dos cuidados continuados onde os “acabados”, alguns ali há muito tempo, esperam hirtos que a auxiliar que leva os mortos, detenha sobre eles o seu olhar indagador e atento, que os sobressalta e apavora.
          Se pedirmos a cada um dos acabados, ainda capazes, que abram os olhos e nos fitem sentir-nos-emos atingidos por uma tristeza que nos fustiga como uma aragem viscosa e tétrica, que se nos cola e besunta como um gel gelado.
É perturbador, quase insuportável, esse olhar que adensa, soma e retém, a expressão de mil cães espancados e escorraçados pelo dono, sem razão, e assemelha-se em todos os seres humanos informados e convencidos de chofre, do seu fim. Depois da descarga de catecolaminas que nos exalta e sustém, vem o desânimo avassalador, álgido, terrível.
Se corajosos ou sádicos, olharmos com mais demora e atenção esses olhares fitos em nós, veremos que nalguns deles, em muitos deles, há mil lampejos pequeninos luzindo intermitentes, que interpretados, são mil apelos por uma injecção de ânimo e que dissecados em análises profundas e contextualizados, colocam a esperança a par do oxigénio, ambos de importância vital, indispensáveis…
           Quase todos os que ali estão, têm filhos ou famílias que os não querem ou os não podem ter, por centenas de razões plausíveis, explicáveis e explicadas quase sempre, com minúcias, expressões e tons pungentes, entrecortados por suspiros, haustos e ais, e por lágrimas que teimam em não correr, limpas ritmada e tristemente, a lenços enxutos…
Há dias que um rumor insinuando-se sorrateiramente, vindo não se sabe de onde, acrescentou mais uma labareda a este inferno já de si tão triste. Foi a notícia de que fora aprovado no Parlamento uma lei sobre a eutanásia, (não ainda a executada pelo venenozito ou pela injecção letal, mas outra ainda mais pavorosa, levada a cabo pela suspensão da terapêutica e dos meios de suporte vital) que liberalizando-a, a tornava aplicável, não só a pedido do doente mas também a pedido da sua família mais chegada. Os acabados que até aí olhavam para os filhos e para os netos, com a ternura amorosa de quem contempla o único elo material da sua eternidade, olham-nos agora de soslaio, sub-repticiamente, como quem avalia à socapa a pujança de um inimigo impiedoso e temido; as visitas, antes encaradas como um bálsamo terno, são agora esperadas com medo que a breve trecho degenera num rancor ácido, de pH suficientemente baixo, para num ápice, corroer e extinguir todos os afectos, pois não podem existir ou persistir amor ou sentimentos de benquerença, por quem nos quer, não só fora do seu caminho, o que até se aceita e se perdoa, mas fora do mundo, o que é totalmente inaceitável e imperdoável, seja por que motivo for, que no nosso interesse, não o é…
Há entre os “acabados” muitos infelizes, que afásicos e privados da eloquência do gesto, se vêm limitados a esgares ininteligíveis onde se não vislumbra nada que ateste o seu entendimento e ultrapassem a nossa competência de decifração…Sabe-se lá o que lhes vai na alma e se esta barreira que os separa das pessoas não é unidireccional, e se aterrados, percebem tudo…e se há alguma coisa mais medonha do que qualquer vida, é a morte…até os mais crentes, da gente simples aos mais altos clérigos, mesmo não o admitindo, provam-no, agarrando-se ao “aquém” até que lhes decepem os dedos…
No tempo em que as leis eram para aplicação “universal” e o legislador era sério, tinha brio e se esmerava por prever todas as hipóteses, eram excluídos da herança o médico e o padre que tivessem assistido o moribundo na sua fase final, dado o poder que tinham de sugestionar o infeliz, um prometendo-lhe a cura e o outro prometendo-lhe a vida eterna. Incluíam-se os familiares, como herdeiros legítimos, mas presume-se que a estes o doente conhecia sobejamente, para se deixar iludir… É por isso que outorgar-se à família, o poder de representar o incapaz, interpretando-lhe a vontade, me parece extremamente inadequado. Sem obviamente pôr em dúvida que a maior parte das famílias querem o melhor”para o seu doente”, desde tempos imemoriais que se sabe que o interesse prevalece em geral sobre os afectos…e a censura dos mortos, só exequível  por “vidências mediúnicas,” ou pelo remorso, que pressupõe consciência, é peso de pouca monta para os vivos e de nenhuma serventia para os mortos…
Se as galinhas não forem os animais estúpidos, que nós seres supremos, presumimos que são, será horrorosa e escusadamente cruel, a alameda do aviário onde de ovos passam a pintos, de pintos a frangos e de frangos a frangos degolados. São galinhas videntes, mais competentes do que o professor Karamba ou do que a astróloga Magda; do seu princípio adivinham o seu fim. Bastava bifurcar a recta, ocultando ao todo o destino de uma parte, para criar a esperança e acalentar em cada frango o desejo e o sonho utópicos, de escaparem à decapitação. Façamo-lo aos nossos velhos, aos nossos doentes crónicos, aos nossos inválidos…
Até os Nazis, no seu apogeu de extermínio, o fizeram. Nos grandes matadouros/crematórios de Dachau, Treblinka, Auschwits, Sobibor,Maidanek,Chelmo, Belzev, etc,etc, etc …(não só de judeus mas de todos os que divergissem da linhagem ideal dos arianos de “raça pura”, como os PIGS) os recém chegados a eliminar, eram sob o pretexto  de uma desinfestação (pediculose) e de um banho,  levados a um recinto, onde lhes pediam que se despissem e que  nus,  passassem a um simulacro de balneário, onde encerrados, eram pulverizados com o insecticida Ciclon B. Os nazis não lhes tinham mentido. Morriam sem piolhos…Façamo-lo aos nossos infelizes”acabados” por que informar seja quem for, do momento em que o vamos abater, mesmo que com o seu “acordo”, é de uma maldade excessiva…
  O que os “acabados”não sabem, porque sabendo-o sentir-se-iam apaziguados com a morte próxima, é que no mundo a que não tornarão, tudo é agora triste, sombrio e desolador e as pessoas atordoadas se movem em círculos entre escombros, cinzas e pó …do que foram sonhos, projectos, vidas…
           E todos os dias vêm acusá-los de uma dívida, mesmo aos que nada tiveram nunca, fazendo-as sentirem-se culpadas como nos pecados mortais da infância, em que se acreditava sem contudo se perceber.
  Os que se atrevem a olhar para o recôndito onde as verdades se despem, há muito que perceberam, sem margem para ilusões, que:
            A exorbitância dos juros da “dívida” exclui por si só, qualquer propósito de ajuda.
            A relutância obstinada em renegociar os “juros” alegando honra e credibilidade quem não teve pejo, de enganar os cidadãos que o elegeram, e de descer à vileza maldita, de amargurar os últimos dias dos velhos, não é crível.
            A pressa frenética que demonstram em privatizar tudo, por “quanto menos melhor”, mostra claramente ao que vieram…
             A própria maneira exagerada como representam o seu, já de si, odioso papel, acrescentando-lhe incerteza, “suspense” e uma desalmada canalhice, é excessiva, pelo que obviamente faz parte do plano, porque não se pode ser tão estúpido e ter-se aprendido o abecedário.
              A história sem fim, do cidadão que viveu acima das suas posses, o suposto pedido depois de uma reunião de todos os banqueiros, prova, na minha opinião que estamos a viver um enorme”conto do vigário”. Até Sua Reverência o Senhor Cardeal nos veio advertir da inutilidade das contestações…
              Depois de um empréstimo sabiamente calculado para extrair o máximo ao pedinte, este esvaído, deixa também o penhor. É assim que há milénios os agiotas enchem as suas arcas de ouro, e é por isso que nem os que lhes deveram, lhes ficaram gratos.
              Findo o seu desempenho de “mandarete de rapina”, o eleito vai desarvorar deixando um país devastado, cruzado por abundância de auto-estradas onde se paga por não passar, conduzindo a desertos desabitados e a frondosos eucaliptais, pronto à invasão do “capital” , sobretudo dos que muito levam, pouco trazem e nada dão…
              Os nossos grandes empresários quase todos estabelecidos no ramo da mercearia, explorarão também a saúde no cargo tríplice da engorda, do tratamento e da matança…
              Quem podia fazer alguma coisa age prudentemente, que cautela não é medo, não vá o poder cair-lhe precocemente no colo, derreando-o…
              Raio de mundo:
              Esbulham-se os velhos, os doentes, os cidadãos contribuintes, impede-se-lhes o acesso aos medicamentos, às terapêuticas, aos cuidados paliativos, criam-se situações de medo e de motivo para o ter, e abre-se-lhes a porta à morte garantida pelo Testamento Vital, cuja coexistência com uma medicina idónea, bem praticada e de acesso garantido seria de interesse residual, mas que num futuro próximo em que a saúde seja o “Grande Negócio”, fará todo o sentido.
 Os doentes pobres vão morrer mal esgotem o pecúlio ou o crédito e os doentes ricos (desde que saibam precaver-se dos herdeiros) vão aproveitar-se de todas as evoluções, e de terapêutica em terapêutica, de transplante em transplante, viver até de que deles próprios só sobrem, meia dúzia de neurónios entre ateromas e glia, mantendo vagas reminiscências do que foram num passado distante, sem contemporâneos sobrevivos…
 Estão a comer-nos as papas na cabeça. Tudo é preferível a este buraco negro onde  o medo e o desespero abundam e alastram e de onde a esperança se esvai…
                                              
João Miguel Nunes “Rocha”
(artigo publicado na revista de JAN/FEV 2013)