O presente "Blog" constitui um repositório de artigos que foram enviados para publicação ou publicados na revista da ordem dos médicos. A sua compilação é aqui disponibilizada para que, além dos leitores da revista da ordem dos médicos, outros também possam refletir sobre um extenso rol de inquietações que este moderno mundo em convulsão nos acomete...!
sexta-feira, 2 de agosto de 2019
MOLÉCULAS MEGALÓMANAS
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quinta-feira, 27 de setembro de 2018
AGACHEM-SE CIDADÃOS
Não é preciso ajudar a morte; qualquer que seja a nossa idade ou condição, ela virá numa voragem avassaladora e faccionar-nos-emos por outras paragens e por outros seres, haja ou não haja Deus…
Como é possível que médicos com discernimento bastante, defendam a eutanásia, sendo certo, que muito poucos, se viram confrontados com alguém com o desejo genuíno de morrer, e todos sabem que no nosso País, os cuidados paliativos são escassos, exequíveis para uma minoria ínfima de privilegiados?
A nossa natureza egoísta, impiedosa e brutal norteia a vida e campeia entre nós primatas desde os alvores da evolução; onde quer que a espécie humana prolifere ou definhe, sempre haverão guerras, crimes, cumes de iniquidade mas contra o que seria de supor esta característica genética, não mingua, antes se aprimora de geração em geração: das pirâmides de cabeças humanas degoladas pelos mongóis no furor das invasões, à organização metódica de linhas de montagem da morte e da incineração nos campos Nazis, há todo um glaciar de maldade gelada.
Um avião - o Enola Gay -, duas bombas atómicas e duas cidades são apagadas com os seus milhões de seres humanos e os seus cogumelos de fumos cancerígenos e mutagénicos levados pelos ventos dominantes, para paragens longínquas e com efeitos que ainda hoje perduram. Uma história grosseiramente urdida, a motivação do costume, quatro homenzinhos petulantes, a posarem com desfaçatez para a galeria das aberrações, e, eis o Iraque vítima de uma matança sem dó nem perdão, que pese embora todos os epítetos, só pode ser descrita como crime hediondo. Um povo unido por uma religião, errante, porque sempre perseguiu o “Velo de Ouro” acoita-se em Israel e servido pelo poder económico, dono de todos os poderes, alarga espaço esbulhando os palestinianos e a uma pedrada, responde com uma carnificina.
No nosso país as rendas de casa congeladas cem anos, permaneceram-no depois de Abril, transformando os inquilinos em privilegiados e os proprietários em pedintes que sem recursos e sem saídas acabam por vender o património por preços irrisórios aos do costume, que lhes entaipam as portas e as janelas ferindo de morte o mercado de arrendamento. Para escapar à barraca, a classe média empenha-se para a vida, e para dar uma ajudazinha à especulação e à agiotagem, o ”Estado Cúmplice” deu do dinheiro de todos, benefícios fiscais aos que se endividassem. Paralelamente, prosseguindo na senda do esbulho criou-se uma bolsa manipulada que deu origem à frase ”as árvores não chegam ao céu (única, da criatura, de que me lembro) e ao desabar repentino, dos valores cotados; O IGCTP alterou os juros dos certificados de aforro e para induzir a desconfiança e a mudança das poupanças, informou por escrito os aforradores, de que não o fizera, e, o BPP e o BPN faliram fraudulenta e fragorosamente sendo o ónus assumido à força pelos depositantes e pelos contribuintes. A bolha imobiliária cheia de ganância de ar e de falcatruas, estourou, mas antes que rebentasse, os agiotas puseram o seu a bom recato (paraísos fiscais, contas de amigos, divórcios fictícios…) e eis o “drama/farsa da TROIKA” e dos cidadãos chamados a salvar e a lavar a honra dos bancos, como se ao dinheiro dos contribuintes fosse um sabão, ou os enxovalhos da honra susceptíveis de tirar e pôr.
E eis-nos chegados ao cimo do presente: um país de rastos com uma população envelhecida e esbulhada, sem recursos para viver, quanto mais para se tratar (taxas moderadoras, transportes, terapêuticas, enormes listas de espera) escorraçados pelas seguradoras porque são velhos e porque são doentes, coagidas ao SNS, que neste contexto e neste país, parasitado por Parcerias, Fundações, Misericórdias, Privados, Chineses, resvala para a indigência e para a ineficácia apesar das enormes verbas que o cidadão é obrigado a descontar. E, é neste cenário e neste contexto, que se clama a premência de aprovar a Eutanásia, no interesse dos doentes, pasme-se, como se a morte fosse a grande ambição, e,abundassem por aí ajuntamentos de doentes, a pedir que os matassem.
É claro que fora do circulo estrito dos “candidatos”, fervilham os interesses na sua aprovação, como aliás se viu nas votações, mas na minha opinião a eutanásia é um crime horrendo qualquer sejam os pressupostos que invoquem e tal como a interrupção voluntária da gravidez não é feita em beneficio do ser humano que vai morrer mas nos da mãe, cuja bondade não questiono, a eutanásia serve muitos interesses, mas encurrala e exclui o padecente, e invocar a dignidade para oferecer aos doentes o” sumozinho envenenado” só prova o cume de indignidade a que chegámos.
Entre os interesses que anseiam por um ventinho na alheta, há a classe política que em tempos de vacas magras tem de limitar- se a pequenas trafulhices como alegar moradas falsas… receber vários abonos, por viagem… as seguradoras, que se o estado se tornasse honrado, ver-se iam coagidas a manter os seguros dos doentes cuja saúde exploraram…As clínicas e os Doutores morte que antevêem um belíssimo ganha pão, e claro, porque não admiti-lo, os familiares do “voluntário”, sobretudo agora que o SNS deixou de poder ser usado como um asilo e perpassa nos média, a ameaça de coagir as famílias a cuidar do seu doente, tenha ou não possibilidades e ou afectos.
A vida moderna com as suas imagens virtuais subliminares, matou muito do que sensível havia no ser humano (que nunca primou pela bondade) mas se chegámos a este ponto, em que nos parece desejável encurtar a vida dos que nos amaram, negando-lhes os cuidados continuados, os cuidados paliativos e os nossos cuidados, porque não esconder do doente a intenção e matá-lo de surpresa?
Por que recorrer a estes embustes para dar uma aparência de compaixão é o cúmulo da cobardia e da impiedade! Opção livre uma ova; o “doente voluntário” vai responder sim, porque não lhe trataram da dor e dos padecimentos, porque se viu confrontado com o olhar torvo pleno de enfado dos familiares mais queridos, e ao seu sofrimento, aduziu-se acrescendo-lho incomensuravelmente, um imenso desânimo… e o infeliz, querendo esconder-se do horror de si próprio, pede “voluntariamente” que o matem.
Agachem-se cidadãos e em breve seremos uma minoria na nossa Pátria de mil anos, afadigados em trabalhos de criadagem, serviçais e subservientes.
João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS n.º193 • outubro-novembro 2018)
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segunda-feira, 12 de março de 2018
CATADUPA ALARVE
A morte de neurónios cerebrais que todos os dias acontece
contribui para a segunda infância dos velhos, que pasme-se: conservam a memória
da história pregressa longínqua, pormenorizada e nítida, e, esquecem o que se
passou há meia hora…
Ainda agora ocorreu-me numa associação atabalhoada de
catadupa alarve, a história do lobo e do cordeiro, contada no livro de leitura
da minha segunda classe, depois pensei na calamidade dos incêndios, na minha
opinião maioritariamente ateados a mando dos “interesses”, e, nos cento e tal
mortos em vão… e desta ideação saltei para a obrigação, pesadamente sancionada,
de limpar os matos e não só, até 15 de Março impreterivelmente, não obstante os
temporais, expondo a terra nua e os calhaus, à vista e à erosão, como nas paisagens
mais desoladas de um planeta aterrador. Como se participasse numa “sessão espírita”,
ouvi vinda de longe, a voz fanhosa, prepotente e odiosa da minha professora de Ciências-Naturais
a explicar a função clorofilina e a sua estreita ligação ao verde das plantas, quer
sejam cardos, giestas, estevas, silvas ou hortas mesmo que salpicadas com o
vermelho dos tomates.
Agora, como que num flash de lucidez, ocorreu-me, vá-se lá
saber porquê, se vamos importar o oxigénio da Alemanha ou se vamos compra-lo à
Celulose do Caima, à Portucel ou à Industria do Fogo…
Será o Alzheimer? Ou será que atingimos um patamar de
iniquidade tal, que tudo é lícito desde que sirva o Capital?
João Miguel Nunes” Rocha”
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quarta-feira, 7 de março de 2018
La dona é mobile
Os gerontes que atinjam a vetusta
idade da aposentação e, não tenham a boa ou a má sorte, de se finarem “in actu e in situ”, devem preparar-se para uma abalada suave, indolor e de
motu próprio, porque neste admirável mundo novo globalizado, as leis que preconizam
e favorecem a morte, prevalecem sobre as que protegem a vida (interrupção
voluntária da gravidez, testamento vital, eutanásia, aplicação da pena de
morte…) e aos velhos, untou-se e besuntou-se o declive ingreme, que sem arrimo
ou corrimão, os privilegiados longevos, têm de descer.
Os ratos abandonam o barco que se
afunda, muitas famílias cientes e ciosas do pedigree dos seus cachorros ou
bichanos, abandonam o parente doente ou velho que se esvai, e os nossos grandes
empresários que mercadejam com os comes e os mui honestos banqueiros que mercadejam
sem princípios, dizem e são unânimes, que é preciso ir buscar mão-de-obra onde ela
abunde e barateie, sem restrições de fronteiras que são coisas antiquadas que
só favoreciam os contrabandistas e deste excesso de humanos, se aproveitem
apenas os mais aptos e se deixem os que sobejam vegetar, até que se instalem no
subsolo.
Nesta próspera evolução a mando
do ”papá económico”, pai biológico de todos os poderes, paira, sobre todos os
futuros individuais e colectivos da plebe trabalhadora, pensionista ou subsídio-dependente
e também sobre os” potenciais pobres diabos ricos” que entregaram a gestão da
sua reforma a fundos de investimento, a seguradoras, a bancos e a outras Donas.
Brancas…, a sombra terrível, da “volubilidade
das regras na hora de pagar” porque todos os contratos novos têm entrelinhas
ambíguas e miudinhas, que os anulam unilateralmente, caso os factos para que
foram subscritos e pagos, aconteçam (Siresp, Saúde, Reforma…) e os contratos
antigos que eram de boa e honesta redacção são crivados por leis retroactivas
que lhes esbulham a eficácia, configurando uma ”falcatrua legal”.
O roubo por leis ao alvo, que
marca o fim do Estado de Direito, iniciou-se no princípio da última década do
século passado e dele foram vítimas preferenciais os do costume e com particular
acutilância os médicos que trabalhando no SNS tinham (às vezes com perdas significativas)
optado por subscreverem a CGA e a ADSE. Nesses tempos de vacas obesas, a necessitar
da colocação de bandas gástricas, em que o dinheiro jorrava de Bruxelas numa abundância
de engodo e de embuste, e o ordenado dos funcionários públicos passou a ser tributado,
abriram e proliferaram,” num exagero à portuguesa” as clínicas de fuga ao
Fisco, que por maroscas e cosméticas emagreciam o irc e menos eficazmente o irs
(os ricos serviam-se de custos sumptuosos e de paraísos fiscais, os remediados
faziam contas poupança-habitação, reforma e outras e os pobres pagavam e calavam).
Estes esquemas nasceram de uma cumplicidade entre o governo e os bancos em que
todos perdiam menos estes. E eis-nos na história da tanga e na pose graciosa do
protagonista nas Lajes, sorrindo e mentindo, com desfaçatez vomitiva.
E a bolha imobiliária rebentou, e
a conta na vez de ser imputada aos fautores usurários, passou para os cidadãos
no ”drama/farsa do Resgate” e da honra, de não renegociar a dívida ou os juros
da dívida.
E, como o dinheiro não se
multiplica por cissiparidade como as células, nem Bruxelas no-lo dá, eis-nos
chegados a um risonho presente apanágio de um encantador futuro, em que há um aumento
diário da esperança de vida, para diminuir as reformas, a eutanásia para
diminuir a velhice e os custos das terapêuticas, os incêndios para engordar os
lóbis e esbulhar o pequeno proprietário da floresta e o ataque ao SNS para
favorecer a indústria da doença… E, como nos contos de fadas mais lindos e mais
utópicos, só os ricos adoecerão. Os pobres terão atingido enfim, um estado de
boa saúde desde que nascem até à defunção.
João Miguel Nunes” Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS n.º187 • Março 2018)
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quarta-feira, 7 de junho de 2017
OS HOMENS ENCOLHIDOS
Os velhos e os doentes no limiar
da outra vida ou (arredando dogmas, sonhos e utopias) a um passo, do “pó ao
pó”, têm sobre os outros cidadãos a enorme vantagem de em breve serem acometidos
por uma mudez definitiva e por uma frieza gelada, refractária e avessa aos lumes
que ateiam os rastilhos dos rancores e das vinganças, além da notória
decadência e fragilidade que em geral precede o fim, tolhendo-lhes a defesa e
tornando-os os alvos preferenciais destes guerreiros que pejam e se acoitam nas
elites e que se pelam por ir à luta sem dar a cara, ou arriscar o pelo, e, que
sem um resquício de bondade ou de decência, desceram à vileza desalmada de
associarem a abundância da velhice, ao afundamento do país e à deriva sem
perspectivas dos jovens, criando de propósito, uma clivagem hostil de gerações que
aduz à já mísera solidão dos velhos, uma barreira de antipatia glacial e de
aversão, que dão azo, a todo o tipo de abusos: espancamentos dentro e fora do
seio familiar, fome verdadeira, aprisionamento em enxovias que teriam aterrado
Dante, e inspirado Satanás a redecorar as ”profundas”.
Que raio de mundo é este, que
fervilha e medra à nossa volta, com livre trânsito perante a nossa complacência
em que todos os dias vemos trucidados pelas elites os princípios mais básicos
da equidade e a decência, que presumimo-lo, norteia a maior parte dos seres humanos.
Estão a cortar-nos rentes as vias de saída ascendentes e as saídas descendentes
que nos propõem são cada vez mais dúbias, tortuosas e tão ingremes que parecem
insusceptíveis de desembocar na luz.
Tidos por néscios e
prostibulários em Bruxelas e como meros pagadores de impostos e eventuais
eleitores sugestionáveis, de raciocínio parco e lerdo, pelas nossos, que se de
outro modo o fossemos, não nos viriam com as explicações inverosímeis, que
espantam pela singeleza, que só podem advir do pouco empenho a que recorreram,
mesmo aduzindo a pobreza neuronal implícita.
E, que raio de gente somos nós,
que permitimos, que o ónus brutal do resgate, imposto pelos banqueiros a um
governo “faz de conta” seja pago e repago pelos cidadãos, mesmo pelos que ironicamente
nunca puderam abrir uma conta bancária, e a banca, na vez de gratidão, abra falência
fraudulenta em catadupa, apoderando-se do pecúlio aforrado em vidas inteiras de
trabalho e de privações e sob o pretexto vetusto, de uma credibilidade há muito
finada, nos imponha o conto “do banco bom, banco mau” e respectivos encargos
presentes e futuros, que outra coisa não é, do que troçarem de nós e
amputarem-nos o futuro, amputação esta que deve ser tomada em sentido literal,
se a eutanásia for aprovada, porque agora, que os poderosos e os estrangeiros,
esgaravatam em tudo o que deveria ser, só público, vai iniciar-se uma época de
terror e de selecção, de ”doente rico, doente pobre”…. Em que o doente rico só tem
a temer as situações que tornem prevalecente a vontade dos herdeiros, e o
doente pobre, acossado pelo sofrimento, olhado glacialmente e com enfado pelos
seus, sentindo-se o encargo que realmente é, com a autoestima num pélago abissal,
vai “às cavalitas do medo e da angústia” pegar “voluntariamente” no copinho de
“cicuta” dado pelo simpático algoz de bata branca.
Nós, os médicos, vinculados pelo
Juramento de Hipócrates, à exclusão da morte como tratamento, não devia-mos enfileirar
nunca, na lista de pretendentes aos lugares de carrasco que isso não nos trará
honra e mutilará para sempre a confiança dos doentes, mas denunciar, isso sim,
a carência quase absoluta, de cuidados paliativos e continuados públicos, o que
faz com que a eutanásia a “pedido do doente pobre” aqui e agora, (se aprovada)
não seja uma opção mas a inexorável e única alternativa ao sofrimento… e, se
por um momento que seja nos pusermos no lugar do outro, sentiremos como
obrigação inadiável, exigirmos, a criação de cuidados paliativos a que todos
sem excepção, possamos recorrer.
Que raio, nós que fomos pioneiros
na abolição da pena de morte, vamos reintroduzi-la, para os deserdados…
Podemos não saber de quem é a mão
que segura a batuta que rege a orquestra que marca o passo da nossa” dança
macabra” em execução, mas temos olhos e percepção para enxergar os mandatários
que mantêm há anos uma relação simbiótica ou parasitária com a coisa política,
e que ao vir justificar-se mediaticamente, na vez de desenxovalhados saem
encolhidos como a roupa de má qualidade ao ser lavada. E abundam na política como o
caruncho na madeira afectada, ao dar sinal…
João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS n.º119 • Maio 2017)
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS n.º119 • Maio 2017)
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domingo, 12 de março de 2017
A HISTÓRIA PREGRESSA DOS GERONTES
O velho acordou sobressaltado e ainda estremunhado enrodilhou-se na cama como uma enorme orelha apontada, pronta a caçar qualquer ruído provindo do quarto do filho e da nora, mas tudo se fechara no silêncio opressivo das noites cálidas de verão no campo, que escutadas depois de se suster a respiração, despertam em mil sons miudinhos, quase no limiar da audição ao princípio, mas que num crescendo proporcional à nossa atenção, se desdobram e se definem em pios, roços, farfalhos, sibilos, roncos, estalidos, haustos, suspiros,… como se a noite se tivesse povoado e fervilhasse de duendes invisíveis atroando os ares, com os seus sons dispneicos e asmáticos…e, que revelam a actividade voraz dos seres miniaturais que connosco partilham todos os espaços do nosso mundo tridimensional e de cuja existência nem sequer nos apercebemos na nossa pressa frenética, humana e inútil de não querer gastar tempo, acabamos por não o viver sequer, porque a realidade só existe e só nos roça, no lampejo do momento que passa, e se vai…
Ainda bem que acordara porque no seu pesadelo, vira-se a descer as escadas do Notário com os filhos e as noras, aos quais passara procuração irrevogável sobre todos os seus proventos e bens, passando a indigente… Não corria porém o risco de cometer tal erro, pois tivera um amigo que o fizera, e no próprio dia, fora trasladado de casa para um lar de terceira idade dos mais miseráveis, onde sorrateiramente o sedavam, para poupar na mão-de-obra e no “obrar” e se possível engulhar-lhe o apetite. Não durara porém muito o calvário do amigo, porque durante o “milagre económico”, ainda apregoado por certas almas penadas que por aí andam sem perceber que estão politicamente mortas, a família achando que ficaria muito mais barato manter o velho em casa com ração reduzida e em metabolismo basal e amanharem-se com a mensalidade do lar, foram dar com ele sentado na sua cadeirinha de plástico branco, mas já rígido e frio, como peixe na arca…
O funeral só não foi ”à marinheiro” com lona e lastro, ou uma cova num barrocal, porque a lei não o permite e o pune, mas foi cremado, que fica mais barato, embora também se não perceba que interesses pretende a Lei proteger, quando obriga a que o finado seja incinerado de mortalha e caixão, quando enfaixado num lençol em” múmia”, como as nossas enfermeiras tão bem fazem, manter-se-ia a moralidade e o decoro, gastar-se-ia menos e diminuir-se ia o efeito estufa, tão nefasto ao planeta.
Apesar da especialidade de oftalmologia com os seus aparelhos e técnicas, não ser das mais propícias à intimidade e atreitas ao desabafo em que se abre o coração, eis uma historia pregressa que ouvi muitas, muitas vezes e cujo desenlace foi quase sempre, a cadeirinha de plástico dum lar das Misericórdias ou dos Inválidos do Comércio, se privilegiados, mas muito pior, quase sempre, onde letárgicos porque deprimidos e ou sedados, olhavam sem necessidade de olhos, para um passado ainda próximo, mas já tão intangível e distante, como a juventude eterna ou o amor para sempre…
Podem existir netos, bisnetos, milhentos entes queridos, que nunca mais farão parte do quotidiano do velho, tão longe e inacessíveis, como se defuntos, e, causando-lhes mais dor do que se o estivessem de facto, porque à tristeza da ausência soma-se a amargura do abandono e do ostracismo.
Quer sejam santos ou pecadores, é neste mísero inferno que desaguam e são arrumados em camas estreitas e bem juntinhas, os nossos gerontes, quando um destino malévolo lhes abate a autonomia, ou são aliciados com engôdos, em que a simulação de ternura e a carência famélica dela, desempenham papeis primordiais, para que a presa se atole no lamaçal de ardis e fique refém, dos que ama… ou que amou…
À medida que divagava, na modorra em que flutuava desde que acordara, o torpor foi dando lugar ao estado vígil e de repente, com o sobressalto e a dor excruciante, de quem é ferroado por uma vespa ou picado por um lacrau, percebeu que não acordara de um pesadelo… e, que na véspera, cedera a sua tutela aos seus…
Entrou em profunda depressão, intercalada por acessos de raiva que lhe acordavam a moinha retro esternal da ”angor pectoris” quando uma ou outra das noras, lhe trazia a malga com a parca ração e o olhava, já não com o olhar terno e meloso do período de persuasão, mas com o desdém triunfante, de quem apanhou enfim, o detestado rato, e se delicia a vê-lo debater-se em vão.
Acresce aduzir, que caso se tratasse de um belga, era natural e até provável, que lhe fosse prescrita a eutanásia, como a solução que a todos contentaria: a família herdaria os bens e os tarecos e livrar-se-ia do tropeço, o estado pouparia no encargo e o velho seria definitivamente curado da sua depressão.
No nosso atrasado Portugal, a velhice escorre, desagua e atafulha os lares seniores e outros sítios secretos infernais, onde se morre de tristeza e se põem os velhotes a saltitar nas suas artroses e a bater palmas para as visitas importantes, numa pretensa alegria tonta, que faz doer o coração de quem vê e o tem. Em breve porém, evoluiremos como Bruxelas, para a civilização e o civismo plenos, a bem ou a mal, como está patente nas ameaças do ministro das finanças de um certo ”país dono”, ou nos vaticínios e premonições dum morto-vivo, que se tivesse direito a cognome, este seria o de “Terror do velhos e dos pobres diabos”.
Como geronte que discorda dos destinos supracitados e teme os que estão para vir, venho apelar à bondade (se a houver) e sugerir que se proceda à partida dos velhos, empanturrando-os de alegria, fornecendo-lhes as terapêuticas, os tónicos e um substrato capaz para se alambazarem. Aos perfeitos e/ ou refractários, proceda-se com a subtileza dos ”Bórgia” e não de maneira boçal e brutal.
João Miguel Nunes ”Rocha”
( Março de 2017)
Ainda bem que acordara porque no seu pesadelo, vira-se a descer as escadas do Notário com os filhos e as noras, aos quais passara procuração irrevogável sobre todos os seus proventos e bens, passando a indigente… Não corria porém o risco de cometer tal erro, pois tivera um amigo que o fizera, e no próprio dia, fora trasladado de casa para um lar de terceira idade dos mais miseráveis, onde sorrateiramente o sedavam, para poupar na mão-de-obra e no “obrar” e se possível engulhar-lhe o apetite. Não durara porém muito o calvário do amigo, porque durante o “milagre económico”, ainda apregoado por certas almas penadas que por aí andam sem perceber que estão politicamente mortas, a família achando que ficaria muito mais barato manter o velho em casa com ração reduzida e em metabolismo basal e amanharem-se com a mensalidade do lar, foram dar com ele sentado na sua cadeirinha de plástico branco, mas já rígido e frio, como peixe na arca…
O funeral só não foi ”à marinheiro” com lona e lastro, ou uma cova num barrocal, porque a lei não o permite e o pune, mas foi cremado, que fica mais barato, embora também se não perceba que interesses pretende a Lei proteger, quando obriga a que o finado seja incinerado de mortalha e caixão, quando enfaixado num lençol em” múmia”, como as nossas enfermeiras tão bem fazem, manter-se-ia a moralidade e o decoro, gastar-se-ia menos e diminuir-se ia o efeito estufa, tão nefasto ao planeta.
Apesar da especialidade de oftalmologia com os seus aparelhos e técnicas, não ser das mais propícias à intimidade e atreitas ao desabafo em que se abre o coração, eis uma historia pregressa que ouvi muitas, muitas vezes e cujo desenlace foi quase sempre, a cadeirinha de plástico dum lar das Misericórdias ou dos Inválidos do Comércio, se privilegiados, mas muito pior, quase sempre, onde letárgicos porque deprimidos e ou sedados, olhavam sem necessidade de olhos, para um passado ainda próximo, mas já tão intangível e distante, como a juventude eterna ou o amor para sempre…
Podem existir netos, bisnetos, milhentos entes queridos, que nunca mais farão parte do quotidiano do velho, tão longe e inacessíveis, como se defuntos, e, causando-lhes mais dor do que se o estivessem de facto, porque à tristeza da ausência soma-se a amargura do abandono e do ostracismo.
Quer sejam santos ou pecadores, é neste mísero inferno que desaguam e são arrumados em camas estreitas e bem juntinhas, os nossos gerontes, quando um destino malévolo lhes abate a autonomia, ou são aliciados com engôdos, em que a simulação de ternura e a carência famélica dela, desempenham papeis primordiais, para que a presa se atole no lamaçal de ardis e fique refém, dos que ama… ou que amou…
À medida que divagava, na modorra em que flutuava desde que acordara, o torpor foi dando lugar ao estado vígil e de repente, com o sobressalto e a dor excruciante, de quem é ferroado por uma vespa ou picado por um lacrau, percebeu que não acordara de um pesadelo… e, que na véspera, cedera a sua tutela aos seus…
Entrou em profunda depressão, intercalada por acessos de raiva que lhe acordavam a moinha retro esternal da ”angor pectoris” quando uma ou outra das noras, lhe trazia a malga com a parca ração e o olhava, já não com o olhar terno e meloso do período de persuasão, mas com o desdém triunfante, de quem apanhou enfim, o detestado rato, e se delicia a vê-lo debater-se em vão.
Acresce aduzir, que caso se tratasse de um belga, era natural e até provável, que lhe fosse prescrita a eutanásia, como a solução que a todos contentaria: a família herdaria os bens e os tarecos e livrar-se-ia do tropeço, o estado pouparia no encargo e o velho seria definitivamente curado da sua depressão.
No nosso atrasado Portugal, a velhice escorre, desagua e atafulha os lares seniores e outros sítios secretos infernais, onde se morre de tristeza e se põem os velhotes a saltitar nas suas artroses e a bater palmas para as visitas importantes, numa pretensa alegria tonta, que faz doer o coração de quem vê e o tem. Em breve porém, evoluiremos como Bruxelas, para a civilização e o civismo plenos, a bem ou a mal, como está patente nas ameaças do ministro das finanças de um certo ”país dono”, ou nos vaticínios e premonições dum morto-vivo, que se tivesse direito a cognome, este seria o de “Terror do velhos e dos pobres diabos”.
Como geronte que discorda dos destinos supracitados e teme os que estão para vir, venho apelar à bondade (se a houver) e sugerir que se proceda à partida dos velhos, empanturrando-os de alegria, fornecendo-lhes as terapêuticas, os tónicos e um substrato capaz para se alambazarem. Aos perfeitos e/ ou refractários, proceda-se com a subtileza dos ”Bórgia” e não de maneira boçal e brutal.
João Miguel Nunes ”Rocha”
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
O HOLOCAUSTO DOS ÓNUS
No Mar Mediterrâneo, perto das costas de Lampedusa, rentes à tona, entre destroços e imundícies reunidas no estofo das marés mortas, cadáveres ventrudos vogam nas correntes mansas, semelhantes a medusas enormes, gelatinosas e horrendas. Migrantes encurralados em redis, guardados por cães lobos e por lobisomens, lutam contra as privações, contra o medo e contra a angústia de um destino incerto…e contra o terror-pânico, da sua devolução ao demónio. Homens-bombas, fazem-se explodir em estilhas sangrentas, que se juntam aos corpos esquartejados das suas vítimas. Haverá neles apenas o desejo de fazer mal? Que enorme poder ou desvario, lhes serve de motivação e lhes dá ânimo!... Emigrantes, sobretudo de África e dos PALOP, tornam-se malquistos, por disputarem aos nossos, os empregos já de si escassos e permitirem aos patrões, permutarem salários parcos, por salários de miséria.
Por analogia, a nossa situação presente, traz-me à memória os romances de Ferreira de Castro:-rurais pobres, querendo tenazmente aumentar as suas courelas e mudar a sua sorte, eram aliciados pelos do costume, e para poder partir, empenhavam-se; chegados ao “ Eldorado,” nas entranhas e nos confins do sertão brasileiro, tinham de comprar, fiado e a preços exorbitantes, as ferramentas do trabalho e o sustento, contraindo uma dívida, que ia aumentando a cada safra, amarrando-os inexoravelmente a uma servidão sem grilhões, mas tão amarga, penosa e letal, como a escravatura nas minas de salitre ou nas galeras, da Roma Imperial. Os únicos que enriqueciam eram os “Nunes”, que mercadejavam com a miséria…
Como se lhes assemelha o nosso destino, depois de esbanjarmos a nossa soberania e abdicarmos da nossa moeda, para nos metermos nesta Europa, que não nos quer como iguais, mas como meros serviçais: restaurantes, turismo, sexo, mar, sol, aqui…e, nos países deles, licenciados de grande competência formados com o dinheiro dos seus pais e o dinheiro dos nossos impostos, ou mão-de-obra braçal, diferenciada, barata e descartável. Na minha opinião não há nada (ou muito pouco) de espontâneo nos ”media” e não é por acaso que se dá tanta importância à cozinha: urge apaparicar os nossos donos porque o nosso futuro é, de subserviência e de bandeja.
E, como pano de fundo, deste quotidiano que se vive há duas década, elites medíocres que se sucedem (um até começou de tanga, vestia já fato e gravata, quando posou nas Lajes para a galeria das aberrações e, ascendeu ao topo da banca, onde se jogam os destinos de povos e o saque do mundo), servindo de paus-mandados, ao poder oculto e maligno, que está a conduzir a Europa e o mundo para mais uma hecatombe, usando à tripa-forra três armas letais: a força da guerra, a força do medo e a imensa força do poder mediático, formatando opiniões e subvertendo indelevelmente as democracias.
Mesmo agora que esse senhor choramingas, que democrata, quis tornar todos os portugueses pedintes, e que parece desejar-nos mal, com as suas premonições lamurientas, tão a despropósito como uma carpideira pranteando-se fora dos funerais, foi arredado, e que o presidente da república, parece a antítese dessa “trindade” muralhada e intocável, vá-se lá saber por que virtudes ou méritos, e que foi, isso sim, um dos fautores do atoleiro onde nos enterrámos. O Presidente Marcelo ao contrário do seu antecessor, não mostra receio de contágio ao beijar cidadãs comuns ou medo de beber um copo, com o povo que o elegeu.
Goste-se ou não, é um facto.
Embora com a mudança política, haja já, quem ouse ter esperança, persiste envolvendo-nos como uma carapaça intangível e inexpugnável “a dívida e o serviço da dívida” tolhendo-nos qualquer movimento ou perspectiva de ascensão. É a vontade da” Europa Dona” granítica, inamovível e implacável, em relação aos fracos e cujos propósitos são inconceptíveis de outra interpretação: posse absoluta de Portugal, com o mínimo de ónus e com uma multiplicação dos úberes…
A prová-lo, há a verborreia que antecede a aprovação dos orçamentos por Bruxelas, e que apesar da facúndia, já todos sabemos de cor: - cortem nos salários, nas pensões (mesmo nas contributivas), na segurança social, na saúde, na despesa pública… aumentem-se os impostos e canalize-se o dinheiro do contribuinte para “salvar” os bancos falidos por falcatruas premeditadas e “salvos estes” urge vendê-los aos estrangeiros por preços patéticos etc, etc… Enfim, privatizar, entregando- nos, tudo o que seja lucrativo, e eliminar, por inútil, tudo que só sirva os contribuintes portugueses, sem render. É neste contexto e visando aumentar a ordenha, que se insinua e avulta, a premência de discutir e aprovar a eutanásia: - que importa que não existam cuidados paliativos públicos e acessíveis, se mesmo sem os haver, a fase terminal e fatal das doenças, já é tão cara…Proceda-se com discernimento e abrevie-se o sofrimento do infeliz (morte digna, precoce e baratinha), se for pobre, e, se for rico, mantenhamo-lo vivo o mais possível, não obstante a melancolia dos herdeiros… Até a Santa Casa da Misericórdia investiu já, nessa outra lotaria.
Que me perdoem, os colegas defensores, a tarouquice, (se o for) se, apesar das palavras bonitas mas vagas e de sentido lato, com que enfeitam a EUTANÁSIA como: autodeterminação, dignidade, pôr fim ao sofrimento do infeliz… eu só discirno e enxergo: - “ que só viva até ao fim, quem o puder pagar”.
Talvez o safanão que o mundo vai sentir com a eleição de Trump, tenha como efeito colateral benéfico, pregar um susto a esta gentinha das elites.
João Miguel Nunes ”Rocha”
Por analogia, a nossa situação presente, traz-me à memória os romances de Ferreira de Castro:-rurais pobres, querendo tenazmente aumentar as suas courelas e mudar a sua sorte, eram aliciados pelos do costume, e para poder partir, empenhavam-se; chegados ao “ Eldorado,” nas entranhas e nos confins do sertão brasileiro, tinham de comprar, fiado e a preços exorbitantes, as ferramentas do trabalho e o sustento, contraindo uma dívida, que ia aumentando a cada safra, amarrando-os inexoravelmente a uma servidão sem grilhões, mas tão amarga, penosa e letal, como a escravatura nas minas de salitre ou nas galeras, da Roma Imperial. Os únicos que enriqueciam eram os “Nunes”, que mercadejavam com a miséria…
Como se lhes assemelha o nosso destino, depois de esbanjarmos a nossa soberania e abdicarmos da nossa moeda, para nos metermos nesta Europa, que não nos quer como iguais, mas como meros serviçais: restaurantes, turismo, sexo, mar, sol, aqui…e, nos países deles, licenciados de grande competência formados com o dinheiro dos seus pais e o dinheiro dos nossos impostos, ou mão-de-obra braçal, diferenciada, barata e descartável. Na minha opinião não há nada (ou muito pouco) de espontâneo nos ”media” e não é por acaso que se dá tanta importância à cozinha: urge apaparicar os nossos donos porque o nosso futuro é, de subserviência e de bandeja.
E, como pano de fundo, deste quotidiano que se vive há duas década, elites medíocres que se sucedem (um até começou de tanga, vestia já fato e gravata, quando posou nas Lajes para a galeria das aberrações e, ascendeu ao topo da banca, onde se jogam os destinos de povos e o saque do mundo), servindo de paus-mandados, ao poder oculto e maligno, que está a conduzir a Europa e o mundo para mais uma hecatombe, usando à tripa-forra três armas letais: a força da guerra, a força do medo e a imensa força do poder mediático, formatando opiniões e subvertendo indelevelmente as democracias.
Mesmo agora que esse senhor choramingas, que democrata, quis tornar todos os portugueses pedintes, e que parece desejar-nos mal, com as suas premonições lamurientas, tão a despropósito como uma carpideira pranteando-se fora dos funerais, foi arredado, e que o presidente da república, parece a antítese dessa “trindade” muralhada e intocável, vá-se lá saber por que virtudes ou méritos, e que foi, isso sim, um dos fautores do atoleiro onde nos enterrámos. O Presidente Marcelo ao contrário do seu antecessor, não mostra receio de contágio ao beijar cidadãs comuns ou medo de beber um copo, com o povo que o elegeu.
Goste-se ou não, é um facto.
Embora com a mudança política, haja já, quem ouse ter esperança, persiste envolvendo-nos como uma carapaça intangível e inexpugnável “a dívida e o serviço da dívida” tolhendo-nos qualquer movimento ou perspectiva de ascensão. É a vontade da” Europa Dona” granítica, inamovível e implacável, em relação aos fracos e cujos propósitos são inconceptíveis de outra interpretação: posse absoluta de Portugal, com o mínimo de ónus e com uma multiplicação dos úberes…
A prová-lo, há a verborreia que antecede a aprovação dos orçamentos por Bruxelas, e que apesar da facúndia, já todos sabemos de cor: - cortem nos salários, nas pensões (mesmo nas contributivas), na segurança social, na saúde, na despesa pública… aumentem-se os impostos e canalize-se o dinheiro do contribuinte para “salvar” os bancos falidos por falcatruas premeditadas e “salvos estes” urge vendê-los aos estrangeiros por preços patéticos etc, etc… Enfim, privatizar, entregando- nos, tudo o que seja lucrativo, e eliminar, por inútil, tudo que só sirva os contribuintes portugueses, sem render. É neste contexto e visando aumentar a ordenha, que se insinua e avulta, a premência de discutir e aprovar a eutanásia: - que importa que não existam cuidados paliativos públicos e acessíveis, se mesmo sem os haver, a fase terminal e fatal das doenças, já é tão cara…Proceda-se com discernimento e abrevie-se o sofrimento do infeliz (morte digna, precoce e baratinha), se for pobre, e, se for rico, mantenhamo-lo vivo o mais possível, não obstante a melancolia dos herdeiros… Até a Santa Casa da Misericórdia investiu já, nessa outra lotaria.
Que me perdoem, os colegas defensores, a tarouquice, (se o for) se, apesar das palavras bonitas mas vagas e de sentido lato, com que enfeitam a EUTANÁSIA como: autodeterminação, dignidade, pôr fim ao sofrimento do infeliz… eu só discirno e enxergo: - “ que só viva até ao fim, quem o puder pagar”.
Talvez o safanão que o mundo vai sentir com a eleição de Trump, tenha como efeito colateral benéfico, pregar um susto a esta gentinha das elites.
João Miguel Nunes ”Rocha”
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