quarta-feira, 7 de março de 2018

La dona é mobile


Os gerontes que atinjam a vetusta idade da aposentação e, não tenham a boa ou a má sorte, de se finarem “in actu e in situ”, devem preparar-se para uma abalada suave, indolor e de motu próprio, porque neste admirável mundo novo globalizado, as leis que preconizam e favorecem a morte, prevalecem sobre as que protegem a vida (interrupção voluntária da gravidez, testamento vital, eutanásia, aplicação da pena de morte…) e aos velhos, untou-se e besuntou-se o declive ingreme, que sem arrimo ou corrimão, os privilegiados longevos, têm de descer.

Os ratos abandonam o barco que se afunda, muitas famílias cientes e ciosas do pedigree dos seus cachorros ou bichanos, abandonam o parente doente ou velho que se esvai, e os nossos grandes empresários que mercadejam com os comes e os mui honestos banqueiros que mercadejam sem princípios, dizem e são unânimes, que é preciso ir buscar mão-de-obra onde ela abunde e barateie, sem restrições de fronteiras que são coisas antiquadas que só favoreciam os contrabandistas e deste excesso de humanos, se aproveitem apenas os mais aptos e se deixem os que sobejam vegetar, até que se instalem no subsolo.
Nesta próspera evolução a mando do ”papá económico”, pai biológico de todos os poderes, paira, sobre todos os futuros individuais e colectivos da plebe trabalhadora, pensionista ou subsídio-dependente e também sobre os” potenciais pobres diabos ricos” que entregaram a gestão da sua reforma a fundos de investimento, a seguradoras, a bancos e a outras Donas.

Brancas…, a sombra terrível, da “volubilidade das regras na hora de pagar” porque todos os contratos novos têm entrelinhas ambíguas e miudinhas, que os anulam unilateralmente, caso os factos para que foram subscritos e pagos, aconteçam (Siresp, Saúde, Reforma…) e os contratos antigos que eram de boa e honesta redacção são crivados por leis retroactivas que lhes esbulham a eficácia, configurando uma ”falcatrua legal”.

O roubo por leis ao alvo, que marca o fim do Estado de Direito, iniciou-se no princípio da última década do século passado e dele foram vítimas preferenciais os do costume e com particular acutilância os médicos que trabalhando no SNS tinham (às vezes com perdas significativas) optado por subscreverem a CGA e a ADSE. Nesses tempos de vacas obesas, a necessitar da colocação de bandas gástricas, em que o dinheiro jorrava de Bruxelas numa abundância de engodo e de embuste, e o ordenado dos funcionários públicos passou a ser tributado, abriram e proliferaram,” num exagero à portuguesa” as clínicas de fuga ao Fisco, que por maroscas e cosméticas emagreciam o irc e menos eficazmente o irs (os ricos serviam-se de custos sumptuosos e de paraísos fiscais, os remediados faziam contas poupança-habitação, reforma e outras e os pobres pagavam e calavam). Estes esquemas nasceram de uma cumplicidade entre o governo e os bancos em que todos perdiam menos estes. E eis-nos na história da tanga e na pose graciosa do protagonista nas Lajes, sorrindo e mentindo, com desfaçatez vomitiva.
E a bolha imobiliária rebentou, e a conta na vez de ser imputada aos fautores usurários, passou para os cidadãos no ”drama/farsa do Resgate” e da honra, de não renegociar a dívida ou os juros da dívida.

E, como o dinheiro não se multiplica por cissiparidade como as células, nem Bruxelas no-lo dá, eis-nos chegados a um risonho presente apanágio de um encantador futuro, em que há um aumento diário da esperança de vida, para diminuir as reformas, a eutanásia para diminuir a velhice e os custos das terapêuticas, os incêndios para engordar os lóbis e esbulhar o pequeno proprietário da floresta e o ataque ao SNS para favorecer a indústria da doença… E, como nos contos de fadas mais lindos e mais utópicos, só os ricos adoecerão. Os pobres terão atingido enfim, um estado de boa saúde desde que nascem até à defunção.


João Miguel Nunes” Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º187 • Março 2018)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

OS HOMENS ENCOLHIDOS


Os velhos e os doentes no limiar da outra vida ou (arredando dogmas, sonhos e utopias) a um passo, do “pó ao pó”, têm sobre os outros cidadãos a enorme vantagem de em breve serem acometidos por uma mudez definitiva e por uma frieza gelada, refractária e avessa aos lumes que ateiam os rastilhos dos rancores e das vinganças, além da notória decadência e fragilidade que em geral precede o fim, tolhendo-lhes a defesa e tornando-os os alvos preferenciais destes guerreiros que pejam e se acoitam nas elites e que se pelam por ir à luta sem dar a cara, ou arriscar o pelo, e, que sem um resquício de bondade ou de decência, desceram à vileza desalmada de associarem a abundância da velhice, ao afundamento do país e à deriva sem perspectivas dos jovens, criando de propósito, uma clivagem hostil de gerações que aduz à já mísera solidão dos velhos, uma barreira de antipatia glacial e de aversão, que dão azo, a todo o tipo de abusos: espancamentos dentro e fora do seio familiar, fome verdadeira, aprisionamento em enxovias que teriam aterrado Dante, e inspirado Satanás a redecorar as ”profundas”.

Que raio de mundo é este, que fervilha e medra à nossa volta, com livre trânsito perante a nossa complacência em que todos os dias vemos trucidados pelas elites os princípios mais básicos da equidade e a decência, que presumimo-lo, norteia a maior parte dos seres humanos. Estão a cortar-nos rentes as vias de saída ascendentes e as saídas descendentes que nos propõem são cada vez mais dúbias, tortuosas e tão ingremes que parecem insusceptíveis de desembocar na luz.

Tidos por néscios e prostibulários em Bruxelas e como meros pagadores de impostos e eventuais eleitores sugestionáveis, de raciocínio parco e lerdo, pelas nossos, que se de outro modo o fossemos, não nos viriam com as explicações inverosímeis, que espantam pela singeleza, que só podem advir do pouco empenho a que recorreram, mesmo aduzindo a pobreza neuronal implícita.

E, que raio de gente somos nós, que permitimos, que o ónus brutal do resgate, imposto pelos banqueiros a um governo “faz de conta” seja pago e repago pelos cidadãos, mesmo pelos que ironicamente nunca puderam abrir uma conta bancária, e a banca, na vez de gratidão, abra falência fraudulenta em catadupa, apoderando-se do pecúlio aforrado em vidas inteiras de trabalho e de privações e sob o pretexto vetusto, de uma credibilidade há muito finada, nos imponha o conto “do banco bom, banco mau” e respectivos encargos presentes e futuros, que outra coisa não é, do que troçarem de nós e amputarem-nos o futuro, amputação esta que deve ser tomada em sentido literal, se a eutanásia for aprovada, porque agora, que os poderosos e os estrangeiros, esgaravatam em tudo o que deveria ser, só público, vai iniciar-se uma época de terror e de selecção, de ”doente rico, doente pobre”…. Em que o doente rico só tem a temer as situações que tornem prevalecente a vontade dos herdeiros, e o doente pobre, acossado pelo sofrimento, olhado glacialmente e com enfado pelos seus, sentindo-se o encargo que realmente é, com a autoestima num pélago abissal, vai “às cavalitas do medo e da angústia” pegar “voluntariamente” no copinho de “cicuta” dado pelo simpático algoz de bata branca.

Nós, os médicos, vinculados pelo Juramento de Hipócrates, à exclusão da morte como tratamento, não devia-mos enfileirar nunca, na lista de pretendentes aos lugares de carrasco que isso não nos trará honra e mutilará para sempre a confiança dos doentes, mas denunciar, isso sim, a carência quase absoluta, de cuidados paliativos e continuados públicos, o que faz com que a eutanásia a “pedido do doente pobre” aqui e agora, (se aprovada) não seja uma opção mas a inexorável e única alternativa ao sofrimento… e, se por um momento que seja nos pusermos no lugar do outro, sentiremos como obrigação inadiável, exigirmos, a criação de cuidados paliativos a que todos sem excepção, possamos recorrer.

Que raio, nós que fomos pioneiros na abolição da pena de morte, vamos reintroduzi-la, para os deserdados…

Podemos não saber de quem é a mão que segura a batuta que rege a orquestra que marca o passo da nossa” dança macabra” em execução, mas temos olhos e percepção para enxergar os mandatários que mantêm há anos uma relação simbiótica ou parasitária com a coisa política, e que ao vir justificar-se mediaticamente, na vez de desenxovalhados saem encolhidos como a roupa de má qualidade ao ser lavada. E abundam na política como o caruncho na madeira afectada, ao dar sinal…


João Miguel Nunes ”Rocha”
(artigo publicado na revista ORDEM DOS MÉDICOS  n.º119 • Maio 2017)

domingo, 12 de março de 2017

A HISTÓRIA PREGRESSA DOS GERONTES

O velho acordou sobressaltado e ainda estremunhado enrodilhou-se na cama como uma enorme orelha apontada, pronta a caçar qualquer ruído provindo do quarto do filho e da nora, mas tudo se fechara no silêncio opressivo das noites cálidas de verão no campo, que escutadas depois de se suster a respiração, despertam em mil sons miudinhos, quase no limiar da audição ao princípio, mas que num crescendo proporcional à nossa atenção, se desdobram e se definem em pios, roços, farfalhos, sibilos, roncos, estalidos, haustos, suspiros,… como se a noite se tivesse povoado e fervilhasse de duendes invisíveis atroando os ares, com os seus sons dispneicos e asmáticos…e, que revelam a actividade voraz dos seres miniaturais que connosco partilham todos os espaços do nosso mundo tridimensional  e de cuja existência nem sequer nos apercebemos na nossa pressa frenética, humana e inútil de não querer gastar tempo, acabamos por não o viver sequer, porque a realidade só existe e só nos roça, no lampejo do momento que passa, e se vai…

Ainda bem que acordara porque no seu pesadelo, vira-se a descer as escadas do Notário com os filhos e as noras, aos quais passara procuração irrevogável sobre todos os seus proventos e bens, passando a indigente… Não corria porém o risco de cometer tal erro, pois tivera um amigo que o fizera, e no próprio dia, fora trasladado de casa para um lar de terceira idade dos mais miseráveis, onde sorrateiramente o sedavam, para poupar na mão-de-obra e no “obrar” e se possível engulhar-lhe o apetite. Não durara porém muito o calvário do amigo, porque durante o “milagre económico”, ainda apregoado por certas almas penadas que por aí andam sem perceber que estão politicamente mortas, a família achando que ficaria muito mais barato manter o velho em casa com ração reduzida e em metabolismo basal e amanharem-se com a mensalidade do lar, foram dar com ele sentado na sua cadeirinha de plástico branco, mas já rígido e frio, como peixe na arca…

O funeral só não foi ”à marinheiro” com lona e lastro, ou uma cova num barrocal, porque a lei não o permite e o pune, mas foi cremado, que fica mais barato, embora também se não perceba que interesses pretende a Lei proteger, quando obriga a que o finado seja incinerado de mortalha e caixão, quando enfaixado num lençol em” múmia”, como as nossas enfermeiras tão bem fazem, manter-se-ia a moralidade e o decoro, gastar-se-ia menos e diminuir-se ia o efeito estufa, tão nefasto ao planeta.

Apesar da especialidade de oftalmologia com os seus aparelhos e técnicas, não ser das mais propícias à intimidade e atreitas ao desabafo em que se abre o coração, eis uma historia pregressa que ouvi muitas, muitas vezes e cujo desenlace foi quase sempre, a cadeirinha de plástico dum lar das Misericórdias ou dos Inválidos do Comércio, se privilegiados, mas muito pior, quase sempre, onde letárgicos porque deprimidos e ou sedados, olhavam sem necessidade de olhos, para um passado ainda próximo, mas já tão intangível e distante, como a juventude eterna ou o amor para sempre…

Podem existir netos, bisnetos, milhentos entes queridos, que nunca mais farão parte do quotidiano do velho, tão longe e inacessíveis, como se defuntos, e, causando-lhes mais dor do que se o estivessem de facto, porque à tristeza da ausência soma-se a amargura do abandono e do ostracismo.

Quer sejam santos ou pecadores, é neste mísero inferno que desaguam e são arrumados em camas estreitas e bem juntinhas, os nossos gerontes, quando um destino malévolo lhes abate a autonomia, ou são aliciados com engôdos, em que a simulação de ternura e a carência famélica dela, desempenham papeis primordiais, para que a presa se atole no lamaçal de ardis e fique refém, dos que ama… ou que amou…

À medida que divagava, na modorra em que flutuava desde que acordara, o torpor foi dando lugar ao estado vígil e de repente, com o sobressalto e a dor excruciante, de quem é ferroado por uma vespa ou picado por um lacrau, percebeu que não acordara de um pesadelo… e, que na véspera, cedera a sua tutela aos seus…
Entrou em profunda depressão, intercalada por acessos de raiva que lhe acordavam a moinha retro esternal da ”angor pectoris” quando uma ou outra das noras, lhe trazia a malga com a parca ração e o olhava, já não com o olhar terno e meloso do período de persuasão, mas com o desdém triunfante, de quem apanhou enfim, o detestado rato, e se delicia a vê-lo debater-se em vão.

Acresce aduzir, que caso se tratasse de um belga, era natural e até provável, que lhe fosse prescrita a eutanásia, como a solução que a todos contentaria: a família herdaria os bens e os tarecos e livrar-se-ia do tropeço, o estado pouparia no encargo e o velho seria definitivamente curado da sua depressão.

No nosso atrasado Portugal, a velhice escorre, desagua e atafulha os lares seniores e outros sítios secretos infernais, onde se morre de tristeza e se põem os velhotes a saltitar nas suas artroses e a bater palmas para as visitas importantes, numa pretensa alegria tonta, que faz doer o coração de quem vê e o tem. Em breve porém, evoluiremos como Bruxelas, para a civilização e o civismo plenos, a bem ou a mal, como está patente nas ameaças do ministro das finanças de um certo ”país dono”, ou nos vaticínios e premonições dum morto-vivo, que se tivesse direito a cognome, este seria o de “Terror do velhos e dos pobres diabos”.

Como geronte que discorda dos destinos supracitados e teme os que estão para vir, venho apelar à bondade (se a houver) e sugerir que se proceda à partida dos velhos, empanturrando-os de alegria, fornecendo-lhes as terapêuticas, os tónicos e um substrato capaz para se alambazarem. Aos perfeitos e/ ou refractários, proceda-se com a subtileza dos ”Bórgia” e não de maneira boçal e brutal.

João Miguel Nunes ”Rocha”
( Março de 2017)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O HOLOCAUSTO DOS ÓNUS

No Mar Mediterrâneo, perto das costas de Lampedusa, rentes à tona, entre destroços e imundícies reunidas no estofo das marés mortas, cadáveres ventrudos vogam nas correntes mansas, semelhantes a medusas enormes, gelatinosas e horrendas. Migrantes encurralados em redis, guardados por cães lobos e por lobisomens, lutam contra as privações, contra o medo e contra a angústia de um destino incerto…e contra o terror-pânico, da sua devolução ao demónio. Homens-bombas, fazem-se explodir em estilhas sangrentas, que se juntam aos corpos esquartejados das suas vítimas. Haverá neles apenas o desejo de fazer mal? Que enorme poder ou desvario, lhes serve de motivação e lhes dá ânimo!... Emigrantes, sobretudo de África e dos PALOP, tornam-se malquistos, por disputarem aos nossos, os empregos já de si escassos e permitirem aos patrões, permutarem salários parcos, por salários de miséria.

Por analogia, a nossa situação presente, traz-me à memória os romances de Ferreira de Castro:-rurais pobres, querendo tenazmente aumentar as suas courelas e mudar a sua sorte, eram aliciados pelos do costume, e para poder partir, empenhavam-se; chegados ao “ Eldorado,” nas entranhas e nos confins do sertão brasileiro, tinham de comprar, fiado e a preços exorbitantes, as ferramentas do trabalho e o sustento, contraindo uma dívida, que ia aumentando a cada safra, amarrando-os inexoravelmente a uma servidão sem grilhões, mas tão amarga, penosa e letal, como a escravatura nas minas de salitre ou nas galeras, da Roma Imperial. Os únicos que enriqueciam eram os “Nunes”, que mercadejavam com a miséria…

Como se lhes assemelha o nosso destino, depois de esbanjarmos a nossa soberania e abdicarmos da nossa moeda, para nos metermos nesta Europa, que não nos quer como iguais, mas como meros serviçais: restaurantes, turismo, sexo, mar, sol, aqui…e, nos países deles, licenciados de grande competência formados com o dinheiro dos seus pais e o dinheiro dos nossos impostos, ou mão-de-obra braçal, diferenciada, barata e descartável. Na minha opinião não há nada (ou muito pouco) de espontâneo nos ”media” e não é por acaso que se dá tanta importância à cozinha: urge apaparicar os nossos donos porque o nosso futuro é, de subserviência e de bandeja.

E, como pano de fundo, deste quotidiano que se vive há duas década, elites medíocres que se sucedem (um até começou de tanga, vestia já fato e gravata, quando posou nas Lajes para a galeria das aberrações e, ascendeu ao topo da banca, onde se jogam os destinos de povos e o saque do mundo), servindo de paus-mandados, ao poder oculto e maligno, que está a conduzir a Europa e o mundo para mais uma hecatombe, usando à tripa-forra três armas letais: a força da guerra, a força do medo e a imensa força do poder mediático, formatando opiniões e subvertendo indelevelmente as democracias.

Mesmo agora que esse senhor choramingas, que democrata, quis tornar todos os portugueses pedintes, e que parece desejar-nos mal, com as suas premonições lamurientas, tão a despropósito como uma carpideira pranteando-se fora dos funerais, foi arredado, e que o presidente da república, parece a antítese dessa “trindade” muralhada e intocável, vá-se lá saber por que virtudes ou méritos, e que foi, isso sim, um dos fautores do atoleiro onde nos enterrámos. O Presidente Marcelo ao contrário do seu antecessor, não mostra receio de contágio ao beijar cidadãs comuns ou medo de beber um copo, com o povo que o elegeu.

Goste-se ou não, é um facto.

Embora com a mudança política, haja já, quem ouse ter esperança, persiste envolvendo-nos como uma carapaça intangível e inexpugnável “a dívida e o serviço da dívida” tolhendo-nos qualquer movimento ou perspectiva de ascensão. É a vontade da” Europa Dona” granítica, inamovível e implacável, em relação aos fracos e cujos propósitos são inconceptíveis de outra interpretação: posse absoluta de Portugal, com o mínimo de ónus e com uma multiplicação dos úberes…

A prová-lo, há a verborreia que antecede a aprovação dos orçamentos por Bruxelas, e que apesar da facúndia, já todos sabemos de cor: - cortem nos salários, nas pensões (mesmo nas contributivas), na segurança social, na saúde, na despesa pública… aumentem-se os impostos e canalize-se o dinheiro do contribuinte para “salvar” os bancos falidos por falcatruas premeditadas e “salvos estes” urge vendê-los aos estrangeiros por preços patéticos etc, etc… Enfim, privatizar, entregando- nos, tudo o que seja lucrativo, e eliminar, por inútil, tudo que só sirva os contribuintes portugueses, sem render. É neste contexto e visando aumentar a ordenha, que se insinua e avulta, a premência de discutir e aprovar a eutanásia: - que importa que não existam cuidados paliativos públicos e acessíveis, se mesmo sem os haver, a fase terminal e fatal das doenças, já é tão cara…Proceda-se com discernimento e abrevie-se o sofrimento do infeliz (morte digna, precoce e baratinha), se for pobre, e, se for rico, mantenhamo-lo vivo o mais possível, não obstante a melancolia dos herdeiros… Até a Santa Casa da Misericórdia investiu já, nessa outra lotaria.

Que me perdoem, os colegas defensores, a tarouquice, (se o for) se, apesar das palavras bonitas mas vagas e de sentido lato, com que enfeitam a EUTANÁSIA como: autodeterminação, dignidade, pôr fim ao sofrimento do infeliz… eu só discirno e enxergo: - “ que só viva até ao fim, quem o puder pagar”.


Talvez o safanão que o mundo vai sentir com a eleição de Trump, tenha como efeito colateral benéfico, pregar um susto a esta gentinha das elites.


João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 175 da Ordem dos Médicos de Dezembro de 2016)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A PANACEIA DOS CAÍDOS


O tempo corre perpetuamente numa voragem avassaladora, empurrando-nos para a defunção e puxando pelos vindouros num frenesim de renovação e de mudança, que goram e tornam ridículas, as nossas pretensões de importância ou de eternidade individual.

E, é a essa centelha de tempo em que “somos”, que sob o pretexto hipócrita de benquerença, de dignidade, de compaixão e de outras alarvidades, porque inadequadas, querem arrancar as fracções em que doentes ,dependentes ou velhos nos tornamos fontes de carregos e de despesas, como se a nossa vida de ”moirejo” nada valesse ou pesasse na balança das mais valias, e uma vez tornados improdutivos sob a perspectiva dos comerciantes armazenistas de mercearia e de bens não transaccionáveis, transaccionados, (que são os nossos empresários padrão): abrace-lhes o coval em terra benzida, porque não cometeram o pecado mortal do suicídio, fomos nós que os matámos, encurralando-os entre a eutanásia e o sofrimento não tratado e atroz, ou ,entre o testamento vital e o medo.

A extrema importância que damos à nossa ”vidazinha”, mesmo quando vazia de qualquer acto que a justifique ou valide, tem como contrapeso o pouco apreço que nos merecem as demais, quando não acresçam ou enriqueçam a nossa condição. E, com o passar inexorável do tempo, até os parentes mais próximos e os mais queridos, se tornam tropeços importunos, lerdos em desferrar da vida, e tardos em ocupar a sua condição mais duradoura e inócua, de retratos no álbum da família.

Já era assim no tempo em que os afectos se forjavam, floresciam e medravam, no convívio e na partilha, quanto mais agora que entre nós e os nossos descendentes, se abriu o abismo do mundo virtual, mais apelativo e real para os jovens e para os menos jovens, do qualquer afecto, e se instalou e cresceu desmesuradamente, a sanguessuga do consumismo compulsivo e frenético, que esbanja e deixa exangue, tão depressa, como a secção bilateral das jugulares.

Não tenhamos ilusões. Nós, os velhos, os doentes, os incapacitados, os dependentes, ou os que (como eu) se bastam a si próprios, enfim os acabados ou caídos, isto é, todos os que chegámos à recta mais ou menos comprida do fim, e, nos incluímos no role maioritário, dos que querem continuar a viver, temos de resistir-lhes. Não tiveram pejo em de ”motu próprio” e para adular Bruxelas, numa subserviência mísera de quem quer alvissaras, de alterar todos os contratos, esbulhando-nos a favor da Banca e dos Grandes Interesses, indiferentes à emaciação das famílias que deixaram de poder cear, à miséria dos velhos expulsos dos lares, ao tormento dos infelizes, que não chegando às terapêuticas, em vão fecharam os olhos, para não verem o gaudio aterrador da morte… Se os não mantivermos quedos pelo medo, único sentimento que os afecta e que respeitam, em breve nos alterarão drasticamente o prognóstico vital.

Impondo-se à razão, há um facto incontornável: enquanto não se criarem cuidados paliativos e continuados públicos, acessíveis e bastantes, a eutanásia e o testamento vital, nunca serão uma opção livre, mas uma cedência ao sofrimento ou ao pavor quimérico (encarniçamento terapêutico…), mesmo não havendo outras pressões, (e é tão fácil havê-las) intoleráveis, a condicionar a decisão…

Se os médicos aceitarem fazer o papel de algozes, perderão para sempre, o direito ao respeito e à confiança.

Nasci poucos anos depois do encerramento de Auschwitz e agora no “ultimo andamento” quase sempre “adágio” para os velhos, que na vez de prezados, são acusados de não morrer, antevejo novos campos e novos morticínios, mais hediondos ainda, porque perpetrados, não sob o ódio cego do fanatismo étnico, mas levados a cabo, com a frieza desalmada desta gente, que tem quase tudo e vai, comparar o valor de cada vida, com o custo da malga de sopa aguada, que a mantém.

As órbitas dos planetas são elípticas, as dos electrões circulares, nas grandes viagens oceânicas a distância mais curta entre dois pontos é uma linha de rumo curva, e o nosso principio e o nosso fim reencontram-se no pó, num perpétuo cirandar de vida e morte e de movimentos harmoniosos e encadeados…O que torna cada vida tão importante , é que é única e irrepetível. Um vindouro ou mesmo um clone, não seremos nós. Somo-lo ou fomo-lo uma só vez…

Que alguém, bem tratado, não submetido a pressões familiares, sociais, materiais, decida suicidar-se, aceita-se, que remédio, e raros serão, os que tendo ânimo, não possam fazê-lo, por falta de capacidade física.

Que um grupo de pessoas, juízes, médicos, enfermeiros, cidadãos comuns…. enfim qualquer que seja a eminência dessas personalidades, possa decidir sobre a validade da vida alheia, acho-o uma verdadeira aberração.

O sofrimento, a felicidade, o amor não se apreendem e entendem, por muito bem descritos que o possam ser, pelos poetas e pelos grandes escritores e, interpretados por quem os lê. Só se abarcam e sentem como vivências ou como recordações. E, por isso mesmo uma criança de dez anos criada por uma mãe madrasta, pode saber muito mais sobre sofrimento, do que um  juiz, um médico ou um jornalista sexagenários e felizardos, que sempre lidaram de perto com a dor dos outros, que obviamente não contagia… E, um doente moribundo, apaziguada a dor e acarinhado, pode sentir, que esse tempo inexoravelmente curto, valeu por toda a sua vida de “galego”.

Na minha opinião por detrás das palestras e dos debates sobre a eutanásia esvoaça num voejar impiedoso e funesto, a ave de rapina da ganância dos senhores do mundo. 

Coitadinho, é no seu interesse e será ele a decidi-lo. É, pois, uma questão de tempo, até ser  aprovada…Depois, num ápice, seguir-se- á a sub-rogação (não mandatada por estes) dos doentes pobres, dos velhos, dos incapazes…Para os ricos todas as terapêuticas possíveis e (se sonhadores) a crio conservação; para os pobres, a morte, com uma “ajudazinha” do carrasco…para evitar delongas e prevenir arrependimentos derradeiros…

Não há nenhuma doença, que torne indigno quem a padeça; indigna é esta gentinha e quem vendo-o, não se lhe opõe. O que acautelaram nos paraísos fiscais não os cevou; querem alambazar-se nos míseros despojos..

João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 170 da Ordem dos Médicos de Junho de 2016)

domingo, 1 de maio de 2016

OS DOGMAS

Se já não acreditamos em moiras encantadas e encantadoras, em belas adormecidas e menos ainda em príncipes formosos que as despertam com um beijo, pródromo de uma felicidade que não se esboroa nem fenece, como explicar as crenças arreigadas, indiscutidas e aceites como dogmas: de que impelidos por uma dívida crescente e impagável, que nos descarna e que nos encova, atingiremos o planalto da prosperidade? 
Que os salários parcos e miseráveis pagos pelo labor presente, se devem, não à rapacidade dos ricos, mas à sua intenção sincera, de cheias as suas casas fortes, lhes escancararem as portas em torrentes de dádivas a distribuir a eito, pelos sobreviventes espartanos, rijos, estoicos e escassos, da fome e da míngua pregressas? Que, pasme-se, o dinheiro do contribuinte esfregado na honra dos bancos falidos, indelevelmente enxovalhada, pelas falcatruas dos donos, devolver-lhes-á a credibilidade e a candura imaculada das donzelas?

Será que a prédica que nos foi repetida desde a infância e antes de nós aos nossos pais e avós, com a persistência retumbante dos batuques, de que as dádivas ao Vaticano ou a Meca, a Jerusalém ou à Igreja Maná….creditar-nos-iam contas de grande rendibilidade num Céu sem inflação nos fragilizaram o córtex cerebral criando nele, zonas patológicas de grande permeabilidade ao fantástico, ao insólito e ao sobrenatural, o que até nos serviria de arrimo e de protecção contra o nosso medo mais aterrador, que é o da morte, como fim inexorável e absoluto, e permitir-nos- ia intermitências sonhadoras onde ora morremos, ora não…Não pretendo apoucar as crenças dos outros, que sinceramente respeito e invejo, nem sequer pôr em dúvida a possibilidade de um Deus criador; só que, para minha infelicidade não consigo aceitar, que Havendo-o, os homens, e menos ainda o seu ouro, lhe aproveitassem, e isso mina a minha credulidade em relação às religiões, e coloca-me entre os agnósticos nuns dias, e entre os ateus, nos demais. Na minha opinião, só por uma desmesurada megalomania nos podemos considerar feitos à semelhança e imagem de um Deus omnisciente e omnipotente, que algures, num dos estádios da nossa evolução biológica, nos dotou de alma e nos concedeu (ou à alma) o dom da imortalidade, transformando-nos em seus sósias humanos, ou quase…a nós que somos egocêntricos e egoístas, e, que só nos sentimos verdadeiramente chocados com os males alheios, quando há a possibilidade de nos acontecerem também. Admito, e não me considero excepção, que as vísceras expostas ou os corpos esquartejados (constantes dos telejornais) não me embotam o paladar ou engulham o apetite com que continuo a saborear o  farnel... Assumida esta minha insensibilidade de desalmado, por que será que me emociono e 
comovo ao ver os olhos imensos com imensas moscas das criancinhas negras, prestes a morrer de fome?...Ou sinto uma raiva avassaladora, uma raiva de querer esbofetear e morder, quando atino com um dos nossos muitos tribunos, que, acoitado no seu subsidio vitalício, passa as sessões parlamentares em jogos de: persegue, prende, mata, esfola; em
computadores saídos do erário publico, enquanto se urdem as leis para mais um esbulho… à já, mal cheia malga, dos velhos? A sistólica sobe-me em frémitos latejantes e suicidas, quando comparo a justiça que deixa em prisão domiciliária, (leia-se, com segurança pública), os gatunotes de gravata, e encafua nas prisões os pobres diabos, que sucumbiram à visão, dos tiques mandibulares dos filhos, acossados pela fome crónica.

O primeiro sobressalto de desilusão quanto à nova governação senti-o, não pelo derrube do” eleito”, nem pela coalizão à esquerda, mas pelo modo dogmático, pressuroso e dúbio, como se imputaram aos cidadãos contribuintes as contas do Banif, poupando mais uma vez os cidadãos sem abrigo. É imoral e inconstitucional; em nome da igualdade, se nada possuem, penhorem-se- lhes as camas/caixotes….

Desde que começou a história da tanga e das queixinhas lamuriosas sobre a governação precedente, que os velhos têm sido assaltados, em todos os seus direitos e não só se conseguiu a pretendida clivagem geracional como se inculcou em muitos um sentimento de culpa por continuarem a viver e em quase todos um sentimento de medo: medo de acorrer aos hospitais em casos de urgência; medo de levar à boca a garfada, numa casa em que o pão não abunde, mesmo que, o pouco que haja, sejam eles a paga-lo; medo de ouvirem da boca dos entes queridos frases que firam ou matem inexoravelmente os afectos; medo de serem tirados de perto dos seus e perpetuamente encafuados num mundo que lhes é estranho e hostil; medo de ouvirem dos que amam, mas que os não amam, frases tornadas prováveis, neste mundo sem dó: porque não subscreve a eutanásia ou o testamento vital?...

Talvez seja por ser velho, e eu próprio uma vitima potencial, que penso que há razões para ter medo.

De facto, num país onde a oferta de cuidados paliativos ou continuados a cidadãos pobres, é quase nula, é no mínimo desconforme e ilógico que se aceite que o Testamento vital ( e em breve a eutanásia) são a resultante de “ bem querer aos doentes”… e é muito, muito estranho que se aceite como vinculativa a decisão tomada há cinco anos, sabe-se lá em que contexto e sob que pressões ou desvarios para parar a terapêutica e o suporte de vida a um subscritor do testamento vital e simultaneamente se desrespeite a vontade lúcida da vitima de violência doméstica e se delate o caso, juntando em muitos casos, a um drama, um dédalo de outros dramas. Os médicos não deviam ser “Anúbis” de bata branca ou delatores…na minha opinião, claro.

Dez mil crianças, desapareceram num ápice e sem rasto, tragadas pela noite escura de breu; há honra em não renegociar a divida ou os seus juros, deixando perecer à míngua os nossos; os migrantes começam a ser desapossados do que é seu, e expulsos; há setenta e um anos encerou Auschwitz, onde milhões de infelizes entraram por seu pé, e tornados termicamente voláteis saíram em volutas fumarentas de átomos e moléculas, para sempre tão desumanizadas, como os seus carrascos. Que a história se não repita, porque nós os PIGS, não somos benquistos.

João Miguel Nunes ”Rocha”

(artigo publicado na revista 168 da Ordem dos Médicos de Abril 2016)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A VANTAGEM DAS EPIFORAS

O cume da miséria, dos pobres diabos reais ou potenciais que todos somos, pode cheirar a desinfectante e a formol  nos sítios civilizados onde se procede civilizadamente  à  aplicação da pena de morte, à eutanásia ou ao extermínio de seres humanos. Emanar o odor adocicado e repulsivo dos corpos em decomposição impestando a maresia nos “morredouros” à volta de Lampedusa. Ser inodora e até de um pitoresco idílico, nas sanzalas de palhotas de África e materializar-se na aparição macabra de um esqueletozinho que nos fita com  os seus olhos desmesuradamente abertos e medonhamente tristes fazendo-nos descrer da bondade. Feder a  suor, a fezes, a urina empenicada e a medo, sim porque o medo tresanda, nos antros miseráveis do mundo ocidental. Ser perfumada, e até de tal beleza, fragrância e encanto, que o incauto velho, libertino e folgazão, dá por si a invejar Fausto e a sua danação, e nem sequer dá por ela, que no entanto subjaz horrenda, nos bordéis de escravas. Não ser sequer real, mas mesmo assim mais avassaladora e pungente  que as precedentes, quando descrita com o talento sublime de um Dostoiewsky, que nos deixa cabisbaixos e  acabrunhados de comoção. Ser inerrarrável, aterradora, apanágio de um futuro que nos preparam, e malogradas ou de escasso  exito que foram, as armadilhas montadas no caminho, por vezes  longo, da morte natural (Testamento Vital....) nos querem agora impôr, com o fito inicial e imutável de gastarem menos e arrecadarem mais, explicando-nos maldosa e atabalhoadamente que a “BOA MORTE” é em casa junto dos entes queridos. Este: vem, disse a aranha à mosca...visa preparar o terreno para coagir as famìlias, a aceitar e a cuidar do seu doente terminal. Mesmo os nazis nos seus campos / matadouros, só arrancavam os dentes de ouro, depois de terem anestesiado os portadores com Cyclon B... Esta “gentinha” quer esgaravatar nas entranhas dos vivos, que vão morrer, que somos todos.
Vão arguir flexuosa e despudoradamente, invocando o superior e prevalecente interesse do doente, num arremedo boçal de compaixão  pleno de impiedade, e sugestionados os cidadãos pelo martelar mediático, vão legislar para estabelecer  a obrigação com base no vínculo parental  em  sentido  lato, arredando como sujectivos e pouco importantes, os laços de afecto, as condições materiais e logísticas...a vida real... É  claro, que os seres rapaces que seguram e orientam a mão do legislador, escapam ao âmbito de qualquer lei, mas mesmo que por milagre esta se lhes aplicasse, fácil lhes seria isolar o seu doente, num recôndito  dos seus palacetes e só lhe aparecer, quando dispostos, arvorando uma expressão carinhosa, adequada  e proporcional ao seu “interessezinho”, ou então treslada-lo, sem que isso parecesse mal, para uma dessas instituíções de cuidados paliativos ou continuados privadas, cujo preço deixa boquiaberto e calado de espanto qualquer potencial  má-lingua e prova sobejamente quanto o doente lhes é caro. Excluídos, por se lhes não aplicar, os do costume, restam como destinatários da lei, os pobres e a classe média depauperada, pelos assaltos fiscal e semelhantes.
 Algures, transcendendo o egoísmo que forja  e subjaz aos afectos humanos, volita o amor dos pais e o amor dos amantes durante a fase fugaz do embeiçamento. Exceptuando-os, não há no mundo amor bastante, para que se deseje partilhar as nossas quase sempre pequenas casas, com um  doente terminal  de carne e osso que luta e que geme, que sofre e que o demonstra, que urina e que defeca e que precisa de auxilio constante  para quase tudo, às vezes até para escarrar a expectoração viscosa que se lhe gruda aos brônquios e lhos estenosa e entope numa troada dispneica de roncos e de síbilos, e que lhe cianosa a pele, como livôres cadavéricos temporões... Esta respiração penosa, este sofrimento visível e indizível, esta agonia, tornam o ambiente lúgubre e medonho, e lá no fundo,(porque não admiti-lo?) fazem desejar um desenlace rápido, ao princípio como pensamento insidioso e malsão repelido com pudor e pressa, mas que depois se instala e permanece como um desejo sôfrego como os regressados à tona, depois de uma longa apneia, aspiram pelo ar... e o doente agarrando-se tenazmente à vida que lhe foge, querendo viver qualquer que seja o seu estado, com os sentidos aguçados pelo medo e pela angústia desse fim do mundo que é a morte para cada um, percebe o ar tôrvo dos tratadores, decifra-lhes os pensamentos íntimos, e ao seu sofrimento aduz-se e acresce-lho, um ressentimento amargo pelos que ainda  há pouco lhe eram queridos, e estes, os tratadores, também eles padecentes, são invadidos por uma ambivalência em que o rancor carcome e substitui a piedade, a  benquerença e a ternura.

A agonia assistida e mitigada por profissionais, médicos, enfermeiros, auxilares de acção médica,cujos ofícios incluem a morte, é diferente e o doente  é tratado com eficácia e sem nojo, e sem sentir que o estão a empurrar para onde a existência, passa ao domínio do utópico e a ser regida pela  Lei de Lavoisier.
É evidente que não sou contra a morte no seio da família se houver condições e conjunção de vontades. Acresce referir e reiterar, que nada nas leis vigentes o impede, pelo que obviamente, o que se pretende, é impô-la.
Há muito que esta gente da governação se vendeu e nos vendeu aos ricaços, e a democracia de efémera que foi, há muito que se tornou uma plutocracia onde  tudo é manipulado (talvez até haja mensagens subliminares, impondo-se à vontade) para benefício dos ”poderosos dos cifrões”.. . Até a carência gritante de cuidados  paliativos e continuados  públicos, ou a mutilação do SNS, visa encher-lhes o papo.

Sendo as epiforas um tipo de lágrimas, que não exigem, para que corram abudantes, emoção, comoção ou suco de cebola, recomendam-se....

João Miguel Nunes “Rocha

(artigo publicado na revista 163 da Ordem do MÉDICOS de Outubro 2015)